
Uma planta de pouco mais de um metro e flores brancas, encontrada em uma área remanescente de Mata Atlântica no Litoral Norte de São Paulo, revelou-se uma surpresa para os pesquisadores. Trata-se de uma espécie até então desconhecida pela ciência, que amplia o conhecimento sobre a biodiversidade de um dos biomas brasileiros que mais sofreram com a ocupação humana e a perda de cobertura vegetal.
Batizada de Conchocarpus piranii, a planta foi encontrada inicialmente em Ubatuba e, depois, em Caraguatatuba. A espécie pertence à família Rutaceae, a mesma das laranjas e dos limões, e foi descrita pela equipe de pesquisadores do Laboratório de Sistemática de Plantas, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, e de outras instituições brasileiras e da Dinamarca. O estudo acaba de ser publicado na revista científica Phytotaxa.
A descoberta ganha relevância justamente pelo local onde ocorreu. Lembra o professor Milton Groppo, coordenador do laboratório responsável pelo achado, que a Mata Atlântica é um bioma que foi intensamente modificado e fragmentado ao longo da história, principalmente pela ocupação das áreas costeiras e pela expansão das atividades humanas. Embora existam apenas “parcelas de sua cobertura original, esses remanescentes ainda abrigam uma enorme diversidade de espécies, muitas delas endêmicas e algumas ainda desconhecidas pela ciência”, enfatiza.
Para os pesquisadores, encontrar uma nova espécie em uma região do Estado de São Paulo, alvo de inúmeras expedições e levantamentos botânicos, mostra que o conhecimento sobre a biodiversidade está longe de estar completo. “Pensamos que já temos tudo catalogado, mas encontrar uma nova espécie de planta no litoral paulista significa aumentar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e fortalecer os argumentos para a preservação da Mata Atlântica”, afirma Groppo.
A história deste achado, conta o professor, começou em 2014, quando a equipe esteve no Parque Estadual da Serra do Mar, no Núcleo Picinguaba, em Ubatuba. Os pesquisadores percorriam uma trilha próxima à Casa da Farinha em busca de plantas de outros grupos quando encontraram arbustos que chamaram a atenção pelas flores brancas.
Inicialmente, os pesquisadores imaginaram que a planta pudesse ocorrer apenas naquele local mas, quase uma década mais tarde, em 2023, o biólogo Marcelo Dias Miranda “fotografou indivíduos de uma segunda população, em Caraguatatuba”, continua Groppo. Essas novas coletas foram encaminhadas à USP de Ribeirão Preto e, a partir da análise dos exemplares, os pesquisadores tiveram certeza de que se tratava de uma espécie nova.


O que significa descobrir uma espécie nova?
A identificação de uma espécie nova exige mais do que encontrar uma planta com aparência diferente. É necessário comparar cuidadosamente os exemplares com outros já conhecidos e analisar um conjunto de características que permita estabelecer sua identidade. No caso de Conchocarpus piranii, o grupo comparou os indivíduos encontrados no litoral paulista com outros do gênero Conchocarpus, que reúne cerca de 50 espécies.
Informa o professor Groppo que encontraram mais semelhanças com as espécies C. bellus, C. cuneifolius e C. macrophyllus, todas arbustos eretos, pouco ramificados ou sem ramificações, com grandes folhas concentradas na ponta dos ramos e inflorescências (agrupamento de flores) acompanhadas por brácteas (folhas que protegem a flor enquanto ela cresce) semelhantes a folhas.
Apesar dessas similaridades, os pesquisadores identificaram na C. piranii características próprias; entre elas, a estrutura do ovário, que não apresenta a depressão central encontrada nas espécies mais próximas, e a posição terminal do estilete (haste que liga a parte cima, o estigma, ao ovário, que fica na parte de baixo da flor). O estudo realizou ainda análises de DNA para investigar as relações evolutivas entre as espécies do gênero, reuniu informações sobre anatomia foliar e floral, grãos de pólen e distribuição geográfica da nova espécie.

Biodiversidade ainda desconhecida
Groppo ressalta o fato de uma nova espécie ter sido encontrada em uma área de Mata Atlântica tão conhecida ser um lembrete da dimensão da biodiversidade brasileira. “Mesmo com tantas coletas feitas, a natureza sempre nos surpreende”, afirma. No caso de Conchocarpus piranii, a surpresa é ainda maior porque se trata de uma planta relativamente pequena, com indivíduos que chegam a cerca de 1,5 metro de altura.
Segundo o professor, essa descoberta evidencia que os remanescentes de Mata Atlântica não são apenas fragmentos de uma floresta que existiu no passado. “Eles continuam sendo reservatórios de diversidade biológica e podem abrigar organismos que ainda não foram reconhecidos pela ciência.”
Ele adianta que conhecer essas espécies é fundamental também para a conservação, pois uma planta recém-descoberta pode ter distribuição restrita e depender de condições ambientais específicas para sobreviver. “Quando seu hábitat é destruído ou alterado, portanto, a espécie pode desaparecer antes mesmo que a ciência consiga compreender plenamente seu papel no ecossistema”, adverte.
É por isso que, segundo os pesquisadores, cada nova espécie identificada reforça a necessidade de estudar e proteger os remanescentes da Mata Atlântica. “Descobrir uma planta que sempre esteve ali, mas que a ciência ainda não conhecia, é também descobrir mais uma razão para preservar a floresta que restou”, afirma.
Homenagem ao botânico brasileiro José Rubens Pirani
O nome piranii é uma homenagem ao professor José Rubens Pirani, botânico e docente do Instituto de Biociências (IB) da USP. A escolha tem um significado especial para Groppo, afinal, Pirani foi seu orientador durante quase toda sua formação acadêmica, da iniciação científica ao doutorado.
Especialista na família Rutaceae e em biogeografia, Pirani contribuiu de forma significativa para o conhecimento da sistemática de espécies neotropicais desse grupo de plantas. Também teve papel importante na formação de gerações de taxonomistas de plantas no Brasil. Assim, lembra o pesquisador, a denominação da nova espécie reconhece a trajetória científica e a contribuição de Pirani para a formação de pesquisadores e para o avanço da botânica brasileira.
A descrição de Conchocarpus piranii acrescenta um novo nome à diversidade conhecida da Mata Atlântica, mas seu significado vai além da taxonomia. A descoberta mostra que, mesmo depois de séculos de ocupação e intensa degradação, o bioma ainda guarda espécies desconhecidas. Revelá-las é ampliar o conhecimento sobre a floresta e, ao mesmo tempo, reforçar a importância de conservar os remanescentes que sobreviveram.
O estudo teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Matéria: Rita Stella | Jornal da USP.





