Imagine um grande concerto vocal e sinfônico, regido por um dos maiores maestros do Brasil, ao cair da tarde de um dia de primavera. Pássaros cantando, cigarras ciciando, o cheiro de café vindo dos estabelecimentos da praça, a brisa fresca que sobe, vinda do Rio Piracicaba. Há exatos 90 anos, no final de 1936, esse evento poderia ter acontecido. Os detalhes desta empreitada fracassada integram edição desta semana da série Achados do Arquivo, da Câmara Municipal de Vereadores.
Em 1936, foi celebrado o centenário do compositor Carlos Gomes. Nascido em Campinas em 11 de julho de 1836, desde a infância conviveu com a música, já que seu pai, Manuel José Gomes, conhecido como Maneco Músico, era adepto dessa arte. Ainda jovem, começou a compor valsas, polcas e quadrilhas. Adulto, foi ao Rio de Janeiro – na época, a capital do País – a fim de prosseguir na sua formação. Lá, foi apresentado, pela Condessa de Barral, a Dom Pedro II, que o encaminhou ao Conservatório Imperial de Música, aos cuidados do diretor da instituição, Francisco Manuel da Silva – compositor do Hino Nacional Brasileiro.
De sua estada no Rio, surgiram suas primeiras óperas de destaque: “A Noite do Castelo” e “Joana de Flandres”. Não demorou muito e do Rio de Janeiro foi para Milão, onde completou sua formação. Na Europa, veio a consagração internacional. “O Guarani”, sua principal obra, foi apresentada em diversas cidades da Itália e também em outros países europeus. A essa primeira, se seguiram outras óperas de destaque: “Fosca”, “Salvator Rosa”, “O Escravo” e “Condor”.
Carlos Gomes morreu em 1896, reconhecido internacionalmente pelo conjunto e grandiosidade de sua obra. Tamanha importância fez com que, chegado o ano do centenário de seu nascimento – 1936 –, muitas homenagens fossem realizadas Brasil afora e também no exterior. Numa época em que o nacionalismo estava em evidência, o compositor recebeu tratamento de herói nacional.
Textos, publicações e matérias em periódicos exaltavam sua trajetória. A Revista Brasileira de Música foi exclusivamente dedicada a ele. A sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi especialmente consagrada ao compositor. Seu rosto apareceu em moedas de 300 réis e em selos postais. Grandiosas comemorações foram realizadas em diversas cidades, dentre elas, São Paulo e Campinas. Incluindo concertos em teatros e em praças públicas.
Foi nesse contexto que, em 22 de setembro, em 1936, em Piracicaba, na 7ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal, deu entrada um “ofício do sr. Jorge Faria, diretor da Empresa Nacional de Concertos Ltda., solicitando um auxílio de 20:000$000, para o fim de promover um concerto sinfônico e vocal, com 45 professores, nesta cidade”.
O documento enviado à Câmara pela Empresa de Concertos trazia, de forma detalhada, como seria a dinâmica do evento, possibilitando um vislumbre do pretendido dia de homenagens.
Abaixo, o ofício transcrito em sua íntegra:
“Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Piracicaba
O signatário do presente ofício, Sr. Jorge Faria, Diretor Representativo da Empreza Nacional de Concertos Ltda., tem a honra de propor a essa distinta Câmara o quanto segue:
Sendo a cidade de Piracicaba um centro de cultura que prima pelo seu elevado núcleo social, centro que, entre os demais do interior do nosso Estado, tem se salientado pelas suas iniciativas em prol das melhores manifestações de arte e cultura, não pode, no momento em que, carinhosamente, se comemora, em todo o universo, o Centenário da grande figura de Carlos Gomes, envolvendo em uma afetuosa solidariedade espiritual os brasileiros e os seus artistas, deixar de consagrar, também, um dia de comovido preito ao maior compositor sul-americano.
Para tanto, sugere, a Empreza Nacional de Concertos Ltda., a realização de uma imponente comemoração, que a M. D. Câmara Municipal de Piracicaba ofereça, ainda este ano e gratuitamente, ao seu digno povo.
