“New Older Living”: envelhecimento saudável sem o preconceito da idade
Os participantes da corrente focam na valorização da saúde física, mental e de novas experiências e no maior engajamento com as tecnologias e mídias digitais

A New Older Living Trend (Nolt), nascida nas redes sociais, é uma redefinição do estilo de vida das pessoas idosas, um movimento comportamental que rejeita rótulos e estereótipos clássicos para o público 60+. Além disso, a corrente foca no protagonismo e autonomia, na valorização da saúde física, mental e de novas experiências e no maior engajamento com as tecnologias e mídias digitais. É uma mudança de paradigma, o envelhecimento não é mais visto como declínio, mas como acúmulo de bagagens prévias, é uma resposta ao acelerado envelhecimento populacional no Brasil.

Yeda Duarte, gerontóloga e professora da Escola de Enfermagem e da Faculdade de Saúde Pública, ambas da Universidade de São Paulo, entretanto, explica como o novo termo pode acentuar preconceitos e criar separações entre os idosos. “Dá mesma forma que não existem categorizações para outras idades, não deve existir para idosos. Quem participa da Nolt por ter um estilo de vida mais ativo, de participar de atividades sociais e interagir com tecnologias, acredita ser diferente dos demais e cria essa divisão. Isso é uma forma de preconceito que precisa ser combatida, porque mesmo que a pessoa não tenha chegado nessa fase tão boa de saúde, ela também chegou lá.”
Incentivar o envelhecimento saudável
“Estamos na década do envelhecimento saudável, então devemos incentivar todos a qualquer momento e a qualquer idade a transformarem seus estilos de vida e isso não é uma dificuldade exclusiva da velhice. Para fazer as pessoas mudarem, elas precisam se conscientizar do que faz bem e mal para o corpo. Diferentes estudos afirmam que a incorporação de atividades físicas ao longo do dia a dia, como caminhadas e subir escadas, já colaboram para a não sedentarização do indivíduo. Além dos exercícios, é essencial incluir uma alimentação saudável, com menos ultraprocessados, e evitar hábitos maléficos, como o tabagismo, para evitar doenças crônicas que são comuns até nas Nolt”, pontua a especialista.
Yeda também ressalta que as doenças mais prevalentes na população idosa no Estado de São Paulo, além da hipertensão, são musculares, articulares e osteoarticulares. Isso acontece principalmente pela falta de atividades físicas no cotidiano, que resulta numa musculatura pouco desenvolvida. “Se eu não faço exercícios, perco massa muscular e, com isso, não tenho musculatura suficiente para aguentar meu próprio corpo. Somando isso a um problema articular, por exemplo, vai resultar em dores, que se amplificam com o tempo, tornando-se um ciclo vicioso.”
“É, então, essencial a realização constante de atividades físicas, já que vai melhorar as articulações e fortalecer a musculatura do indivíduo, evitando a sarcopenia, que é a perda significativa de músculos. Dessa forma, preserva-se sua independência, e toda vez que eu sou mais independente para minhas atividades, eu preservo a minha própria autonomia, já que quando depende-se de alguém para algo seu poder de decisão é comprometido. O corpo obviamente vai apresentar limitações, mas ele fará o que ele quer, do jeito que ele quer, e isso é importantíssimo”, completa.
Obstáculos psicológicos
Por outro lado, Deusivania Falcão, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e especialista em Psicogerontologia, diz que essa narrativa pode ser inspiradora, mas deve ser analisada com cuidado, visto que nem todos envelhecem com as mesmas condições para sustentar esse ideal. “O principal equívoco é pensar que a ausência de atividade física se resume à “falta de vontade”. Do ponto de vista psicológico, a questão é muito mais complexa. Existem barreiras construídas ao longo de toda a vida. Muitas pessoas idosas, por exemplo, nunca tiveram uma relação positiva com o exercício físico.”
“Existem fatores emocionais importantes: medo de cair, medo de se machucar, insegurança com o próprio corpo, vergonha, especialmente em ambientes com pessoas mais jovens, e experiências anteriores negativas. Outro aspecto central é a autoeficácia, ou seja, a crença de que “eu sou capaz”. Quando essa crença está fragilizada, o que pode ocorrer diante de perdas físicas, cognitivas ou sociais, a tendência é que a pessoa nem sequer tente. E há ainda um elemento frequentemente negligenciado: o sofrimento psíquico. Luto, solidão, doenças crônicas, cansaço emocional, tudo isso impacta diretamente a motivação para iniciar ou manter hábitos saudáveis”, explica.
“A pessoa pode olhar e pensar: ‘Isso não é para mim’. Por isso, mais do que incentivar, é preciso cuidar” – Deusivania Falcão
Socialização e compartilhamento de experiências
Apesar da questão do preconceito e divisões, que podem surgir, Yeda aponta que o New Older Living Trend possui propostas interessantes, que ajudam nos relacionamentos da população 60+. Uma delas é a socialização, fundamental para a melhora na qualidade de vida e troca de experiências entre diferentes pessoas e até gerações. “Existem políticas públicas que oferecem espaços para a integração, academias ao ar livre, centros de convivência e outros programas, agora elas precisam ser implementadas e incentivadas para todas as idades. Essa troca entre idosos e com outras gerações é de suma importância para a transmissão de conhecimentos e aprendizados em que ambos podem ensinar uns aos outros.”
“Os benefícios vão muito além do aspecto físico. Quando falamos de socialização e de um estilo de vida ativo, estamos falando de uma proteção global cognitiva, emocional, funcional e até biológica. No plano psicológico, há redução de sintomas de depressão e ansiedade, aumento do senso de pertencimento e fortalecimento do sentido de vida. Ter com quem conversar, compartilhar histórias, sentir-se escutado, tudo isso valida a própria existência. E isso favorece a saúde mental. Do ponto de vista cognitivo, as interações sociais estimulam memória, linguagem, atenção e flexibilidade mental. Há evidências de que essas experiências podem contribuir para a prevenção ou o atraso do declínio cognitivo”, finaliza Deusivania.
Matéria: Andrey Furmankiewicz | Jornal da USP.





