Recordo uma velha tirinha, provavelmente de Bill Watterson, criador de Calvin e Haroldo, para o Estadão, não tenho certeza. Um adulto reúne um monte de crianças para contar história de pirataria e de como os piratas agem.
O texto, portanto, é basicamente uma recriação minha: “Os piratas invadem os navios em alto-mar; matam os homens; estupram as mulheres; jogam as crianças para os tubarões e ficam com toda a riqueza saqueada”, contava o adulto.
Depois de um breve silêncio, ele perguntava: “Vocês querem brincar de pirata?”. A resposta era unânime. Todas as crianças levantavam os braços e gritavam, eletrizadas: “Siiiimmmm!!!”.
É uma tirinha aparentemente ingênua, mas que serve para pensarmos sobre a natureza humana, tão bem traduzida pelo artista. A questão não é tanto o que as crianças vão fazer, mas a emoção em fazê-lo. Evidente que estamos diante de uma obra de arte, que não pode ser confundida com a realidade.
A depender de como você vende a emoção, a disposição para aceitá-la pode, sim, variar, e até o absurdo pode se tornar palatável. O terror ganha um novo significado em cabeças infantis.
Estamos aí com a eleição para presidente. Metade do Brasil acha que Lula é um verdadeiro pirata a pilotar um navio de saqueadores. Outra metade acha que o pirata verdadeiro é Flávio Bolsonaro e seus séquitos. Mas todos os eleitores querem brincar de pirata.
Há, como fica evidente, uma brincadeira de aposta de qual seria o pirata mais atroz; qual deles tem o maior poder de sedução; qual deles está mais próximo de cumprir o que de fato promete. O medo é relativo à bandeira do pirata de preferência.
Estamos no mundo da fantasia, mas que oferece um espaço amplo para o brasileiro voltar a ser criança, pois todos, quando se veem na condição de adultos, sabem que nada do que está sendo prometido por ambos os candidatos a pirata será de fato entregue. Para não ser estraga-prazer, corrijo: muito pouco será entregue.
Mesmo assim, enfatizo, a esmagadora maioria quer brincar de pirata. A única dificuldade está na escolha do pirata ideal. Enquanto estamos no plano da fantasia, tudo certo. Mas, a partir de segunda-feira (26), o cenário muda. A vaca fria, como diria o velho colunista, é a dura realidade que continuamos enfrentando e a dificuldade de relacionar essa realidade com uma brincadeira de pirata.
Se a arte imita a realidade, estamos bem arrumados. Só sei que os navios piratas se aproximam e seus integrantes se digladiam para saber qual deles terá o direito ao nosso espólio. E a nau Brasil segue apreensiva. Ressoa, lá no fundo do imaginário: “Vocês querem brincar de pirata?” “Siiiimmmm!!!”





