Instituto Butantan recebe autorização para a produção de vacina contra a chikungunya
Esper Kallás e Cássia Mendes Correa repercutem a importância da vacina e detalham as dificuldades no enfrentamento da doença

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, no dia 4 de maio a produção nacional da vacina contra a chikungunya pelo Instituto Butantan. A vacina já havia sido aprovada pela agência reguladora em abril de 2025, mas ainda era produzida pela Valneva, empresa franco-austríaca.
Segundo Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan e professor titular do Departamento de Infectologia e Medicina Tropical da Faculdade de Medicina, fazer o desenvolvimento e a produção da Butanta-Chik, como foi nomeada a vacina contra chikungunya, no Butantan significa torná-la acessível para os países em desenvolvimento, especialmente o Sul Global. “Uma das principais missões do Instituto Butantan é levar ao Sistema Único de Saúde (SUS) benefícios e intervenções através de produtos que fazemos para a saúde pública brasileira.”
Desenvolvimento da vacina
O professor explica que Instituto Butantan ajudou a conduzir no Brasil um estudo fase três para avaliar a vacina em adolescentes de 12 a 17 anos. Esse estudo, além de ser o primeiro nessa faixa etária, também foi o primeiro estudo com essa vacina realizado em um país endêmico para chikungunya, onde há circulação do vírus da moléstia.
“O estudo foi um sucesso. Acrescentou de forma importante ao corpo de informações que já vinha sendo produzido, e mostramos que a vacina tem uma eficácia na produção de defesa contra o vírus que ultrapassa 98%, tanto em adultos quanto em adolescentes. O objetivo é levar proteção às pessoas que vivem em regiões onde há transmissão. Onde há cadeia de transmissão, cabe discutirmos a implementação da vacina”, destacou o professor.
A estratégia de implementação é discutida pelo Instituto Butantan junto ao Ministério da Saúde, principal interessado, mas também com Secretarias de Saúde e municípios que podem estar enfrentando a doença. “O Ministério da Saúde aceitou conduzir com o Butantan uma investigação de implementação da vacina num programa piloto do Ministério em cidades selecionadas nos Estados de Sergipe, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul. O número de pessoas vacinadas muda conforme o uso nesses locais, que mostram o comportamento do imunizante em regiões que têm potencial circulação do vírus da chikungunya.”
“Já são mais de 30 mil pessoas vacinadas. Neste momento, o Butantan já pode começar a planejar sua produção para aumentar a quantidade de vacinas disponíveis no segundo semestre de 2026”
Além da cobertura da vacina nos estudos de fase 3, em que 99% das pessoas ficaram protegidas com dose única, os resultados também mostram uma durabilidade da vacina, com manutenção dos efeitos de proteção após dois anos de aplicação. “Outros produtos que utilizam vírus atenuado, como a vacina da febre amarela, que aplicamos apenas uma dose na vida, e a vacina da dengue, também desenvolvida pelo Instituto Butantan, mostram uma proteção duradoura”, defendeu Kallás.
Apesar de um tempo menor de observação do comportamento da defesa induzida pela vacina da chikungunya, indícios apontam um comportamento semelhante a essas outras vacinas feitas com vírus enfraquecidos ou atenuados, com uma proteção longa. “Isso traz a possibilidade do imunizante ser uma arma poderosíssima no enfrentamento da transmissão desse vírus. Vacinar uma determinada população pode significar proteção definitiva contra a transmissão da chikungunya, que é uma doença terrível em algumas regiões, inclusive do Brasil”, enfatizou o professor.
Sintomas da doença
A chikungunya é uma das diferentes doenças que temos no Brasil que são transmitidas por picadas de insetos. Maria Cássia Corrêa, professora associada do Departamento de Infectologia e Moléstias Tropicais e chefe do Laboratório de Virologia do Instituto de Medicina Tropical (LIM 52/IMT) da Faculdade de Medicina, explica a chikungunya, que é relativamente recente no Brasil.
“Existe uma tríade de arboviroses que são fundamentais no nosso país, em termos de transmissão, acometimento e saúde: dengue, zika e chikungunya. O primeiro caso reportado é de 2014, e de lá para cá, mais de 1 milhão de pessoas foram acometidas”
A transmissão é feita pelos mesmos insetos causadores da dengue e zika, o Aedes aegypti e o Aedes albopictus, que picam uma pessoa infectada por esse vírus, desenvolvem o vírus e passam a transmitir a doença para pessoas saudáveis através das picadas. Esse vírus se multiplica e é novamente inoculado em outro hospedeiro humano, que também passará a contaminar outros insetos, que consolida um ciclo na natureza homem-inseto.
