O “CANCELAMENTO” SOB ALEGAÇÕES PROGRESSISTAS
A peça “Álbum de Família”, lembrem-se, escrita em 1946, somente foi liberada, ironicamente, durante o regime militar, em 1965 - um ano antes da proibição do seu romance “O Casamento”.
Nelson era visto como bons olhos pelos militares do regime de exceção, pois apoiou publicamente a intervenção de 1964 e o novo estado. Ele não era visto como um subversivo político de esquerda, e sim, um intelectual que avalizava as ações militares para “defender o país do comunismo”.
O próprio Nelson se apresentava como uma pessoa conservadora. No seu entender, os temas de suas peças, crônicas e romances não eram apologias às imoralidades ou posturas liberais nos costumes, mas a crônica dos costumes das classes médias brasileiras, suas culpas, medos e transgressões, que eram encobertas por ações hipócritas, travestidas de moralismo e religiosidade insinceras, falsas.
O regime militar, em seus primeiros anos (de 1964 a 1968), concentrou sua ação de censura contra livros, jornais e outros materiais de imprensa e artísticos, que falavam abertamente, defendessem ou ensinassem conceitos marxistas, e também os que incentivassem greves, revoltas políticas e qualquer material que fosse diretamente contrário ao regime militar. O “Teatro Desagradável” de Nelson Rodrigues não tinha teor político, e era visto como uma “excentricidade” de um autor conservador. Sua maneira de tratar de transgressões e tabus sexuais perturbava a moral, mas não ameaçava o governo.
Nelson não poupava sua verve corrosiva para criticar os esquerdistas. Em suas crônicas do jornal “O Globo”, na coluna “As Confissões de Nelson Rodrigues”, ele cunhou termos como “padres de passeata” e “marxistas de galinheiro” para descrever alguns dos jovens da Zona Sul carioca, que tramavam a “revolução proletária” bebendo uísque.
Em uma dessas crônicas, Nelson criticou o fato dos jovens gritarem em uma passeata por “Vietnã! Vietnã!”. No momento, ele conta que sentiu vontade de replicar “Rua do Ouvidor! Rua do Ouvidor”. Querendo dizer que os jovens não olhavam para os problemas ali na sua cara, no seu dia a dia, e estavam preocupados com Cuba, China e Vietnã, lugares distantes e sobre os quais não tinham nenhuma influência. Segundo Nelson, sobre os problemas do Brasil, eles mantinham um “silêncio ensurdecedor”.
Nelson não foi poupado pela “esquerda festiva” que criticava. A patrulha ideológica caiu sobre Nelson como urubu: odiado pelos reacionários e conservadores de direita pela “perversão” e “pouca vergonha”, passou a ser odiado pelos progressistas como “reacionário”, “defensor dos milicos” e “colaborador da ditadura”. Passou a ser boicotado nas montagens de suas peças e vaiado publicamente.
Só não foi boicotado profissionalmente ainda mais porque tinha emprego fixo em “O Globo”. Mas o linchamento moral foi firme, constante. Foi uma das vítimas do cartunista Henfil em seu célebre, triste e rancoroso “Cemitério dos Mortos-Vivos” do Cabôco Mamadô, coluna do jornal “O Pasquim”, em que o artista “enterrava” simbolicamente celebridades que seriam colaboradoras dos militares e suas atrocidades. Ou bastava não se posicionarem para serem “alienadas”... e mesmo assim serem “enterradas”.

Tendo sido censurado em 1966 com o romance “O Casamento”, e com a ampliação da repressão dos órgãos de censura ao regime, que passaram a censurar obras não só de teor político, mas também que ofendessem a “moral e os bons costumes”, Nelson passou a ser alvo do regime que apoiava. Durante a ditadura militar, teve 8 obras censuradas, entre romances, peças teatrais e roteiros de filmes e TV.
Nelson passou a contestar não o regime político, mas a censura sobre os artistas. Mesmo mantendo suas posições anticomunistas, ele passou a se manifestar publicamente: em fevereiro de 1968 (meses antes do AI-5, promulgado em dezembro daquele ano), participou de um protesto nas escadarias do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em que defendeu não só o fim da censura, mas também a livre expressão de artistas como Caetano Veloso.
No entanto, foi a partir do que aconteceu com seu filho em 1972, que passou a se posicionar contra a perseguição de inimigos do regime.
Ingenuamente, Nelson acreditava na palavra do presidente Geisel, que afirmava que as torturas contra inimigos do regime eram boatos da oposição: acreditar que havia essa prática no Brasil “era uma imbecilidade”, nas palavras do general-presidente. Quando, porém, Nelson constatou os ferimentos graves que seu filho Nelson Rodrigues Filho, militante do grupo de esquerda MR-8, sofreu durante os três dias na cadeia, caiu das nuvens. A partir daí, embora não pudesse ser publicamente contrário ao regime militar, passou a utilizar sua influência para proteger perseguidos políticos e a ser um defensor ferrenho da Anistia.
