Tela de entrada do NhoChat: ihgp.org.br/nhochat.
O recurso tecnológico mais avançado do momento chega à “Noiva da Colina” por um caminho bem tradicional, oferecido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, o IHGP, como divulgado nesta semana, pelo Viletim. O Instituto disponibilizou publicamente o NhoChat, o primeiro assistente virtual que é alimentado por uma Inteligência Artificial treinada para auxiliar nas pesquisas sobre a história e tradições da cidade.
O “lugar onde o peixe para” e uma IA para chamar de sua. Se depender do IHGP, o peixe não vai parar no tempo. A IA disponibilizada pelo Instituto, o NhoChat, foi treinada com os livros, revistas do IHGP e outros materiais do seu acervo. A ideia é que o chat, o programa no qual é possível conversar com a IA, responda a perguntas sobre a História da “Noiva da Colina”.
Fui testar o NhoChat. Leio e pesquiso a respeito da história de nossa cidade desde a década de 1990. Modestamente, tenho uma ideia sobre o assunto. A minha curiosidade estava em como ele iria responder a perguntas simples, do tipo as que crianças seriam solicitadas em trabalhos de escola.
A primeira pergunta foi: “Como foi fundada a cidade de Piracicaba?”
A resposta:
“A fundação da cidade de Piracicaba está inserida no contexto da política colonial para a criação de núcleos que se tornaram cidades. A cidade foi fundada pelo povoador Antônio Corrêa Barbosa no dia 1º de agosto de 1767. A importância econômica do município, desde sua fundação, estava ligada à produção agrícola, especialmente à produção de açúcar. Em 1836, Piracicaba já dispunha de 78 engenhos de açúcar e várias fazendas de criação”. Em seguida, listou três referências com links para consulta, duas de revistas do IHGP, e uma da “História da Fundação de Piracicaba” de Mario Neme, a principal referência sobre esse assunto.
Os links de consulta direcionam para trechos dos textos indicados, mas se encontram um tanto bagunçados e a compreensão, para quem não tem familiaridade com o material, é difícil.
Achei a resposta razoável, embora incompleta. A primeira frase deixa, na verdade, os motivos da fundação de Piracicaba sem explicação. Da forma como se apresenta, um escolar não tem condições de entender. Passa por cima dos motivos reais: o estabelecimento de uma fábrica de batelões, barcos de madeira, dos quais necessitavam as expedições, as monções, que subiam o rio Tietê, para abastecer de mantimentos e pessoas, a Colônia de Iguatemi, situada para além das fronteiras portuguesas, ocupando território espanhol. Uma aventura de conquista do então governador da capitania de São Paulo, Luiz Antônio de Souza Botelho e Mourão, conhecido por seu título de nobreza, “Morgado de Mateus”.
Piracicaba, portanto, foi fundada para ser uma fábrica de barcos, dirigida por seu fundador, o capitão-povoador ituano Antonio Correa Barbosa, que já era fabricante desse tipo de transporte em Itu. Nada disso foi contemplado na resposta do NhoChat.
Uma pergunta mais fácil, do tipo: “Qual era o nome completo do governador da Capitania de São Paulo, em 1767? ” gerou uma resposta plenamente satisfatória: “O nome completo do governador da Capitania de São Paulo em 1767 era D. Luiz Antônio de Souza Botelho e Mourão, conhecido como Morgado de Mateus”.
Uma resposta polêmica. Mas a resposta que achei mais curiosa foi a uma pergunta mais difícil. Sei que há registros de outros habitantes portugueses no território da cidade, antes da fundação oficial. Então, fui perguntar ao NhoChat:
“Quem foram os povoadores de Piracicaba antes da fundação oficial, em 1767?”
