
A EVAonline é uma plataforma web de código aberto, que não requer instalação, focada na estimativa da evapotranspiração de referência (ET₀) em escala global. A ferramenta tem um impacto direto na engenharia de irrigação e no planejamento agrícola, permitindo que produtores e pesquisadores tomem decisões mais precisas sobre o uso da água — um recurso cada vez mais crítico, como destaca Ângela Silviane Moura Cunha Soares, que desenvolveu a ferramenta durante seu mestrado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.
“O trabalho nasceu de uma parceria entre a Esalq e o Centro de Inteligência Artificial (C4AI), iniciativa da USP com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da IBM Brasil”, informa Ângela, acrescentando que iniciou a pesquisa em julho de 2021, finalizando-a agora em 2026. “O ponto de partida foi um problema concreto: a evapotranspiração de referência (ET₀), que mede, de forma simplificada, a ‘sede’ da atmosfera e é essencial para calcular quanto de água uma lavoura precisa, mas que depende de dados meteorológicos que muitas vezes não existem em regiões de fronteira agrícola”, explica. Segundo ela, as ferramentas disponíveis costumavam depender de uma única fonte de dados, exigir conhecimento técnico de programação ou fazer o usuário baixar e tratar dados climáticos manualmente”, revela.
A pesquisa consistiu em desenvolver uma plataforma que superasse esses gargalos para em seguida validá-la rigorosamente: “Testamos a EVAonline contra um conjunto de dados de referência brasileiro (BR-DWGD) em 17 localidades da região do Matopiba, somando mais de 186 mil observações diárias ao longo de 30 anos (1991–2020)”, ressalta. O objetivo central, segundo a autora, é democratizar o acesso a estimativas confiáveis de evapotranspiração, sem exigir uma estação meteorológica local. “Isso é especialmente importante em fronteiras agrícolas como o Matopiba, onde a rede de estações físicas é escassa e essa lacuna se torna um obstáculo para o manejo da irrigação e o planejamento dos recursos hídricos”, afirma.
Ela explica que, em vez de depender de sensores no campo, a plataforma combina dados de seis fontes públicas de clima (como Nasa Power e Open-Meteo, entre outras) por meio de uma técnica de fusão em duas etapas, que inclui um filtro adaptativo ancorado em 30 anos de normais climatológicas, abrangendo 17 cidades brasileiras, 16 na região do Matopiba (que abrange áreas dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), além de Piracicaba, em São Paulo. “Na prática, essa fusão funciona melhor do que qualquer fonte isolada: reduziu o erro médio pela metade e praticamente eliminou o viés sistemático (queda de cerca de 95%) em relação aos produtos individuais, funcionando como uma ‘estação virtual’ onde não há estação real”, informa. “É uma ferramenta de apoio à decisão para irrigação e gestão da água, e todo o código é aberto e transparente”, reitera.
Como funciona
Segundo a pesquisadora, o uso é simples: a pessoa seleciona um ponto no mapa (ou usa a geolocalização); escolhe o modo de consulta histórico (séries longas), recente (últimos dias) ou previsão (próximos dias); e recebe as estimativas de ET₀ por e-mail, em formato Excel, CSV, JPG ou PNG, prontas para uso. A interface é bilíngue (português e inglês), traz visualização de déficit hídrico acumulado e não exige nenhum conhecimento de programação nem gerenciamento de chaves de acesso. A documentação completa está neste link, e o código-fonte é aberto (licença AGPL-3.0), disponível no GitHub, ou seja, qualquer pesquisador ou produtor pode auditar, reutilizar e contribuir com o código.
A pesquisa valida o uso do sistema tanto em escala global quanto em polos agrícolas cruciais para o Brasil, e acaba de ganhar reconhecimento internacional com um artigo científico publicado no periódico internacional Environmental Modelling & Software (Elsevier), disponível no site.
Acesse a plataforma EVAonline aqui:
Matéria: Claudia Costa | Jornal da USP.




