Norma Bengell para além dos rótulos
Estudo sobre atriz e diretora carioca busca reparar apagamento histórico
Diversos momentos da carreira de Norma Bengell: (1) junto de outras atrizes em passeata durante a ditadura civil-militar; (2) com Othon Bastos e Leonardo Villar em “O Pagador de Promessas” (1962); (3) em “O Homem do Sputnik” (1959); (4) e com Odete Lara em “Noite Vazia” (1964)
Norma Bengell foi um nome constante nos cinemas brasileiros na segunda metade do século 20, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970. Foram mais de 60 personagens interpretados e oito filmes dirigidos. Artista polivalente e engajada, protagonizou momentos que entraram para a história do cinema, além de ter participado de movimentos que revolucionaram a cinematografia nacional. Em estudos sobre a historiografia do cinema, porém, seu nome aparece apenas como figurante, conforme aponta Andressa Gordya, doutora em Multimeios pela Unicamp.
Pesquisadora e crítica de cinema, Gordya explica que se interessou pela história de Bengell quando já estava matriculada no programa de pós-graduação do Instituto de Artes (IA) da Unicamp. Mais especificamente em 2019, quando a viu no filme Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. “Fiquei fascinada com sua visceralidade e resolvi fazer uma pesquisa.” Ela lembra de ter se deparado com um conteúdo sensacionalista e deprimente na internet, enquanto sua busca em repositórios acadêmicos a frustrou por um motivo diferente. “Nenhuma dissertação, tese, nem mesmo artigo sobre Norma. Não havia praticamente nada, ela era uma nota de rodapé, um apêndice”, resume.
Em sua pesquisa acadêmica, ela se concentrou em resgatar a vida e o trabalho de Bengell, buscando reparar a exclusão da artista na historiografia do cinema. “O recorte histórico molda nossas visões, nossas perspectivas e até mesmo nosso entendimento da participação das mulheres no cinema. Enquanto os homens têm heróis, ídolos, estátuas, ou seja, todo um capital simbólico em que se inspirar, as mulheres são muito negligenciadas no decorrer da história”, pondera.
Iara Beleli, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Unicamp, orientou o doutorado, para o qual foram desenvolvidos três trabalhos: um estudo da autobiografia da atriz, análises fílmicas e pesquisa documental no acervo pessoal de Bengell, preservado na Cinemateca Brasileira, na coleção Brasil: Nunca Mais, alocada na Unicamp, e no Arquivo Nacional. Contando com o apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Gordya se baseou em literaturas teóricas sobre cinema e gênero, estudos de autobiografia e trabalhos acadêmicos sobre a história da cinematografia brasileira.

Atriz e diretora
Uma seleção diversificada de trabalhos como atriz e diretora serviu de base para a análise fílmica. Gordya examinou, por exemplo, sua estreia em O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga; investigou detalhes da gravação de sua cena mais icônica, quando surge nua do mar no filme Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra; e também sua temporada europeia, da qual fazem parte as presenças nos westerns spaghetti Os Cruéis (1967), de Sergio Corbucci, e Fedra West (1968), de Joaquín Luis Romero Marchent. De seu legado como diretora, a pesquisadora escolheu filmes de seu projeto “Um cinema por e para mulheres”, do qual fazem parte o curta-metragem Maria Gladys: uma atriz brasileira (1978) e o longa-metragem Eternamente Pagu (1988).
O Guarani (1996), último longa-metragem de ficção produzido e dirigido por Bengell, não poderia ficar de fora. O filme se tornou notório pelas polêmicas que envolveram sua produção, sobretudo em relação à sua prestação de contas, o que levou à investigação da artista pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e apropriação indébita. Bengell foi condenada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) a devolver recursos públicos devido a irregularidades na produção da obra. “Minha pesquisa não teve por intuito explicar ou provar se Norma Bengell foi culpada ou inocente da acusação de desvio de verbas, mas mapear os acontecimentos e explicar a complexidade envolvida no episódio”, esclarece a pesquisadora.
A falta de experiência de Bengell em gerenciar produções cinematográficas contribuiu para o surgimento dos problemas enfrentados com a Justiça, avalia Gordya, lembrando que a artista teve um papel muito importante na mobilização e na aprovação da Lei do Audiovisual e da Lei Rouanet. Outros fatores pesaram para que a situação se instaurasse e saísse do controle, complementa, citando o fechamento da estatal Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), em 1990, os altos índices de inflação da época e uma legislação incipiente para o setor da cultura.

Multifacetada
Mais do que recuperar as personagens interpretadas por Bengell no cinema ou analisar seu trabalho como diretora, a pesquisadora afirma ter procurado, na tese, contemplar suas diversas facetas. Ela também examina as relações e as influências políticas, sociais e culturais que contribuíram para sua constituição. A influência de sua vivência com ativistas feministas em Paris, inclusive com Simone de Beauvoir, tanto na sua formação intelectual como na sua obra como cineasta, é um dos exemplos destacados pela autora. “Um dos principais achados da pesquisa são os manifestos feministas escritos por Norma, que nunca foram publicados.”
Adotando uma perspectiva de gênero, a tese revela como, apesar de recusar o papel destinado às mulheres de sua geração, Bengell foi constantemente objetificada, e que, mesmo avessa a definições, passou a vida tentando fugir dos rótulos que lhe foram impostos, tais como “vedetinha”, “Brigitte Bardot brasileira”, “musa”, “lésbica”, “feminista”, “símbolo sexual” e “atriz difícil”. No entanto, conforme observa Gordya, o estrelato e a personalidade combativa não conseguiram blindá-la contra o machismo, a misoginia e a violência de gênero — sobretudo, frisa, quando os atos foram praticados por aqueles em quem mais confiava: seu padrinho, um pretendente a noivo e o ator francês e namorado Alain Delon, um dos homens mais desejados do mundo à época. “Nunca odiei nenhum dos namorados que tive, com exceção de Alain Delon”, revela em sua autobiografia.
Gordya conclui que a vida da artista se funde não apenas com o cinema, mas também com a história recente do país. É o que ela mostra, por exemplo, ao recuperar o episódio do sequestro sofrido por Bengell na ditadura civil-militar (1964-1985), cometido por agentes do governo. A pesquisadora recorreu a diversos materiais para examinar o incidente sob diferentes ângulos, concluindo que a dimensão de sua fama e o alvoroço causado pela classe artística tiveram importância decisiva para o tratamento recebido no cativeiro, já que não sofreu tortura, e para sua soltura.
Segundo Beleli, a pesquisa consegue mostrar as diversas possibilidades existentes de feminilidades a partir da experiência vivida pela atriz pesquisada. “Em vez de encapsular Norma Bengell, Andressa contempla suas ambiguidades, e por isso a perspectiva de gênero é tão importante”, ressalta a orientadora.
Matéria: Mariana Garcia | Jornal da Unicamp





