Pesquisa afirma: o seu endereço define o emprego que você consegue
Pesquisa da IAU/USP de São Carlos mostra como a moradia influencia sua carreira

O Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP, em São Carlos, consolidou quase uma década de colaboração científica com a Universidad Nacional de General Sarmiento, da Argentina, com o lançamento do livro Territórios e Trabalho no Cone Sul: Reestruturações, Mobilidades e Subjetividades entre Brasil e Argentina. A publicação nasce de um convênio firmado em 2022 e analisa, de forma relacional, como as transformações da economia global afetam o cotidiano das classes trabalhadoras em cidades como São José dos Campos, São Paulo e São Carlos (no Estado de São Paulo), e Buenos Aires, na Argentina.
O professor Marcel Fantin, pesquisador do IAU e um dos organizadores da obra, destaca que o livro “coroa uma trajetória” de encontros acadêmicos, intercâmbios e escolas de verão iniciados em 2017. Para ele, o diferencial está no método. “Não buscamos apenas uma ótica comparada, mas uma ótica relacional de entender os processos, os problemas estruturais, mas ao mesmo tempo também buscar soluções para essas questões.”
Onde você mora define o emprego que você consegue
A premissa que atravessa todos os capítulos é de que trabalho e território são inseparáveis. “O trabalho não existe no abstrato, ele acontece no território”, afirma Fantin. O olhar da arquitetura e do urbanismo, combinado à expertise argentina em sociologia e economia, permitiu mostrar que há condicionantes territoriais para qualquer ofício – ou seja, o espaço físico onde se vive abre ou fecha portas.

Outra frente da pesquisa, baseada na dissertação de Giovana de Carvalho Marchesin Rodrigues, defendida em 2024, investiga os polos tecnológicos de São José dos Campos e Buenos Aires como espaços onde as relações de trabalho estão sendo reconfiguradas. Em São José dos Campos, Fantin observa uma mudança de paradigma, onde o território migrou de uma ciência orientada por “missões nacionais” e pelo interesse público para uma ciência voltada às demandas imediatas do mercado.
Essa virada transforma o perfil exigido dos trabalhadores. No setor de Tecnologia da Informação em Buenos Aires, a alta qualificação cria uma barreira de entrada que exclui boa parte da população local. “Antes você levava um currículo numa fábrica e era chamado para uma entrevista. Nessas empresas isso não acontece mais. Você precisa falar inglês, ter noções de programação e formação de nível superior”, diz Fantin. Ao mesmo tempo, a atuação sindical nesses espaços é frequentemente nula, e os profissionais perdem controle sobre horas trabalhadas e remuneração, sobretudo com a expansão do teletrabalho. Enquanto isso, instituições públicas enfrentam esvaziamento de quadros técnicos, um risco real de “apagão tecnológico” pela perda do conhecimento acumulado por servidores veteranos.

O serviço ambiental que ninguém paga
O livro também examina os catadores de materiais recicláveis, comparando São Paulo a Buenos Aires. Fantin explica por meio de uma analogia: “Se você contrata alguém para cortar a grama da sua casa, você não vai remunerar a pessoa com grama. Com os resíduos deveria ser o mesmo.” O argumento é que o poder público precisa pagar pelo serviço ambiental prestado pelos catadores, independentemente do valor de mercado do material coletado.
A comparação entre os dois países revela trajetórias distintas. Em Buenos Aires, uma tradição política mais consolidada permitiu que cooperativas de grande escala conquistassem o “salário social”. No Brasil, a dinâmica ainda é marcada pela “viração”, o improviso cotidiano, e pela fragmentação em experiências menores de economia solidária.
Envelhecer no lugar, resistir ao calor
O livro se encerra com o conceito de “Envelhecer no Território”, que adapta teorias produzidas nos países do Norte Global para a realidade desigual da América Latina. A proposta defende políticas urbanas que permitam ao idoso permanecer em sua comunidade com autonomia, preservando vínculos afetivos e identidade.
Essa permanência, porém, é ameaçada pela crise climática. Populações idosas em periferias adensadas e sem infraestrutura são as mais vulneráveis a ondas de calor e enchentes. A resposta, para Fantin, remete ao simples. “Uma cidade bem arborizada pode reduzir a temperatura em até 3 graus. A árvore é a tecnologia mais antiga e a mais funcional.”
Para Fantin, a obra reafirma o valor da internacionalização acadêmica dentro da própria América Latina. Disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP, o livro se propõe como um gesto de cooperação entre países que compartilham questões estruturais semelhantes. “Olhar para a América Latina é muito mais interessante para buscar, dentro das cooperações acadêmicas, soluções para os problemas comuns”, conclui o professor.
Matéria: Mariana Gaia | Jornal da USP.



