Morre o filósofo Edgar Morin, formulador da teoria da complexidade
Pensador francês, de 104 anos, defendeu a reabilitação do princípio da “desordem” na ciência
O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, um dos mais influentes intelectuais do século 20 e formulador da teoria da complexidade, morreu aos 104 anos, na sexta-feira (29), em Paris. Autor de uma obra que atravessa áreas como filosofia, sociologia, educação, ciência e política, Morin deixou uma contribuição decisiva para a compreensão dos desafios contemporâneos.
O pensador defendia a reabilitação do princípio da “desordem” na ciência e questionava a crença nas verdades absolutas. Em uma de suas reflexões mais conhecidas, escreveu que “toda vida é um navegar num oceano de incertezas, atravessando algumas ilhas ou arquipélagos de certezas”, frase que sintetiza uma das ideias centrais de seu pensamento e a busca por compreender a complexidade da experiência humana.
Nascido em Paris, em 8 de julho de 1921, como Edgar Nahoum, Morin participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Foi nesse período que adotou o sobrenome pelo qual se tornaria conhecido internacionalmente. Formado em Direito, História e Geografia pela Sorbonne, sua obra mais conhecida é O Método, série de seis volumes publicada entre 1977 e 2004, na qual desenvolve a teoria da complexidade.
Segundo Morin, os fenômenos não podem ser compreendidos de forma isolada, pois estão inseridos em sistemas interligados e sujeitos a relações de dependência, incerteza e transformação permanente. Ao longo de mais de sete décadas de produção intelectual, publicou cerca de 80 livros. Entre os mais conhecidos estão Ciência com consciência, Terra-Pátria e Os sete saberes necessários à educação do futuro, obra elaborada a convite da Unesco e amplamente difundida em debates educacionais em diversos países.
Para Morin, o primeiro desafio do conhecimento era admitir suas próprias limitações. “O conhecimento não se constrói sem o risco de erro. Mas o erro desempenha papel positivo quando é reconhecido, analisado e superado”, escreveu.
Defensor de uma ciência aberta ao diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, Morin acreditava que os grandes problemas da humanidade não poderiam ser resolvidos por disciplinas isoladas. Sua proposta de um pensamento capaz de conectar saberes transformou-se em referência para pesquisadores, educadores e formuladores de políticas públicas em todo o mundo.
Mesmo após completar 100 anos, Morin manteve intensa atividade intelectual. Em suas últimas entrevistas, insistia na necessidade de uma consciência planetária capaz de enfrentar desafios globais como as mudanças climáticas, as desigualdades sociais e as crises democráticas. Também alertava para a ilusão de um progresso inevitável, lembrando que “nenhuma conquista histórica é irreversível”.
Fonte: Jornal da Unicamp.



