Narrativas fundadoras da História das Artes Plásticas em Piracicaba
Os textos de João Chiarini e de Archimedes Dutra são os primeiros que falam de uma "historia das artes plásticas em Piracicaba"
À esquerda, o professor e artista Archimedes Dutra, à direita, o professor, advogado e folclorista João Chiarini. As duas fotos foram retocadas por IA (ChatGPT).
A Semana de Arte Moderna de 1922 de São Paulo, é um dos marcos do Modernismo brasileiro. De forma similar, a Exposição Adâmoli de 1941 e o Salão de Arte Moderna de 1966 são marcos similares em Piracicaba, fundadoras de práticas artísticas que hoje são plenamente aceitas.
Nem sempre foi assim, porém. Na pesquisa que realizo para um livro sobre a História das Artes Visuais em Piracicaba, a ser publicado futuramente, encontrei relatos de que a arte moderna causou muito estranhamento na cidade, em seus inícios. E que entre as décadas de 1940 e 1980 houve uma versão local da contenda europeia entre “antigos x modernos”, do século XVII, na forma de “acadêmicos x modernos”.
É bastante significativo ter encontrado não um, mas dois textos, publicados na imprensa local exatamente na mesma data: 01 de agosto de 1963. Podem ser considerados fundadores das narrativas locais sobre os artistas da terra, um representando os acadêmicos, o outro os modernos.
O primeiro, mais completo, listando artistas e suas obras, dados biográficos e o esboço de uma cronologia, foi escrito por João Chiarini, no suplemento de oito páginas do jornal “Folha de Piracicaba”, com o título “As Artes Plásticas em Piracicaba”. O texto de Chiarini, provavelmente, concorreu ao concurso realizado pelo jornal “O Diário de Piracicaba” e não venceu. Foi vencedor do certame o artista e professor Archimedes Dutra, publicado por aquele jornal. O tema do concurso era “História das Artes Plásticas em Piracicaba”. Dutra ganhou com o texto “Piracicaba na Arte Nacional”.
Os textos que localizei anteriores a esta data tratam de artistas específicos, nenhum deles oferecendo um panorama geral sobre a arte realizada em Piracicaba, até estes textos de 1963.
O que move o texto de Dutra é o reconhecimento da importância da obra de Miguel Arcanjo Benício da Assunção Dutra, conhecido como Miguelzinho Dutra (1812-1875), seu bisavô, como artista pioneiro paulista e baluarte fundador de uma tradição artística brasileira. Segundo Dutra, um dos méritos de Miguelzinho é o de ter sido o primeiro a romper com a arte de tradição europeia:
(…) Benício Dutra – o “Miguelzinho”, se avulta no panorama artístico nacional e se apresenta como pioneira, isto é, pela primeira vez, na Província de São Paulo, um PINTOR BRASILEIRO fixou através das impressões descritivo-figurativas, cenas de costume, motivos sociais e históricos, vistas panorâmicas de cidades, paisagens, assim como vultos ilustres, tipos populares, motivos de interêsse coletivo, etc., tudo com sensibilidade puramente “nativa”, porque vivendo e sentindo o ambiente da sua própria pátria, porisso mesmo, completamente desembaraçado das pêias estrangeiras. [maiúsculas e ortografia do autor.]
O texto ainda não apresenta um cânone, ou seja, uma lista dos artistas piracicabanos mais representativos. Apresenta em duas páginas de jornal (tamanho standard, 56 cm de altura por 32 cm de largura) uma biografia de Miguelzinho Dutra, mostrando resultado da pesquisa minuciosa do autor. Já a partir do título, fica evidente que a principal contribuição de Piracicaba para a arte nacional teria sido a obra de Miguel Dutra.
Pintura de Miguelzinho Dutra: Salto do rio Tietê (a queda do Outu-Guassu), hoje na cidade de Salto. Para Archimedes Dutra, o conjunto da obra de Miguelzinho foi a principal contribuição de Piracicaba para a arte nacional.
