Dias de nostalgia (e idealização) de um passado perfeito
De como a direita e a esquerda possuem mais coisas em comum do que imagina a vã filosofia de vosmecês
Pesquisar e escrever sobre história é interessantíssimo, muito prazeroso, para quem se locupleta – (forma culta, mas pedante, de dizer que “preenche um vazio interior”) com o passado, sente satisfação em conhecer e aprofundar-se nas histórias e feitos dos nossos antepassados. Mais que um entretenimento, pode ser uma maneira de respeitar sua herança, de trazer o que há de bom naquilo que fizeram, pensaram, defenderam, viveram, e quem sabe, aprender um pouco, ou bastante, com seus erros e acertos.
Para muitos, pode até tornar-se uma forma de cultuá-los, e nisso acabam caindo numa idolotria: tanto amor pelos antepassados (os da nossa família, e também os dos outros, mas afinal, recuando-se no passado distante, constatamos que somos todos parentes) corre o risco de tornar-se uma religião pessoal, doméstica, ou social, de grupinhos e grupões, que hipervaloriza o passado a ponto de só enxergarem qualidades nos tempos idos. Amor, ou melhor, paixão desregrada, que releva defeitos, que canoniza a vida pretérita. Torna o respeito não uma postura amorosa – pois o amor respeita os defeitos, mesmo não os legitimando, enquanto enaltece e imita as virtudes – mas exagerada, irrefletida, irracional.
É a tal da idealização do passado. Chamarei seus cultores de idealistas hiperotimistas do passado – geralmente situados à direita do espectro político, mas, como veremos adiante, não só.
Assim, vibrando nesta nota altíssima, dirão que Dom Pedro II foi o melhor governante que o Brasil já teve; outros dirão que foi Getulio Vargas. E que antigamente o gosto da carne e das frutas era melhor, eram mais saborosos, porque os “antigos” não usavam fertilizantes químicos, nem agrotóxicos, nem hormônios para engordar animais de abate. Que o mundo, ou ao menos, o Brasil, era mais seguro, que não havia tanta maldade, tanta falsidade, que o dinheiro valia mais e que sim, nossos avós eram mais felizes que nós somos hoje, mesmo com muito menos tecnologias avançadas, ou justamente por não as possuírem.
Nós sabemos, pela prática, que nenhuma crença, como estas ou de outros feitios, resume-se a um mero exercício de declarações ou entretenimento com histórias do passado. A idealização do passado pode levar a pensamentos e ações no presente que levem à defesa de ações, pensamentos e políticas que podem ser ofensivos ou inofensivas, curiosas ou alarmantes, vexatórias (para quem as proclama) ou até perigosas. Podem causar “vergonha alheia” ou acender um alarme de perigo social.
Idealizar o passado, curiosamente, nos foi ensinado pelos próprios ancestrais: é curiosíssimo que Hesíodo, lá no distante século 8 antes de Cristo, um dos pais da cultura grega ao lado de Homero, já suspirava por uma Era de Ouro, no poema “Os Trabalhos e os Dias”. Uma época em que havia paz, comida à vontade, sem que se precisasse trabalhar, e não havia nem velhice, nem qualquer tipo de sofrimento. A Era de Ouro estava situada, é claro, em um passado distante. No momento em que Hesíodo escrevia, a Era de Ouro já era.
A história bíblica de Adão e Eva, contada no livro do Gênesis, condensa essa nostalgia do passado perfeito na época em que viveram no Jardim do Éden, onde tudo era bom, não existia o mal e ambos passeavam ao lado de Deus nos jardins do paraíso. O fim da estadia do ser humano nesta Terra sem Males marcava, para os hebreus, a Queda (queda do ser humano da condição divina na qual estava, para uma condição menor, a humana, por definição, imperfeita, repleta de limitações e possível de desobediência a Deus, o pecado), e era o início da própria História como eles a conheciam.
Nem vou citar outros exemplos, pois desejar ter vivido num suposto passado melhor do que hoje é mais velho do que andar para a frente – expressão tão velha que é do tempo do Zagaia. O que hoje é o nosso passado suspira e idealiza o tempo que já foi desde o começo da espécie humana. Muitos detratores vão dizer mesmo que as religiões são uma nostalgia dos tempos perfeitos, antes da Queda – como mostrado acima com o Jardim do Éden – e que projetam essa felicidade primordial para um futuro onde cada um retorna a Deus – o tempo perfeito de felicidade plena, encarnado no Ser Criador, para o qual toda alma volta.
Isso, é claro, para quem acredita em Deus; os que não acreditam, enxergam em Deus e tudo o que gira em torno dele como ferramentas de manipulação, de opressão e exploração. Para quem não acredita no passado como um repositório de sabedoria que possa ser consultado, em busca de exemplos de conduta ou explicações da vida e do mundo como os conhecemos, Deus está morto, ou melhor, Deus nunca nasceu, nem existiu, o que existiu sempre foi um personagem de ficção, adorados nos altares, vigiando a todos como um Big Brother universal, com mandamentos moralistas, castradores da Vontade e da verdadeira força do Homem (como diria Niesztche). Somente os donos do poder estariam livres d’Ele, servindo-se do personagem para continuar vivendo no bem-bom e explorando os pobres.
