Do livro: Relatos dos anos 80 em uma cidade do interior
Foto: José Maria Carvalho Ferreira
Por Renato Ferrante*
Hoy yo no estoy bien...
Marx estava morto, Freud havia morrido e eu também não estava me sentindo muito bem naquela manhã de sábado de ressaca e calor saariano, quando estacionei o fusquinha bege que dividia com minha irmã à sombra da Catedral de Piracicaba, na rua lateral que margeava também a praça central e atendia pelo pitoresco nome de “Rua Boa Morte”.
Desci do carro e caminhei resoluto para enfrentar o sol forte que calcinava a cidade e alcançar meu primeiro objetivo: comprar um exemplar da Folha de São Paulo na banca de jornais e revistas Giannetti. O segundo era degustar a leitura do caderno cultural do jornal – não dava para não ler a Folha Ilustrada naquela época – na companhia de um café expresso, uma necessidade urgente naquela manhã que se aproximava já do meio-dia. O único lugar de Piracicaba que então servia tal iguaria situava-se na esquina próxima da banca de jornais – uma lanchonete com o igualmente pitoresco nome de Oba Oba.
Era uma das minhas primeiras visitas ao coração da cidade após concluir o curso de Ciências Sociais na USP e cair fora de uma pós na Unicamp. O bom filho tornava à casa e ao adentrar o principal espaço público da cidade não pude deixar de lembrar da charmosa e acolhedora praça da minha infância, agora substituída por uma versão modernosa que transformara a Praça José Bonifácio em um lugar terrivelmente feio e inóspito. Enquanto fazia meu caminho, pude perceber à direita o terreno vazio onde antes estivera o Hotel Central, demolido que fora na madrugada do início de janeiro de 1983 (1). Ao menos as calçadas em frente ao antigo edifício estavam preservadas. Elas talvez ainda guardassem a memória do dia 13 de novembro de 1899. Nessa data, enquanto a proximidade da virada do século despertava nas pessoas e nos jornais da época o pânico do fim do mundo, Almeida Júnior, o pintor brasileiro de maior prestígio no então século XIX, era ali esfaqueado e morto pelo marido da sua amante, que lavou com sangue a mancha da sua desonra e selou o fim desse trágico triângulo amoroso. (2)
‘Não há vida inteligente em Piracicaba’, disse o homem mais inteligente de Piracicaba
Eu desviava dos vira-latas e continuava meu exercício de contemplação, agora dirigido aos transeuntes e ao cenário de desolação e letargia ao derredor. A sensação da vida estacionada, do marasmo, ressaltado pelo calor e a luz dura que descia do céu, incomodava. “Não é possível filosofar nos trópicos”, já pontificara o filósofo alemão quando visitara Araraquara. Seria possível haver vida inteligente e brotar as flores da Cultura, da Arte e da Beleza em um solo árido, tomado por canaviais e pela mentalidade avessa ao moderno que domina as economias de base rural?, perguntou o sociólogo que habitava em mim. Mudar de lugar ou mudar o lugar?, continuei a interrogar meus botões. (3)
“Não há vida inteligente em Piracicaba” – assegurou-me José Maria Carvalho Ferreira, do alto da sua autoridade de homem mais culto e inteligente a viver e padecer em Piracicaba, quando gentilmente me recebeu para uma conversa em sua casa, na Rua Moraes Barros. Ao vê-lo, não pude conter um sorriso de canto de boca. Afinal, um enigma estava sendo decifrado ali, naquele instante.
Eu dava aulas à noite no Instituto de Ciências Aplicadas de Limeira, o ISCA, como era conhecida a faculdade. Por incrível que pareça, nos anos 80 havia no instituto um curso de Ciências Sociais, frequentado principalmente por alunas de pequenas cidades da região, em especial Iracemápolis. Eu brincava dizendo que a cidade tinha a maior concentração de sociólogas por metro quadrado do mundo e uma consciência política altamente desenvolvida. No curso, eu, o jovem formando, oriundo do “campus de concentração da USP”, ostentando óculos à la Trotsky, lecionava as disciplinas de Sociologia – falando sobre Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx – e Teoria Política, curso em dois semestres ao qual eu dera o pomposo nome de “Do Príncipe aos Dilemas da Democracia Pós-Moderna - de Maquiavel a Christopher Lash”, sobre o qual falarei à frente.
Eram apenas dois dias de aulas durante a semana, eu preparava as aulas no período da tarde e tinha o habito de sair para espairecer e comer um pastel em uma pastelaria que ficava na rua Governador Pedro de Toledo, quase na esquina com a São José, às vezes acompanhado de amigos. Enquanto descia a Governador, comecei a cruzar com frequência com um sujeito que se destacava da multidão. Alto, pálido, magro, o cabelo sempre despenteado, malvestido, sobrando dentro das roupas largas; a curiosa figura me impressionava sobretudo pelo rosto sulcado e a expressão de severidade e melancolia que carregava. Logo desenvolvi uma simpatia pelo tipo outsider e fazia conjecturas sobre quem poderia ser. O enigma foi decifrado de forma inesperada e divertida naquela visita. A esfinge enigmática era Zé Maria, como era chamado, ou simplesmente “o Zé” – uma pessoa meiga, bem-humorada, cativante, que me concedeu naquela noite uma prazerosa conversa.
