Créditos: Fábio San Juan, que manteve o emprego da turma que mantém a inteligência artificial Microsoft Designer Image Creator.
Números sobre empregos voam pela tela. Contemplo a notícia e penso, enquanto vou atualizando o meu currículo.
Será que estamos melhores, como cidade, por estarmos na 14.a posição entre os 50 municípios do estado de São Paulo na geração de empregos? Os empregos são melhores? Pagam mais? As condições de trabalho são boas?
Está melhor viver em Piracicaba depois de sabermos do fato? O que querem dizer esses números?
Vou ficar contente, individualmente, por que os números subiram em um gráfico? Ou melhor seria uma felicidade comunitária, coletiva? Eu e minha família faremos uma festa por conta desta notícia? (Quem sabe, esta deva ser a tal da “festa da democracia”.)
Quem sabe a família de cinco crianças, pai e mãe, que frequentam a nossa paróquia, habitantes de uma ocupação (também conhecida como “comunidade”, ou para os antigos, “favela”), num terreno ao lado de um esgoto aberto, numa casa metade de tijolos, metade de madeira, a três quarteirões da minha casa, se animem a fazer um churrascão de carcaça de frango. Um corte de terceira, chamado de “carne de ossos”, consagrado como um dos cortes mais recorrentes nos nossos açougues. Muito melhor que picanha.
Tenho somente atualizado meu currículo, e o adapto para vagas de emprego diferentes, em cidades diferentes, porque aqui, ninguém está querendo comprar o que eu vendo – minha força de trabalho intelectual, que é o que eu posso oferecer. Meus miolos - e não são os de boi, que deixei de comprar, porque mais caros que o dorso de frango, outro corte nobre da Terceira Era Lula.
Não tá fácil pra ninguém, até o Martim Vasques da Cunha, o MVC, do site Não é Imprensa, não consegue vender o que produz. Ao contrário do ditado “quem desdenha quer comprar”, no Brasil desdenham, não querem comprar e ainda cospem em cima.
É por isso que escolho ignorar os pedidos de apoio ou voto dos dois candidatos à prefeitura da “Noiva da Colina”, solicitações de seus partidários: para não ser mal-educado, não transparecendo esse azedo todo. Fico quieto para não ser azedo e também amargo - já passei do ponto do sarcasmo há muito tempo.
Já fui desagradável no passado, muitas vezes, piscando um olho virtual no zap e respondendo algo do tipo: “O meu voto de hoje é o seu emprego no gabinete do fulano amanhã. Você está pedindo para eu pagar o seu salário com o meu imposto. Como você não merece – no meu entender, ninguém merece – te digo 'não, obrigado'”.
Hoje respondo com silêncio. Ele ecoa, ribombando, na indiferença. Dói mais que um emoji de joinha.
“Autorretrato com trinta anos”, sussurrado no ouvido da IA da Microsoft Designer Image Creator pelo autor.
Tenham paciência comigo. Não sou economista. Não sou sociológo. Não sou funcionário da Prefeitura, nem do Estado, nem da União.
Não tenho formação acadêmica para analisar gráficos. Não sei comparar dados em uma série histórica, por exemplo. Disso só ouço falar nos noticiários, tento entender mas fico na mesma. Para assistir notíciário econômico no Brasil, você precisa ter pós-graduação. Isso num país de analfabetos funcionais.
Vejo que o governo monitora os empregos no Brasil. Criação, manutenção, demissões. Têm por aí umas fundações, uns institutos, que fazem o mesmo. As siglas saltam da boca de um locutor para outro: IBGE, IGPM, FGV, Sebrae, Secom, BACEN e o escambau. Quem trabalha neles tem um emprego para pesquisar sobre o desemprego dos outros.
Não sou do RH de nenhuma empresa. Meu emprego também não é dar emprego, não sou empresário, não sou patrão. Nada contra, como diria o barbeiro: muito pelo contrário. Também não sou sindicalista – de novo, nada contra, para estar no sindicato, eu sei, precisa ser empregado antes. Quem me dera.
Sou só um desempregado, mesmo.




