Mural da Noiva é parcialmente destruído no Parque do Mirante
Danos foram causados pelo temporal de dezembro último
O trecho destruído do Mural da Noiva, no Parque do Mirante, no dia 06/01/26.
A forte chuva que caiu na cidade, no dia 12 de dezembro de 2025, causou a queda de muitas árvores em toda a cidade. Na área próxima ao Salto, especialmente no Parque do Mirante, a queda de árvores de médio e grande porte ocasionou danos na estrutura do parque, com queda de postes de energia elétrica, corrimões, estruturas de cimento, e obstrução dos caminhos e da entrada do parque, o que ocasionou o fechamento ao público do Aquário Municipal.
O que passou despercebido, no entanto, foi que uma das árvores caiu sobre o mural de mosaico representando a “Noiva da Colina” e outros elementos da história de Piracicaba. A obra é de autoria da artista plástica Clemência Pizzigatti, e foi instalada no local em 1978. A queda provocou a destruição de parte da parede, numa extensão aproximada dois metros de largura, na diagonal, como é possível ver na foto que abre este texto. A cobertura de mosaico neste trecho foi destruída, tendo várias peças de pedra sido esmigalhadas.
Aparentemente, outras partes do mural não foram danificadas.
Foto de 2015, da parte direita do mural, que foi danificada por queda de árvore. A destruição aconteceu nas partes correspondentes à ponta do feixe da cortadora de cana maior, ao canavial inteiro e as duas cortadoras de cana representadas de costas.
A constatação da destruição do mural foi feita pelo autor deste artigo, no dia 06 de janeiro de 2026, terça-feira, por volta das 08 horas da manhã. A árvore que provocou o dano já tinha sido retirada por equipe de limpeza da Prefeitura Municipal.
Até o momento desta publicação (08/01), a equipe de limpeza segue com seu trabalho. A recolha do material do mosaico requer atenção urgente da Prefeitura Municipal, que precisa providenciar o restauro urgente da obra, por fazer parte da identidade cultural e artística da cidade.
Procurada pelo Viletim, a Prefeitura Municipal informou que, “por meio da Secretaria Municipal de Obras, Infraestrutura e Serviços Públicos, a empresa terceirizada, que faz a retirada das árvores e limpeza do Parque do Mirante, vai acessar o ponto danificado do mural amanhã [08/01/26] e recolherá o material para armazenamento e análise”.
Providências urgentes
O Viletim procurou o responsável pelo setor de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Obras, Infraestrutura e Serviços Públicos de Piracicaba, arquiteto Marcelo Cachioni, pedindo informações sobre as ações necessárias para a preservação do mosaico. Cachioni informou que esteve presente no Parque do Mirante ontem, 07/01, no período da manhã, e providenciou a orientação da equipe de limpeza terceirizada quanto à recolha das pedras e isolamento da área para que não ocorram furtos nem perda maior do material do mural.
Informou ainda à reportagem que essas ações só serão possíveis após o término da remoção das árvores caídas nas proximidades do mural. Este encontra-se ao lado do deck de observação do Salto, situado sobre o Aquário Municipal, que se encontra fechado para visitação.
O local ontem, dia 07/01, visto da calçada da av. Maurice Allain, mostra a extremidade do muro destruída, já com boa parte das árvores e entulho removidas. Foto de Renata Pacheco.
Repercussão
Personagens da cena cultural da cidade e especialistas, ao serem comunicados da ocorrência, manifestaram temer pela obra de arte e lamentam a destruição parcial do mural, como uma perda para a cultura e arte piracicabanas.
Cássio Padovani, historiador da arte: “Triste prejuízo que aconteceu no Mirante, afetando o mural de mosaico da Clemência Pizzigatti. Lamento o ocorrido com a memorável obra”.
Adalgiza Rímoli, artista plástica: “Trabalhar ao lado de Clemência Pizzigatti foi uma das grandes honras da minha trajetória artística. Antes de seu falecimento, tive o privilégio de compartilhar com ela muitos momentos de criação em mosaicos espalhados pela cidade, aprendendo não apenas uma técnica, mas uma forma de estar na arte e na vida. A perda do mural no Mirante, em decorrência da queda da árvore, representa uma perda simbólica enorme para Piracicaba. Trata-se de uma obra situada em um ponto nobre, turístico e afetivo da cidade, e que faz parte da nossa memória cultural. Não podemos permitir que esse trabalho — e a memória da Clemência — se percam. A arte pública é patrimônio, é identidade, é história viva. Por isso, acredito que o restauro desse painel é urgente e necessário.”
Ésio Pezatto, poeta: “Triste dia, Piracicaba! Triste dia para a artística noiva da colina, que enterra seus mortos e os esquece, destrói seus patrimônios e assiste calada. Mais um momento de iconoclastia ocorreu com o majestoso mural da saudosa artista Clemência Pecorari Pizzigati”.
