Biólogos descrevem oito novas espécies de mariposas
Nomes escolhidos homenageiam cultura afro-brasileira; estudo complementa lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade
esquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp descreveram oito novas espécies de mariposas do gênero Eois Hübner, lepidópteros da família Geometridae que vivem especialmente em áreas tropicais das Américas. A pesquisa constatou que os insetos antes classificados como uma única espécie, a Eois russearia, na verdade formam um complexo de espécies diferentes. Por serem muito parecidas entre si, as características que as diferenciam acabavam passando despercebidas — fenômeno denominado na biologia como espécies crípticas.
As novas espécies descritas são: Eois iemanja, E. nanan, E. ibeji, E. oxumare, E. logunede, E. orumila, E. iroco e E. stantonae. A maioria dos nomes faz referência a orixás e elementos da cultura e da religiosidade afro-brasileira e à comunidade LGBT+. “É comum encontrarmos animais cujos nomes fazem referência a deuses gregos e romanos, ou a pesquisadores europeus e norte-americanos. Por que não colocarmos em bichos daqui nomes de pesquisadores brasileiros ou que homenageaiam a cultura afro-brasileira?”, questiona Simeão Moraes, pesquisador do IB e coordenador do Laboratório de Estudos de Mariposas (Lema). As descobertas foram publicadas na revista Scientific Reports, do grupo Nature.
Hiperdiversas
A pesquisa que resultou na descrição das novas espécies surgiu como um reflexo das lacunas existentes no conhecimento científico. O grupo investigava a relação entre diferentes organismos — entre plantas da família da pimenta-do-reino e os herbívoros que se alimentam dela e destes animais com os parasitas dos vegetais. Um desses herbívoros são as mariposas do gênero Eois, mas, para que os estudos fossem completos, havia a necessidade de identificar as espécies observadas.
Porém, no universo de lepidópteros estudados, as mariposas apresentam desvantagens de representatividade, mesmo sendo mais numerosas. “Trata-se de um grupo muito diverso. Se tomarmos como base dez animais coletados, por exemplo, nove serão mariposas e apenas um será borboleta. Porém, a representatividade entre os pesquisadores é inversamente proporcional: muita gente trabalha com borboletas, e poucos com mariposas”, detalha Moraes. Segundo o biólogo, outros fatores contribuem para essa falta de conhecimento sobre a biodiversidade das mariposas, como a multiplicidade de espécies em áreas tropicais, bem maior que em regiões como a Europa e a América do Norte, o fato de muitas terem o corpo pequeno; e o apelo estético de várias borboletas. “Elas [as borboletas] têm privilégios, brincamos que são uma ‘fofofauna’.”

O esforço para descrever as espécies começou com a análise do DNA dos exemplares coletados, método menos detalhista que a taxonomia tradicional, que descreve a anatomia das espécies, mas que fornece uma estimativa de variação genética capaz de indicar, de forma rápida, se há ou não espécies diferentes no grupo. O que pareciam ser indivíduos E. russearia, na verdade, compunham um complexo de espécies muito parecidas entre si. O fenômeno não é incomum entre grupos hiperdiversos como as mariposas. Apenas o gênero Eois tem hoje cerca de 250 espécies descritas, sendo que 240 são encontradas em zonas tropicais. “Esse complexo da E. russearia é pequeno, mas existem outros dentro do gênero Eois com potencial de até 50 espécies novas”, aponta Moraes.
Uma das características que chamaram a atenção para a possibilidade de serem espécies diferentes é a variação no padrão de cores entre as mariposas, indício que foi confirmado com a análise genética. Nesse sentido, Moraes defende o uso integrado de métodos para a descrição de novas espécies, pois cada um deles olha para um aspecto da espécie em questão.
“A análise genética mostrava que cada exemplar correspondia a uma linhagem evolutiva. Quando analisamos sua morfologia, encontramos evidências disso, mas que não eram conclusivas do ponto de vista prático. O que corroborou a hipótese foi o cruzamento dos dados das plantas hospedeiras com os dados genéticos”, detalha. Para o pesquisador, é importante que os estudos não fiquem concentrados apenas em métodos modernos, mas que levem a conclusões mais precisas usando métodos tradicionais, como a morfologia, por exemplo. “Os dados genômicos trazem algumas estimativas. Ao trabalharmos com a morfologia, transformamos as estimativas em realidade.”
Asas à pesquisa
Após a descrição das espécies, o cruzamento de dados possibilitou a identificação de questões que merecem novas pesquisas. Duas espécies, a E. ibeji e a E. logunede, apresentam uma distribuição curiosa pelo continente. O grupo das E. ibeji aparece na Amazônia equatoriana e na Mata Atlântica, o que reforça as evidências de que, apesar de hoje os dois biomas estarem separados, já estiveram conectados em períodos geológicos anteriores. Nesse caso, as mariposas foram separadas, não trocam mais DNA, mas ainda não houve tempo suficiente para que houvesse uma diferenciação de espécies. Da mesma forma, a E. logunede, encontrada no Pantanal, compartilha sequências genômicas com mariposas da Costa Rica.
A opção por nomeá-las em referência à cultura afro-brasileira e à comunidade LGBT+ foi uma iniciativa de transformar o novo conhecimento biológico em um instrumento de pluralidade cultural. “Por que não explorar isso? Por que não trazer essas informações que ajudam a quebrar preconceitos?”, defende Moraes. Uma das mariposas, a E. stantonae, é também uma homenagem, mas diferente: ela é dedicada à bióloga Mariana Stanton, que contribuía com as pesquisas do Lema e faleceu em 2024. Segundo Moraes, os estudos da pesquisadora dedicados às lagartas das mariposas abrem portas para novos estudos. “Não temos o costume de olhar para as lagartas, mas isso [o trabalho de Stanton] já mostra que elas são tão importantes quanto as mariposas adultas.”
Matéria: Felipe Mateus | Jornal da Unicamp.