A resposta:
"Antes da fundação oficial de Piracicaba em 1767, a região já era frequentada por índios. A povoação foi fundada com índios vadios, dispersos e vagabundos, que foram congregados pelo Diretor e primeiro povoador Antônio Corrêa Barboza"
Achei muito engraçado. Esta é a versão dos primeiros escritos sobre a história de Piracicaba, e é amplamente rejeitada pelos descendentes dos primeiros povoadores (sim, eles estão aqui) até hoje.
Prudente de Moraes, em retrato pintado por Almeida Jr. em 1894.
Prudente de Moraes escreveu uma colaboração para o “Almanach Litterario de São Paulo” de 1878, reproduzido depois no “Almanack de Piracicaba” de 1900, na qual fala de Piracicaba como local destinado a degredo, ou seja, de punição de criminosos. Enfatize-se que Prudente de Moraes, embora ele e sua família tenham adotado Piracicaba como sua cidade, não queimou muitos neurônios para poupar a cidade de uma origem pouco nobre:
Os criminosos seriam largados no “meio do mato”, à mercê dos índios, dos animais e outros perigos ignorados. Tais penas teriam sido imputadas pelos capitães-mores da vila de Itu, a qual Piracicaba pertencia. Os degregados teriam concentrado suas casas, formando um minúsculo núcleo de povoação próximo do Salto, o qual teria sido aproveitado pelo capitão Barbosa quando da sua incumbência de fundar oficialmente a povoação em 1767.
Eu pensei que a versão de Mario Neme era a “versão oficial” da história da fundação de Piracicaba. Sem dúvida, é a primeira realizada com pesquisa séria, fundamentada em documentos, e com todo o rigor acadêmico.
Ilustração de como seria Piracicaba em seus primeiros anos.
Esta versão contesta firmemente uma Piracicaba que teria sido local habitado por criminosos em suas origens, em seu livro "História da Fundação de Piracicaba":
Esta, é claro, uma pequena amostra da sua argumentação, que se estende por várias páginas. No entanto, páginas adiante, Neme admite que a partir de 1725, Piracicaba torna-se local de refúgio de perseguidos pelo então governador da capitania de São Paulo, que proibira a circulação até Minas Gerais e Mato Grosso, proibindo a abertura e manutenção de estrads para esses locais. Piracicaba contava com um picadão que levava para a direção de Cuiabá, estrada esta aberta por Felipe Cardoso em 1723, o primeiro dono de terras coladas ao Salto, em uma sesmaria concedida pela Coroa Portuguesa. Segundo Neme,
Essa é uma versão mais enobrecida. Muito melhor nossos antepassados serem agricultores do que criminosos enviados para serem punidos no meio do mato, não é mesmo?
Resumindo, existem interpretações diferentes sobre o início de Piracicaba. A presença ou não dos degredados no local, antes, durante ou depois de sua fundação oficial é um ponto polêmico nesta história, e ainda não é questão fechada. O NhoChat não fecha questão, ainda está limitado e dependendo do momento e da forma que se pergunta, ele dará respostas diferentes – aliás, como as IA's costumam fazer.
O NhoChat é uma ferramenta muito bem-vinda na escrita e divulgação destas histórias. Como toda IA, ainda tem que ser treinada longamente e ainda precisa de tempo para mostrar plenamente os seus benefícios. Por enquanto, ela não irá ameaçar nenhum historiador local, pois ela somente apresenta de forma incompleta algumas informações do banco de dados a partir do qual ela é alimentada. Mas é excelente para consultas rápidas, principalmente se você sabe bem o que perguntar. Portanto, ainda não está muito adequada para consulta por crianças e adolescentes em idade escolar.
Para quem se interessa em como iniciou-se a cidade de Piracicaba e como o “lugar onde o peixe para” foi fundado oficialmente na época do auge da exploração do ouro em Minas Gerais, teremos em breve mais artigos aqui no Viletim a respeito dessa história tão rica e tão cheia de controvérsias e interpretações, algumas vezes conflitantes, como a demonstrada aqui.
O NhoChat está acessível pelo endereço ihgp.org.br/nhochat









