Nelson Rodrigues é um daqueles artistas que eu não devia ter de explicar quem é. Não só porque não é um “artista” no sentido de “todo aquele que aparece na televisão”, como diria minha avó. Aqueles sobre os quais tenho falado nas últimas semanas, aqui no Viletim.
Vivendo os tempos que vivemos, em que todo riso vira sarcasmo e as lágrimas são de crocodilo, isso é necessário, em verdade. Em verdade, eu vos digo: é dever de toda pessoa que possua um espacinho na “mídia” esclarecer, riscar fósforos em meio à grossa escuridão. Falando dos mortos (já que estamos próximo do Dia de Finados) e o que eles nos mostraram, lá na distante pré-história da internet.
Minha vocação de professor piora a coisa, duplica o senso de dever de ter de explicar quem é Nelson Rodrigues. Vamos a ele, para entendermos os motivos dos cancelamentos do Anjo Pornográfico, à direita e à esquerda, serem indício da sua grandeza, mas motivos trágicos num país que não o mereceu e não o merece ainda. Talvez o Brasil nunca entenda o real tamanho de um Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues foi, talvez, o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos. “Talvez”, porque não sou crítico literário para retirar com certeza o advérbio de dúvida, e também porque o teatro brasileiro - “dramaturgo” significa “escritor de peças de teatro”, vão anotando - nunca foi lá grande coisa, e nenhum de seus nomes - com a possível exceção de Rodrigues e, vá lá, Plinio Marcos - faria falta numa lista dos autores da literatura universal que escreveram para o palco (lembrem-se, sou crítico literário bissexto, quinzenal, canhenho).
VIDA E OBRA
Nelson tinha como profissão o jornalismo. Seu pai Mario Rodrigues e vários dos 13 irmãos de Nelson se destacaram na área, e começaram suas carreiras trabalhando nos jornais do pai, “A Manhã” e “Crítica” (Mário Filho, por exemplo, mudou a crônica esportiva no Brasil, a ponto do nome oficial do estádio do Maracanã ser “Jornalista Mário Filho” em sua homenagem).
Vários fatos ajudam a explicar os temas absolutamente trágicos, e a forma de abordá-los, por Nelson, em sua obra, não só peças teatrais, mas crônicas do cotidiano (A Vida como ela é…), romances (Asfalto Selvagem: Engraçadinha, seus amores e seus pecados) e crônicas esportivas (À sombra das chuteiras imortais):
As mortes trágicas de dois de seus irmãos - Roberto, aos 23 anos, assassinado em 1929, e Joffre, com 21 anos, vítima de tuberculose em 1936. O pai, Mario Rodrigues, faleceu em 1930, meses depois da morte de Roberto.
Roberto teve uma carreira de ilustrador e artista plástico promissora interrompida. E quanto a Joffre, Nelson carregaria o remorso por acreditar que tinha passado tuberculose ao irmão.
A pobreza extrema da família. A família passou por sérias necessidades, enquanto o pai era vivo, e principalmente depois de sua morte: chegaram a passar fome. Nelson contraiu tuberculose e quase morreu por conta da desnutrição, destino ao qual seu irmão Joffre não escapou. Para ele, pobreza não era teoria, e sim, experiência vivida na carne, acompanhada não só do sofrimento físico, mas também de humilhações, rebaixamento social, miséria espiritual.
Nelson percebeu o quanto não ter dinheiro nem para o básico e ainda sofrer fisicamente e moralmente por isso tirava das pessoas sua dignidade, deixando a porta aberta para os instintos fazerem ainda mais estragos em cada um que se deixasse levar:
"Não tinha roupa ou só tinha um terno; não tinha meias e só um par de sapatos (...); e quantas vezes almocei uma média e não jantei. Assim como não me reconheço na adolescência, também não me reconheço na fome. Durante aquele período, a fome apagou minha identidade. Eu não era eu mesmo."
Mesmo depois de ter alcançado sucesso com suas peças, incluindo o financeiro, se recusava a ostentar luxo, declarando-se um “pobre espiritual”:
“Sou um pobre nato e, repito, vocacional. Ainda hoje, o luxo, a ostentação, a joia, me confundem e me ofendem”
Sua profunda admiração por Dostoievsky. O romancista russo, que retrata os seres humanos em sua forma mais crua, sensual e enfática nos defeitos, é a sua maior influência literária, declarada abertamente pelo próprio Nelson.
Cito textualmente um trecho de uma crõnica do autor, por ser saborosa demais para ser ignorada:
“(…) Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo.
Perguntou-me: “O que é que você leu?”. Respondi: “Dostoievski”.
Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: “Que mais?”.
E eu: “Dostoievski”. Teimou: “Só?”.
Repeti: “Dostoievski”.
O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada.
Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem.
O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura.
Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.”
em "O Óbvio Ululante: Uma banana como merenda [15/12/1967]"
Seu trabalho como repórter policial, entre 1925 e 1930, foi suficiente para constatar a crueza da vida dos miseráveis e a hipocrisia da classe média do Rio de Janeiro.

Clique aqui e leia a parte 2 do artigo, em que trato dos “cancelamentos de direita” do autor.