“O mundo de hoje está pequeno. A facilidade de deslocamento das pessoas no globo é enorme: tendo inseto vetor, tendo humano doente, essa doença pode ser transmitida praticamente em todas as regiões do mundo”
Hoje, mais de 100 países têm essa infecção, sendo as Américas e o Brasil os lugares mais acometidos. Segundo a professora, cerca de 75% das pessoas que forem picadas desenvolvem sintomas em um período curto, de três a cinco dias. Os sintomas que caracterizam a chikungunya são semelhantes ao de outras arboviroses, como dengue e zika: febre, dores nas articulações, manchas vermelhas na pele e mal-estar, com maior gravidade em crianças pequenas e idosos com outras comorbidades.
“Do ponto de vista clínico, essas doenças se confundem muito. Na fase aguda, apenas pelos sintomas, é impossível distinguir uma coisa da outra, é necessário fazer um exame diagnóstico”, explica Cássia. Um outro enorme desafio para a saúde pública é oferecer capacidade diagnóstica para regiões acometidas, segundo a professora: “A oferta de testes diagnósticos via Sistema Único de Saúde não é contínua e não cobre todas as doenças desse grupo de arboviroses. Muitas vezes, num centro importante com quadro febril agudo, se não contarmos com a medicina complementar, seja com o convênio médico ou outra forma de realizar o exame, não consigo saber se tenho dengue ou chikungunya”.
Para Cássia, esse entendimento é fundamental para o tratamento. Entender como será o tratamento, quais são os riscos, se é ou não transmissível, entre outras questões. “Do ponto de vista de saúde pública, eu preciso saber o que está acontecendo na comunidade para preparar para o atendimento, para estabelecer condutas de tratamento. Se é zika, qual o risco para gestantes, se não é, o que faço? Essas medidas dependem de uma identificação rápida do diagnóstico, e essa abordagem muitas vezes não está disponível via serviço público.”
Em uma localidade em que há um surto de chikungunya, como no município de Dourados, no Mato Grosso, a professora explica que os testes diagnósticos, quando disponíveis, param de ser realizados em virtude do grande número de casos, o que considera um erro. “Sempre defendo uma política sentinela. Independentemente do que está acontecendo, preciso testar diferentes doenças em determinados postos para saber de fato o que está acontecendo. Isso é extremamente importante para termos informações em tempo real de diferentes lugares afetados.”
Enfrentamento
As arboviroses exigem um tipo de abordagem que o serviço público muitas vezes não pode oferecer, segundo Cássia. “Medidas ambientais, controle do vetor, controle de desmatamento, orientação da população, são todas medidas importantes que precisamos desenvolver e trabalhar. Enquanto não tivermos uma política de ocupação territorial bem pensada, em todos os aspectos, e se continuarmos estabelecendo a relação homem-ambiente de forma desgovernada, esses problemas só vão se agravar.”
A vacina ainda conta com uma produção modesta, que não cobre toda a população exposta e vulnerável à chikungunya, explica a professora. “Mais de 100 países no mundo, praticamente todos os continentes. É uma população enorme para uma produção vacinal ainda muito modesta.” Mesmo assim, Cássia destaca que a vacina é um enorme avanço e, com um aumento da capacidade de produção e com novos estudos que possam avaliar sua segurança em outras faixas etárias e grupos, pode beneficiar principalmente as populações mais vulneráveis.
“A vacina é um instrumento democrático: estando dentro do nosso organograma de atendimento do SUS, ela pode ser distribuída para todos a custo zero”
Para Kallás, a vacina é uma das intervenções que têm maior impacto sobre a melhoria da qualidade de vida das populações em todo o mundo, sendo também um grande redutor de desigualdades. “Não importa de qual classe social, a região que a pessoa vive, se ela recebe uma ou mais doses de uma vacina ela fica protegida independentemente do grupo em que esteja enquadrada dentro da sociedade. Em uma avaliação de investimento e retorno de investimento em saúde populacional, as vacinas estão no topo da pirâmide.”
O professor destacou a atuação do Instituto Butantan na produção de acesso à população brasileira, com a criação de caminhos para que novos produtos sejam desenvolvidos dentro do instituto, por outras instituições brasileiras ou até por instituições de fora do País. “Conseguir incorporar tecnologias em um ambiente suficientemente maduro para o desenvolvimento de produtos, como vacinas, é o que fortalece a sociedade. Nesse sentido, creio que o Butantan preenche esse papel”, acrescentou Kallás.
Matéria: Davi Milani | Jornal da USP.