Nesta entrevista, o autor conta a Flavio Cavalcanti sobre seu sofrimento pela prisão de seu filho Nelsinho.
O autor abandonou o tom sarcástico contra a esquerda em suas crônicas, e passou a mostrar melancolia, dor e sofrimento. Declarou, em um desses textos:
“A tortura é a coisa mais hedionda que já apareceu na Terra. Isso é o óbvio ululante. Jamais na minha vida fui favorável a tortura. Jamais seria a favor de uma coisa que é uma torpeza.
O meu horror à tortura e à censura, é tão grande ou maior do que o de vocês. Por uma série de motivos. Eu tenho um filho que está preso e condenado a 50 anos. Tenho, portanto, de ter uma posição muito nítida.
Sim, meu filho foi torturado.
Agora, o que não entendi é onde encontram elementos para dizer que sou benevolente com a tortura.
Pois saibam que devoto à direita o mesmo horror que tenho pela esquerda. E dedico um desprezo e uma indignação ainda mais profundos a qualquer espécie de tortura. Eu sou obviamente – meu Deus do céu! – por todas as razões, inclusive por razões pessoais, um enjoado absoluto com a ignomínia”.
Sua defesa pela Anistia era de que fosse ampla, geral e irrestrita, com uma única ressalva: que ela não se estendesse aos torturadores. No entanto, sabemos que ele não foi atendido nesse clamor: os torturadores nunca foram presos, nem sequer condenados em processos judiciais.
Nelsinho foi solto, cumprindo quase oito anos de pena, muito por causa do prestígio público de Nelson Rodrigues. Ele nunca abandonou o amor pelo filho, apesar do abismo ideológico que, no papel, os separava.
Embora o Anjo Pornográfico se mantivesse contrário às ideias de esquerda e ferrenhamente contra o comunismo, a defesa do fim das torturas, das perseguições políticas e da Anistia, abrandaram, até eliminar, o “cancelamento” da esquerda brasileira em relação a Nelson Rodrigues.
O CANCELAMENTO
DA IGNORÂNCIA E DO DESCONHECIMENTO
O pior cancelamento, para um autor, é não ser lido. Especialmente se um dia foi aclamado como grande, como importante, como relevante.
No caso de Rodrigues, não há como dizer que a atenção sobre sua obra foi por ter sido “modinha”, best seller por ter chamado a atenção pelos temas que eram seus preferidos.
É chover no molhado para quem o conhece, mas haverão poucos que chegaram até aqui a terem consciência do tamanho de Nelson Rodrigues. Não para a literatura, não para a cultura, nem para honrarias de um panteão, uma espécie de homenagem que seria condenada pelo autor de “A Vida como ela é…” de forma pontiaguda.
E sim para os leitores que, primeiro tomaram um tapa na cara ao ler um texto seu, ou que viram uma peça de sua autoria. E que passado o choque de “realidade aumentada” que a obra rodrigueana traz, passam a amá-lo. Pois, assim como Dostoievsky para Nelson, a sua arte, para muitos, é antídoto contra a realidade sórdida, sim, mais sórdida que as perversidades que ele aborda em obras-primas como “Vestido de Noiva”, “Asfalto Selvagem” e tantas outras. Pois a arte com que aborda a realidade a torna suportável; caso contrário, ficaríamos com os Datenas da vida, que nenhum engenho possuem, e tornam a vida pior do que ela é.
Em 1992, Ruy Castro cometeu o milagre de ressuscitar Nelson Rodrigues, morto em 1980, somente 12 anos antes da sua biografia “O Anjo Pornográfico”. Seu trabalho em reeditar, ou em alguns casos, editar pela primeira vez reunidos em livro, seus textos, trouxe, nada mais, nada menos, que a “vida como ela é” para toda uma geração.
Hoje, parecem que se passaram séculos da existência e atuação de um Nelson Rodrigues, e outras personalidades que não tinham “papas na língua” e diziam o que pensavam com coragem: Flávio Cavalcanti, Tom Jobim, Paulo Francis, Millôr Fernandes. Dercy Gonçalves foi a última dessa linhagem. Nos anos próximos ao seu falecimento, no entanto, nossa época, que vive de “passar pano” para políticos, artistas e celebridades de estimação, era mais vista como uma velhinha desbocada do que realmente ouvida.
Que diríamos de Nelson Rodrigues, que mostrava o subterrâneo da condição humana, aquilo que todos querem manter debaixo do tapete, sob o risco de, como diz Fernando Pessoa, parecerem menos que semideuses?