Em pleno aniversário de dez anos do primeiro Salão de Belas-Artes de Piracicaba, o artigo acaba por validar a herança artística defendida pelo professor Archimedes Dutra e o grupo de artistas acadêmicos por ele liderado, ao apresentar uma “fonte nativa” para o manancial artístico piracicabano, inspiradora da arte depois praticada por Almeida Jr. e os artistas da família Dutra.
Se Dutra cria um “mito de origem” da arte acadêmica piracicabana, Chiarini rebate com outro tipo de esforço: registrar a história do maior número possível de artistas, falecidos ou vivos naquele momento, em Piracicaba. O autor escreve pequenas biografias, a exemplo de Giorgio Vasari, o artista e historiador renascentista. Chiarini junta às biografias uma cronologia das artes em Piracicaba que, por ser muito incompleta, pode ser considerada um esboço.
Ele tem o mérito de registrar, e talvez fixar, os artistas de um “cânone piracicabano”: os artistas Dutra, Joaquim de Mattos, frei Paulo de Sorocaba, os irmãos Thomazi, e outros. Fala também dos modernos: Eugenio Losso, Antonio Pacheco Ferraz, Nelson Nóbrega, Renato Wagner, Hugo Benedetti, e principalmente, Joca Adâmoli, artista que recebe mais atenção entre todos. Trata também de artistas hoje esquecidos, ou que tiveram sua importância reconhecida posteriormente, como Ida Schalch.
Do título de sua cronologia - “Origem e Evolução” - depreende-se que defendia a ideia de que as artes também tinham uma “evolução”, como na teoria evolucionista darwiniana. Naquele momento, baseados no conhecimento que temos de sua preferência pela arte moderna, seria esta o ápice de tal evolução.
Para Chiarini, Adamoli representava o ápice da arte em Piracicaba.
Seu “cavalo de batalha” no texto é a defesa de Adâmoli como o primeiro artista moderno de Piracicaba, diga-se, revelado por Chiarini na Exposição Adâmoli de 1941, que causou muita polêmica. Acentue-se também o mérito de ter sido o primeiro crítico da cidade a mostrar o valor dos artistas de linhagem não-acadêmica, modernista, em um texto abrangente sobre artistas locais.
Os dois textos são pioneiros ao apresentarem uma visão panorâmica da história das artes plásticas em Piracicaba. Ao mesmo tempo, defendendo posições artísticas e políticas opostas, são importantes registros da contenda entre “acadêmicos x modernos” na cidade.
A principal diferença entre os autores é a mentalidade: para Dutra, o melhor da arte em Piracicaba estava num artista do passado, um mestre local - mentalidade típica do culto ao passado, representados pelos Mestres máximos da arte grega e renascentista, que deviam ser imitados, uma crença estruturante da Arte Acadêmica; para Chiarini, o melhor da arte feita na cidade estava num artista do presente, que na mentalidade marxista do intelectual piracicabano, era encarnada em Adamoli, um artista que não só era o mais moderno de Piracicaba no momento exato em que escreve, mas apontava para os caminhos do futuro na arte, que para a mentalidade marxista, é crença estruturante - a luta no presente por novos caminhos que levem a um futuro glorioso e sem lutas.
Publicado originalmente na Revista do IHGP n.o 27, setembro de 2023, aqui com acréscimos e correções.
Referências bibliográficas
CHIARINI, João. “As Artes Plásticas em Piracicaba”, Folha de Piracicaba, 01/08/1963.
COSENTINO, Umberto Silveira. A Escola Naturalista de Pintura de Piracicaba. Textos de crítica de exposições de arte e A Coleção de Arte. Piracicaba: Ao Gato Preto Editora, 2016.
DUTRA, Archimedes. “Piracicaba na Arte Nacional”, O Diário de Piracicaba, 01/08/1963.
PFROMM Neto, Samuel. Dicionário de Piracicabanos, Piracicaba: IHGP, 2013.