A frase contundente sobre Piracicaba, nunca registrada em seus numerosos artigos na imprensa local, mas verbalizada entre os íntimos, retratava, na verdade, um homem fora de seu lugar, um estranho em sua própria terra que, cotidianamente, tinha que responder mais de uma pessoa a lhe perguntar – “Mas o que você está fazendo nesta cidade?” –, uma das confidências suas que tive o privilégio de ouvir após, claro, fazer-lhe a mesma pergunta...
Pessimista no pensamento, mas intensamente otimista na ação, Zé Maria era não só um intelectual refinado, que escrevia para o prestigioso Suplemento Literário do jornal Estado de São Paulo. Dissertava também com desenvoltura e conhecimento sobre temas diversos que iam do carnaval ao teatro, do cinema às artes plásticas, da literatura à política, escrevendo sempre à noite, copiosamente, abrilhantando com sua inteligência e verve os jornais locais.
Mas Zé Maria não se limitava apenas ao jornalismo e à crítica cultural. Era também o principal agitador artístico da cidade, um descobridor e incentivador de talentos locais, trabalhando pela comunidade criativa da Piracicaba como ninguém, e comprando briga com Deus, o Diabo e (quase) toda cidade.
Biólogo de formação, com um aperfeiçoamento na Universidade de Edimburgo, Escócia, graças a uma bolsa da Fundação British Council, a grande paixão de Zé Maria estava, no entanto, no teatro, paixão essa cultivada desde a adolescência, quando teve como principal amigo um outro “Zé” – José Rubens Siqueira, o Zé Rubens (falecido em fevereiro deste ano) – que se tornaria um consagrado diretor, autor e figurinista de teatro, conhecido pelas suas peças de vanguarda nos anos 1980 – dirigiu, por exemplo, Clara Crocodilo, em 1981, baseado no disco de Arrigo Barnabé, músico da então “vanguarda paulistana”
Em 1975, já sendo um diretor de teatro de prestígio em São Paulo, José Rubens convidou seu amigo de adolescência para fazer uma adaptação para o teatro do texto “A sétima morada”, capítulo do livro “Castelo Interior, escrito por Santa Tereza d’Ávila, em 1577. José Maria mudou-se então para a capital, passando a morar em uma kitnet no Edifício Copan, reduto de artistas naquela época e ainda hoje, tendo como companheira de quarto por um tempo, a então desconhecida Sônia Braga. Trabalhando contra o tempo e sob muita pressão, a peça estreou no mesmo ano no Teatro Ruth Escobar, com Célia Helena e Carlos Augusto Strazzer nos papéis principais.
Uma crítica demolidora que se seguiu ao lançamento da peça, publicada na revista Veja, de circulação nacional e enorme influência naquela época, abalou profundamente o novato autor teatral José Maria Ferreira. O baque foi forte, mas não o fez desistir. Voltou ao exterior para um ano de estudos sobre teatro, na Florida State University, desta vez com bolsa da Fulbright Commission, e retornou em seguida para Piracicaba. Enquanto disparava sua metralhadora giratória contra os podres poderes locais, realizou diversas montagens teatrais, de Shakespeare a Maria Clara Machado, traduzindo textos, fazendo cenários e figurinos, enfrentando carência de recursos e sempre trabalhando com grupos de jovens abnegados, apaixonados, como ele, pelo teatro.
Eu não vim para trazer a paz
Eu procurara José Maria para me inteirar da cena cultural da cidade, onde pretendia atuar de alguma forma. Eu tinha tempo de sobra, não tinha interesse algum pela política locaL ou nacional, não pretendia seguir carreira acadêmica, não pensava nem mesmo remotamente em ganhar dinheiro e enriquecer, na verdade eu não sabia exatamente o que queria, mas recusava a conformar-me com uma vida rasa de águas estagnadas, como eu percebera naquela praça modorrenta de cidade do interior. Insidiosamente, munido da presunção e soberba juvenil, eu pretendia me infiltrar naquele meio cultural para semear a cizânia e a discórdia, colocar artista contra artista, antigos contra modernos, instaurar o reino do caos, da desordem e da beleza. Como descobriria mais tarde, eu não era o único. Éramos muitos. Uma legião. Vindos de vários lugares de fora, se estabelecendo na cidade, fazendo alianças e criando inimigos no meio artístico local.
Éramos jovens, bonitos, fabulosos e cheios de ideias. Pensar globalmente e agir localmente ainda não era um clichê. Logo nossas vidas iriam se encontrar e a rebeldia assumiria a forma de uma efervescente primavera cultural. Mudar de lugar ou mudar o lugar? Eu já tinha uma resposta
*Renato Ferrante é editor em Três Gatos Editora e está escrevendo um livro sobre os anos 1980 em Piracicaba
PRÓXIMO CAPÍTULO:
“Uma pinacoteca tomada por cavalos, feno e capim - O projeto de Ermelindo Nardin que provocou choro e ranger de dentes”
Veja mais sobre os anos 1980 em Piracicaba nos posts abaixo:
1 – sobre a reforma da Praça e a demolição do Hotel Central:
“A Passagem da Cidade – Uma Piracicaba que poderia ter sido”
Francisco Ferreira – edição do autor
Compre aqui:
https://tres-gatos-editora.lojaintegrada.com.br/a-passagem-da-cidade
2 – Sobre a morte de Almeida Júnior
“Morte no fim do mundo – A história do pintor Almeida Júnior” –
Domício Pacheco e Silva.
3 – Mudar de lugar ou mudar o lugar
Tirei a expressão da música “Valsa de la revolución” – disco “3 Lugares Diferentes” – Banda Fellini – selo Baratos Afins
Ouça aqui: