Não se trata de ódio nem de amor
Se não falam de você, querido ou querida, não quer dizer que te odeiam. Quer dizer que nem sabem que você existe.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Do poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa.
Fernando. O Homem. A Pessoa.
Pego uma nota de um milennial, falando sobre sucesso, fracasso, cancelamento, ódio e inveja em críticas literárias. Tacha o ambiente literário brasileiro de mesquinho (Ambiente literário? Onde? Onde? Pega, pega, isca, grrrrr). Que as críticas desfavoráveis “destroem” a gente. Como elas impedem que textos de pessoas de muito mérito literário, como ele, não sejam lidas nem comentadas. Completa-se isto com a “mesquinhez” das editoras, que, oh, só querem ganhar dinheiro. Como veem, sobrou para o “capetalismo”, como é de costume.
Como já disse o Tatuzão do Metrô, o buraco é mais em baixo.
***
As picuinhas, como demonstradas pelo millenials, são isso mesmo: picuinhas, e das mais miúdas.
Escolher um livro ruim para ler e espinafrar, da parte de quem faz um texto no Substack ou no Instagram, é indicativo de dois sintomas da sua falta do que fazer: 1. Mostra o mau-gosto do resenhista, que perde tempo com texto ruim; 2. Mostra a falta de referências verdadeiramente boas do resenhista, que deve desprezar o que é “velho” (ou seja, os clássicos) e achar digna de atenção somente a tal da “literatura brasileira contemporânea”.
Eu digo: não perca o seu tempo lendo texto ruim, a vida é curta.
Quem faz mimimi porque não leem o que ele escreve ou é muito criança, ou é medíocre.
Quer ser lido, comentado e talvez até “amado”, no entanto, nem a notinha no Substack mostra que vale um centavo da minha atenção. Li sua nota, um tanto longa, e fui até ao final para ver onde dava. Dava com a minha boa vontade em um muro bem mole. Mole como o mimimi dos adolescentes de 50 anos que temos que aguentar hoje em dia.
Reclamou de um fulano ou beltrana que perdeu tempo falando do seu texto ruim num texto ruim, escrevendo outro texto ruim.
Com o qual, infelizmente, perdi meu tempo.
***
Premissa número 1: Fulano me odeia, porque falou mal do meu livro.
Premissa número 2: Sicrano é meu fã, porque elogia tudo o que eu escrevo.
É claaaaaaro que eu sei que nem todos pensam assim, nem desta forma se manifestam.
Mas muita gente pensa. Ou melhor, não pensa, sente dessa forma.
Brasileiro confunde automatismos de comportamento, movidos por impulsos sentimentais, com pensamento.
***
Há os resenhistas literários por passatempo, como os descritos acima. E há pouquíssimos críticos sérios, por aí. Felizmente, em número suficiente para serem encontrados pela internet.
Estes levam a sério tanto o seu dever, que escrevem também sobre textos ruins. Dever de ofício, diriam alguns deles. Entendo. Sei que, ao contrário de mim, aproveitam inclusive os textos ruins, pois possuem tanta erudição que nada se desperdiça. Posso falar de “inveja boa”?
Mas também “perdem o seu tempo” falando sobre Dante Alighieri, Otto Maria Carpeaux, Tommaso di Lampedusa, Thomas Mann, Camões. Por isso, não sobra tempo nem espaço para falar da literatura brasileira contemporânea, que no douto entender dos mimizentos, “mereceria mais espaço para ser criticada, e assim, conhecida e lida”.
***
Sei que há uma meia dúzia de livros que merecem atenção, convocados para esta Seleção da Literatura Contemporânea Brasileira. (Até onde sei, nenhum deles ganhador de Prêmio Jabuti - sim, Itamar Vieira Jr., é pra você mesmo). Nem por isso, acho que toda a tal da - já está ficando cansativo repetir - Literatura Contemporânea Brasileira - mereça, em bloco, ser lida por causa de meia dúzia.
***
Os escritores ruins, acometidos por estas críticas, vão “odiar” aqueles que fazem textos desfavoráveis a seu respeito, e “amar” os que os recomendam. Ou até “odiar” aqueles que nem falam de autores contemporâneos, como o mimizento.
“Ódio” e “amor”, expressos da forma que as pessoas têm feito, são sentimentos. Não têm nada ver com a atividade intelectual que se espera de um escritor sério.
Este autor, absolutamente desconhecido,, ao contrário dos críticos, ama você.
Na escola que os artistas dos últimos cinquenta anos frequentaram, ensinam que “Arte é sentimento” e que “todos os sentimentos são válidos: o que importa é que você os use para se expressar”, porque é válido e desejável “expressar o seu EU”. Alguns acrescentam um “mais profundo” ao “EU”, mas nem todos, porque “ser superficial também é um direito”. Como qualquer outro sentimento que, porventura, lhes brotar na alma, aliás.
Se o que o milennial escreve é legítimo por ser a “expressão dos sentimentos do seu EU”, quem é VOCÊ para contestar e dizer que o texto é “ruim” ou que “não merece ser lido”?
É claaaaaro que também há críticos, ou resenhistas, ruins.
Os críticos ou resenhistas ruins fizeram a crítica literária no Brasil degringolar nos últimos cinquenta anos para o amiguismo, a defesa política da bolha ideológica na qual autor e crítico militam, a indicação de livros por identificação incondicional do crítico com o assunto, ou para textos onde os gatilhos de marketing estão focados em vender livros para as bolhas, as “igrejinhas” que hoje pululam na internet como culturas de bactérias.
Igrejinhas.
Pequena conclusão, provisória e em construção, sobre o millennial mimizento do Substack e do Instagram, e todos os escritores da torcida do Corínthians, que “odeiam” todo “crítico” que escreve “falando mal” deles, ou “amam” aquele que “fala bem” deles:
Armado contra todos os que rompem a casca fina do seu Ego, não aceitam nenhuma palavra contrária ao seu sagrado direito de “expressar o seu EU”, seja de outro escritor substackiano ou instagramático ou o juízo balizado de um crítico sério, colocados no mesmo saco, no qual escreveu com bile: “TE ODEIO”.
Por absoluta falta de referências, acha que quem inaugurou a literatura que “merece ser lida” foi a Nora Roberts, o E.L. James ou o Itamar Vieira Júnior, não vai ouvir quem leu os Clássicos, e sabe, no fundo do buraco que é mais em baixo, que o seu livro escrito para ser o “novo Harry Potter” ou o “novo Tortoarado” não vai rolar na lista de best-sellers do “New York Times”.
No próximo texto desta séria série, o tema será:
As pessoas não gostam de cultura no Brasil, porque lhes falta educação.
O governo devia apoiar os escritores e os artistas.
Só que não.
Como dizia o Homem do Baú, aguarrrrdeeeem!