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Para as pessoas que têm esta mentalidade, pesquisar, pensar e escrever sobre o passado é uma forma de sofrimento. Pois o passado é o território onde começaram as injustiças que ainda hoje pipocam por todos os lados: o lugar onde nasceram o “capetalismo”, a religião (“ópio do povo”), a escravidão, a opressão de todas as minorias, enfim, a “exploração do Homem pelo Homem”, como pregou Marx. Os mais moderados desta tendência enxergam em alguns ancestrais pessoas a terem os exemplos de vida imitados, pois lutaram contra as opressões de todos os tamanhos, credos e nacionalidades; e o que há de bom nesta mentalidade é que os resultados de seus pensamentos equilibram os idealistas hiperotimistas do passado, pois apontam defeitos e injustiças que aqueles querem ignorar, ou esconder.
Aqui também há os mais extremados: para estes, não há motivo algum, zero, para celebrar ou ver algo de bom em qualquer coisa que aconteceu antes de hoje. No passado, tudo o que é de ruim, de mal, nasceu, cresceu e tornou-se, é claro, um grande monstrengo, um Leviatã com muitas cabeças. Falta alguém dizer que o ser humano nem devia ter existido, e se a evolução fosse mais sábia, teria criado uma versão inteligente das tartarugas ou de um bicho tão pacífico quanto. (Engano meu: não falta mais, quem diz “gosto mais de bicho do que gente” e “o ser humano é uma praga sobre a Terra” já fala isto em voz alta).
Vou chamá-los esses cultores do passado como algo negativo de idealistas hiperpessimistas do passado.
Não só para os hiperpessimistas, mas para todos que, geralmente, estão situados à esquerda do espectro político, há uma boa pitada de de masoquismo quando estudam História: se escrevem para os outros os lerem, pode ser uma forma velada, algumas vezes até declarada, de impingir sadismo aos seus leitores.
A ideia comum é que estudar História é sofrido, mas justificado pelo desejo de “não se repetir os erros do passado”.
Certamente, uma frase que não é exclusiva dos pensadores de esquerda. Mas que é equilibrada por aqueles que pensam que nenhuma geração humana aprendeu com os equívocos das gerações anteriores. O que, convenhamos, também é um tanto exagerado.
É claro que mesmo entre aqueles que veem o passado como todo ruim, há os que idealizam o passado, não um passado histórico, mas um hipotético tempo e lugar onde os seres humanos viviam em harmonia, sem propriedade privada – para eles, que são materialistas, esta é a fonte de todos os males sobre a Terra. (Imagino como teria sido, para estes sociólogos da Utopia, uma tribo inteira passar fome: mesmo com propriedades em comum, não havia comida, e aí, como se resolvia? Todos se davam as mãos e se alimentavam de Amor fraterno?) Como diz Rousseau, o tempo feliz onde ninguém tinha tido a ideia de cercar um pedaço de terra e dizer “isto é meu!”. Este acontecimento, para Rousseau, é a Queda do ser humano numa condição onde começa a haver a “exploração do Homem pelo Homem”. É claro que ele não expressou a ideia com a frase, famosa pois dita por Marx; mas ideia geral, no texto em que a defendeu, “Discurso sobre a origem da desigualdade”, é esta.
Essa época idílica, que Marx chama de “comunismo primitivo”, onde corria o leite e o mel, onde tudo era de todos e ninguém de ninguém, é a versão não só marxista, mas de várias correntes de pensamento de esquerda.
E aí se tocam as nostalgias de hebreus antigos e judeus, gregos pré-clássicos, clássicos e helenistas, cristãos e as de rousseaunianos, ambientalistas, defensores das minorias atuais e esquerdistas em geral, especialmente marxistas: todos aqueles que creem na inocência original do ser humano, e na Era de Ouro antes da História, compartilham de uma visão idealizada onde não havia tecnologia, cultura ou ciência desenvolvidas como passou a haver a partir das culturas urbanas, a partir da Agricultura. Sentem nostalgia de uma época onde havia pureza, inocência, anterior a uma Queda, que ambas as correntes de pensamento definem.
(Esta é a ideia geradora do conceito de Utopia, o “não-lugar” de Thomas More. Mas irei tratar disso em outro artigo).
Mas a diferença entre idealistas otimistas e idealistas pessimistas é que para os otimistas, o Homem era Divino antes da Queda. E por isso, tornou Humano, o que para eles é um problema, não um avanço – e só por isso desenvolveram culturas, religiões, ciência, tecnologia – tudo o que é humano.
Para os pessimistas, a Idade de Ouro foi quando o Homem era, na verdade, menos que Humano, um Animal. A Queda ocorreu quando ele se tornou humano, pois teria sofrido essa transformação quando teve a ideia – e a realizou, de tomar pedaços do mundo para si, e com isso, começou a explorar outros seres humanos. E então, passou a desenvolver culturas, religiões, ciência, tecnologia – tudo o que é humano.
Como a constatação dos seres humanos do presente é de que esta Era de Ouro se foi há muito, ambas as correntes ideológicas (com algumas poucas vertentes de cada uma sendo exceções) projetam a felicidade plena, pessoal ou coletiva, para o futuro – uma, no Paraíso após a morte, onde estarão junto com Deus; e a outra, no Paraíso comunista, da sociedade sem classes, sem propriedade privada e sem redes sociais, na qual os seres humanos compartilharão todos os bens e recursos. Ambas as mentalidades, grupos e ideologias, projetando no futuro, vivendo para isso, uma Era de Ouro, com nostalgia e esperança, suspirando por uma época perfeita, uma Terra sem Males e na qual não haverá mais História.
“Poderá viver para sempre no paraíso da Terra”, um livro das Testemunhas de Jeová, denominação cristã protestante. Curiosa convergência entre conceitos de uma corrente cristã e de uma corrente de esquerda, a marxista: a frase poderia ser utilizada, sem nenhuma alteração, para descrever o Paraíso socialista.