Essa comemoração, especialmente caracterizada por um brilho não superado pelos outros Estados, consistirá num grande concerto sinfônico e vocal, levado a efeito em local que a M. D. Câmara Municipal de Piracicaba achar mais apropriado, a cargo de uma grande orquestra sinfônica, constituída pelos mais brilhantes professores de que dispõe São Paulo, coadjuvados na parte solística pelos artistas de canto de maior renome da Pauliceia. O programa, confeccionado exclusivamente com as mais famosas páginas do imortal Maestro Carlos Gomes, será, pois, executado pela orquestra sinfônica de 45 professores e por um trio vocal. O conjunto artístico em questão é o mesmo que, em Campinas, inaugurou brilhantemente as comemorações e que tenciona levar, estimulado pelos crescentes triunfos, a todos os recantos da nossa Pátria, a melodia suave, o sinfonismo empolgante, o lirismo nativo do grande Gênio das Américas.
Para dar um cunho de inconfundível manifestação de pura arte e de sólida eficiência, a Empreza Nacional de Concertos Ltda. não poupou esforços, conseguindo, com rara felicidade, apesar de seus importantes compromissos e contratos, a adesão do notável regente brasileiro, Maestro Leon Kaniefsky, figura de projeção na música brasileira e o mesmo festejado diretor artístico das grandiosas comemorações sinfônicas em Campinas. O Maestro Leon Kaniefsky tem o seu nome ligado aos mais vultuosos empreendimentos artísticos do país e, na Europa, se incumbiu de encargos artísticos altamente honoríficos. É, sem favor, o expoente máximo dos regentes nacionais. Esta é a garantia da perfeita realização e sucesso do nosso oferecimento.
Promovendo, pois, uma comemoração por todos os títulos digna de benévola atenção desta distinta Câmara Municipal, Piracicaba se tornará credora de inapagável gratidão dos seus filhos aos seus próceres, lavrando antes um tento, em nada inferior às magníficas comemorações de São Paulo e Campinas, cujas Municipalidades não mediram esforços para, amorosamente, reevocar a obra imorredoura do grande brasileiro, destinando verbas especiais e por vezes vultuosas, para consecução grandiosa das comemorações.
Com o conjunto de elementos de real valor que a Empreza Nacional de Concertos Ltda. conta, a realização deste grande festival é orçado em Rs 20:000$000 (vinte contos de réis), nos quais estão incluídos os honorários do Maestro Regente e de todos os artistas, bem como despesas decorrentes de viagens, hospedagens e transportes.
A Empreza toma a liberdade de sugerir a esta M. D. Câmara Municipal a escolha da noite de um sábado, ou a tarde de um domingo, para a realização do festival, solicitando, em virtude dos múltiplos compromissos do Maestro Leon Kaniefsky e da necessidade de uma séria preparação do conjunto, fixar a data com a devida antecedência.
Na honrosa expectativa de um generoso acolhimento a esta nossa proposta, que esperamos merecerá a aprovação da M. D. Câmara Municipal de Piracicaba, muito atenciosamente nos subscrevemos, com os protestos da nossa elevada estima e do nosso profundo apreço.
Saúde e Fraternidade
Empreza Nacional de Concertos Ltda.
S. Paulo, 22-IX-1936”.
Nessa mesma sessão, o ofício foi encaminhado à Comissão de Finanças, formada pelos vereadores Acácio Leite do Canto, Pedro Ometto e Luiz Gonzaga de Lima. O parecer da comissão foi exarado e aprovado pelo plenário na 8ª Sessão Ordinária, realizada em 6 de outubro. O teor do parecer:
“Parecer nº 21
A Comissão de Finanças, tendo presente o ofício do diretor da Empreza de Concertos Ltda., de São Paulo, sugerindo a realização, nesta cidade, de um concerto em homenagem à memória de Carlos Gomes, orçando a despesa para tal fim em 20.000:000, é de parecer que não seja tomada em consideração o pedido em apreço, visto já haver a Câmara resolvido não atender nesse sentido, solicitação alguma no presente exercício, tendo já indeferido requerimentos idênticos”.
Mesmo Piracicaba sendo um verdadeiro “centro de cultura”, como apropriadamente afirmado no ofício; mesmo tendo a oportunidade de receber o renomado Maestro Leon Kaniefsky; mesmo tendo tido a possibilidade de, honrosamente, participar das celebrações internacionais do Centenário de Carlos Gomes, a cidade não sediou o evento. Talvez por dificuldades financeiras, talvez por outras prioridades orçamentárias.
Resta, então, a nós, pósteros daquele passado, no ano em que se completam 190 anos do nascimento do grande compositor, imaginar como teria sido aquela noite de sábado, ou tarde de domingo, que nunca existiu.
Achados do Arquivo — A série “Achados do Arquivo” é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.
Fonte: Câmara Municipal de Piracicaba - Texto: Bruno de Oliveira




