Apesar de serem comumente lembrados pelo incômodo ou pelas doenças que transmitem, os insetos desempenham papéis ecossistêmicos importantes, como na polinização, na dispersão de sementes e nos ciclos naturais de decomposição da matéria orgânica. Sua abundância e variedade estão entre as maiores do reino animal, e estima-se que cerca de 80% das espécies dessa classe taxonômica encontrem-se em regiões tropicais. No entanto, a maior parte dos dados referentes aos impactos das mudanças ambientais sobre eles vem de regiões temperadas. Preocupados com essa lacuna, biólogos de diversas instituições do mundo, incluindo a Unicamp, desenvolveram uma abordagem para a conservação de insetos na região tropical que propõe utilizar dados das redes sociais como uma das formas de complementar as informações disponíveis.
A proposta visa a minimizar os desafios identificados na conservação das espécies tropicais, levando em consideração o declínio da população de insetos e os impactos sobre cadeias alimentares e a segurança alimentar. Os quatro principais obstáculos identificados pelos autores nessas regiões são: visibilidade global limitada; lacuna de dados; falta de infraestrutura e ações de conservação insuficientes.
Com relação à baixa visibilidade, o fato de muitas publicações científicas serem realizadas em idiomas locais, e não na língua inglesa, segundo os pesquisadores, restringe seu alcance. “Há uma quantidade de informação que se perde”, observa André Victor Lucci Freitas, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e um dos autores do artigo intitulado “A framework for the strategic conservation of tropical insects” [Um marco para a conservação estratégica de insetos tropicais], publicado na revista BioScience, vinculada à Universidade de Oxford (Reino Unido). A solução, para os autores, é o desenvolvimento de publicações e outras abordagens multilíngues.
A lacuna de dados tem relação com a escassez de monitoramento de longo prazo, ação que, para os biólogos, precisa ser fortalecida. O problema decorre ainda da baixa participação em plataformas de ciência cidadã e da carência de taxonomistas qualificados. Uma das soluções apontadas é o estímulo à participação da sociedade para alimentar plataformas locais e globais (como iNaturalist) com fotos e informações de insetos.

Gestão compartilhada
O terceiro problema, a falta de estrutura, envolve financiamento inadequado e escassez de servidores e ferramentas. Nesse ponto, os pesquisadores criticam a chamada “ciência de paraquedas”, em que cientistas de países do Norte global desenvolvem suas pesquisas nos países do Sul, muitas vezes encarando os pesquisadores locais apenas como coletores de dados. “Os trópicos não podem só fornecer mão de obra barata e material importante. É preciso tentar desenvolver o [trabalho de pesquisa] local e, de preferência, se tiver dinheiro, investir no local”, orienta Freitas.
Para estruturar as ações, os autores desenvolveram um fluxo de trabalho composto por sete etapas: compilação de evidências, validação de dados, avaliação, priorização, planejamento e codesign, engajamento de decisores políticos e práticas de monitoramento e atualização. O fluxo tem como princípios a gestão compartilhada, a valorização de conhecimentos locais, o fortalecimento da ciência nativa, o respeito às normas nacionais de acesso e a repartição de benefícios.
Conservação
Os autores do estudo são biólogos de diversos países: Austrália, Bangladesh, Brasil, China, Índia, República Tcheca e Uganda. Com base em pesquisas de Shawan Chowdhury, um dos autores do artigo, os pesquisadores demonstram sua proposta com um estudo de caso em Bangladesh, voltado para as borboletas. O país é um dos mais densamente povoados do mundo e carece de ações de conservação de insetos para proteger a biodiversidade, a produção da agricultura e o bem-estar humano.
De acordo com o levantamento de Chowdhury, os insetos de Bangladesh estão sub-representados nos repositórios globais de diversidade. No entanto, há um compartilhamento de observações em plataformas de redes sociais, como o Facebook. Ao olhar dados dessa rede e do Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade (GBIF, na sigla em inglês), Chowdhury observou menções a 167 das 169 espécies ameaçadas consideradas no levantamento e a 143 das 145 espécies de borboletas registradas exclusivamente em um dos dois bancos de dados.
Proteção às borboletas
As informações da rede social, combinadas com dados do GBIF, permitiram auxiliar, nesse caso, na compreensão da rápida expansão de uma espécie de borboleta que está alterando sua área de distribuição. O mapeamento espacial evidenciou ainda uma grande desconexão entre as áreas prioritárias de conservação e as efetivamente protegidas. Apenas 1 das 226 espécies avaliadas tinha sua área de distribuição adequadamente contemplada pelas áreas protegidas, que por sua vez abrangem apenas 4,17% do território bengalês, quando seriam necessários cerca de 27% para garantir a proteção adequada do grupo.
Os resultados, indicam os pesquisadores, mostram como a ciência cidadã pode fornecer dados por meio de plataformas e redes como o Facebook, cobrindo lacunas de informações, fortalecendo cientistas e comunidades locais e orientando políticas públicas.
“A gente realmente acredita que esses dados podem e devem ser usados para a política pública. É o que eles estão fazendo em Bangladesh. E aqui no Brasil estamos tentando ir pelo mesmo caminho. Embora tenhamos aqui uma excelente cobertura de dados em alguns lugares, ela poderia ser ainda melhor”, destaca o professor André Freitas.
Ciência cidadã
Como exemplo das possibilidades do uso de fotos de redes sociais em pesquisas no Brasil, o professor cita a tese de doutorado de Augusto Rosa, que foi seu orientando e agora faz pós-doutorado. No trabalho, voltado para o status de conservação das borboletas sob risco de extinção no país, Rosa mapeou o estado atual de conhecimento sobre a situação e deteve-se na curadoria de dados e subsídios para sua conservação. Um dos resultados verificados foi que os cientistas-cidadãos contribuíram com informações para mais da metade dos grupos de borboletas brasileiras ameaçadas, permitindo ampliar o conhecimento sobre eles em 67 novas localidades, incluindo em dois estados e diversos municípios onde antes não havia registros.
“O mais importante é pensar de que maneira a ciência cidadã pode contribuir para conhecermos mais as espécies, principalmente onde não há dinheiro”, indica Freitas.
Matéria: Liana Coll | Fotos: Antonio Scarpinetti | Jornal da Unicamp.