Antonio Rodrigues Cunha, restaurador e professor do Ateliê Officina da Memória, em São Paulo, comentando sobre as providências necessárias daqui em diante: “O primeiro passo é preciso recolher pecinha por pecinha, pedra por pedra, recolher do barro, da terra, colocando-as em recipientes apropriados, para depois fazer a remontagem do desenho como era. As pedras que se perderam, terão que ser reconstituídas com novo material, igual ou similar ao original. Depois de reconstruir o muro onde foi danificado, fazer a calafetagem e montar as peças de novo como um quebra-cabeças. É preciso também prevenir futuras movimentações do terreno, providenciando a drenagem do entorno”.
Importância histórica e artística do Mural
O mural, de autoria da artista plástica Clemência Pecorari Pizzigatti e vários de seus alunos da rede pública estadual, foi feito em 1978, durante uma greve de professores. Os alunos coletaram, a pedido de Clemência, as pedras que foram utilizadas para compor uma alegoria sobre a história de Piracicaba. A coleta resultou em 52 tipos diferentes de pedras.
A obra é tombada como patrimônio histórico e artístico municipal, e é amostra importantíssima da artista, que ao lado de Ermelindo Nardin, Osvair Perón, Arakén Martins, Marilu Trevisan, entre outros, são da primeira geração piracicabana de artistas que se identificam como contemporâneos.
A obra foi realizada durante a gestão do prefeito João Hermann Netto, que autorizou a realização e instalação do mural no Parque do Mirante. Possui 120 metros quadrados, medindo 14,4m de comprimento por 4,60m de altura.
Parte esquerda do mural, foto de 2015, representando a Piracicaba do passado, com a figura do Bandeirante.
A composição representa Piracicaba no passado e no presente, representando, na metade esquerda, um vista da cidade antiga, com o rio, a antiga Igreja Matriz, a figura do fundador, o capitão-povoador Antônio Correa Barbosa e os batelões que eram fabricados na povoação, o Salto, a Casa do Povoador; na metade direita, a cidade moderna, com outra vista já com a Catedral em destaque, barracões de metalúrgicas, edifícios altos, uma roda representando as usinas de açúcar e chaminés, além da figura de um agrimensor, e cortadores de cana, com os canaviais ao lado – justamente a parte que foi destruída pela queda da árvore recentemente.
Parte representando a Piracicaba moderna, com assinatura de Clemência na parte de baixo: “C Pizzigatti 8-78”, foto de 2015.
Bem no centro do mural, está a representação visual da “Noiva da Colina”, o apelido poético de Piracicaba. O apelido foi cunhado pelo poeta Brasílio Machado em 1899, no poema “Piracicaba”. O véu da Noiva confunde-se com as águas do Salto, sob seus pés. Essa forma de representar o véu e o salto refere-se ao que os antigos piracicabanos chamavam de “véu da noiva”, a névoa que cobre o salto no momento de amanhecer o dia (e não a queda d’água artificial que desce do parque do Mirante, construída somente na década de 1960). As pedras que compõem a Noiva são: dolomitas e cristais, róseo e branco.
Parte central, com a “Noiva da Colina” sobre o Salto do rio Piracicaba, foto de 2015.
A representação da figura da Noiva da Colina, embora comum na literatura e música piracicabanas, é rara nas artes plásticas. O único outro exemplo conhecido é uma das pinturas no muro do Cemitério da Saudade, de autoria de Robinson Tuon. A representação de Clemência, no entanto, é marcante por integrar um resumo simbólico da história de Piracicaba, especialmente de suas atividades econômicas. A Noiva está no centro da composição, entre as duas seções – passado e presente – com o rio Piracicaba servindo-lhes de elo de ligação.
Clemência Pecorari Pizzigatti
Foi professora de Educação Artística da rede pública estadual, no Ensino Fundamental e Médio, durante 42 anos, e no final da vida, professora no curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal em São Carlos – Ufscar, onde aposentou-se.
Bacharel em Artes Plásticas na FAAP e doutora em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie, atuou como artista, curadora de exposições, galerista e professora de história da arte, em Piracicaba, Americana, Santa Bárbara d’Oeste, São Carlos e Campos do Jordão. Possui verbete na Enciclopédia de Artistas Plásticos Brasileiros, de Walmir Ayala. Realizou muitos trabalhos em mosaico, além do Mural do Mirante, e o mais conhecido deles é o mural da empresa Coplacana, na av. Luciano Guidotti, com 50 metros quadrados.
Clemência Pizzigatti faleceu em maio de 2009, aos 73 anos.









