Sobre caixotes, CPUs e a nova fase do MASP
O novo prédio do MASP marca uma fase lamentável do museu, a da estética do coração vazio

Gosto da ideia do caixote como lugar de expressão de ideias. Em Londres, existe desde 1855 o costume de se levar um caixote para o Hyde Park e discursar sobre ele, discorrendo sobre ideias quais seja. O local específico do parque público onde ocorrem tais atos é o Speaker’s Corner (Recanto do Orador). Vale também levar uma cadeira: a ideia é que o orador que fala mal de algum problema nacional não toque o solo inglês, estando isento das leis e tradições britânicas, para poder criticá-las.
Não há garantia de que haja ouvintes, vai depender da habilidade do orador em atrair ouvintes. Ninguém acha o ato ruim, pelo contrário, é sinal saudável e tradicional de uma democracia, mesmo que os desavisados achem que não é possível uma monarquia ser democrática.
Recusei a mim mesmo a vaidade de escrever sobre política, há algum tempo, mas ninguém disse que subir no caixote implica que o orador falará de ideologias, ou sobre como resolver a vida da nação, defender BolsoLula ou LulaNaro, discorrer sobre quadrilhas, ops, partidos políticos.
Subo no caixote para falar de outro caixote. Disse que gosto do objeto como lugar de expressão, a exemplo do que se faz no Hyde Park, mas não na arquitetura. O novo edifício do MASP, chamado “Pietro Maria Bardi” em homenagem ao seu fundador, primeiro e longevo diretor, não merecia ter seu nome associado a tamanha monstruosidade. Que será demonstrada ao longo deste artigo.
Ao ser surpreendido pelo monstrengo da primeira vez que o vi pronto e acabado, tive receio de registrar minha impressão. Até pouco tempo pensei que seria mal compreendido, tendo assumido a incumbência de ser crítico e historiador da arte. Neste momento, estou me lixando, então falarei – com bastante atraso, admito – sobre uma das novidades menos bem-recebidas da arquitetura brasileira da atualidade.
Já falei o que penso sobre a arquitetura modernista, mundial e brasileira, quando conjurei Roger Scruton neste texto aqui, e também ao discorrer sobre o que o meu estômago sente ao contemplar a obra de Oscar Niemeyer, neste outro texto ali.
Agora, vamos para a melhor parte do show, na qual atiramos legumes no artista ruim. Que nos fez perder tempo, além do dinheiro do ingresso e dos legumes.
Estou falando de você mesmo, MASP. O seu ingresso é o mais caro dos museus em solo nacional. Vale a pena pagar R$85,00 (ingresso R$80,00 + taxa de bilheteria R$5,00) para visitar um dos melhores acervos do país (isso é inegável) da arte nacional e internacional?
Eis a questão: a maior parte do que está sendo exibido no MASP, atualmente, é arte contemporânea, emprestada de outros acervos, ou de artistas do mercado atual, sem relação alguma com o seu fantástico acervo, composto de obras de (quase) todas as épocas da arte e locais do mundo, que está cada vez mais acuado a um canto do segundo andar do prédio Lina Bo Bardi.
O imenso salão do segundo andar, projetado por Lina Bo Bardi para dar abrigar ao acervo permanente, ainda mantém a função, mas a exposição foi reformulada para dar destaque à arte produzida da década de 1950 para cá. Grandes mestres da pintura, desde os primitivos italianos até ícones como Bosch, Botticelli, Goya, Ingres, estão escondidos, no fundo do salão. Como se estivessem de castigo. Como se as pessoas fossem dar tanta atenção a um número enorme de obras de arte contemporânea tão boas (o que não é verdade), que não sobraria tempo, nem paciência, para ver arte mais antiga.
O MASP nasceu para ser um museu à altura das grandes instituições do mundo civilizado. O museu, mesmo hoje, não é nominalmente uma instituição de arte moderna, mas de fato, passou a sê-lo, timidamente e sem declará-lo, a partir da década de 1970, justamente quando o edifício de Lina Bo Bardi foi construído e inaugurado na av. Paulista. É, amigos e amigas, nem sempre o museu funcionou ali, quase metade de sua vida útil deu-se na sede da rua Sete de Abril, próxima à Biblioteca Mário Andrade (que não tem relação nenhuma com o MASP, é bom avisar).
Pietro Maria Bardi e sua esposa Lina eram colecionadores de arte. Além de terem comprado a maior parte do acervo de arte antiga (e moderna também) no saldão do fim da 2.a Guerra Mundial, na Europa, também aproveitaram para comprar obras para si e para revendê-las aqui no Brasil. Como é possível constatar na Casa de Vidro, projetada por Lina e moradia do casal até a morte de ambos, que está preservada com parte do mobiliário por eles adquirido ao longo da vida, os Bardi não desprezavam obras de arte antiga, eles as integravam às obras modernas que também colecionavam. Visitar a Casa de Vidro, é como ver uma linha do tempo da História da Arte. Hoje, é obrigatório visitar Masp e Casa de Vidro para termos uma visão mais completa dessa linha, pois o museu da avenida Paulista não exibe mais obras de 1300 para baixo; a casa dos Bardi tem vários exemplos de arte grega helenística e medieval para quem gosta se deleitar.
Qual é o problema da Arte Contemporânea ser a atual protagonista do Masp?, perguntarão vocês. E eu digo: basta visitar o segundo andar do Masp: nem precisa ver as exposições nos outros andares, ou no novo anexo. Contemple as obras do fundo do salão do “Acervo em Transformação” (bela maneira de dizer que se está jogando para escanteio a arte mais antiga). Mas reserve tempo para ver tudo, uma por uma. Você perceberá a diferença entre uma arte mais profunda, que fala através de símbolos da complexidade da experiência humana, do bem e do mal, da vida e da morte, da beleza e até da feiúra, mas com um olhar que deixa para o espectador fazer o seu julgamento. Que deixa para o espectador se espantar, se assombrar, se indignar, pensar, refletir.
Agora, de 1920 mais ou menos para a frente, você verá, pelo recorte feita pela equipe de curadores do Masp, até os dias atuais, uma outra mentalidade: a de induzir no espectador as opiniões do artistas como se fossem a única verdade possível. A compaixão, o olhar paciente de quem contempla o ser humano dos anos anteriores, dá lugar para rancor, ódio, enfrentamento, “sangue nos olhos”. Com muito mais feiúra, obras mal-acabadas, “arte povera” como recurso fácil de simbolização, pressa na idealização ou calcadas em um ideias clichês, um moralismo que condena o ser humano e só consegue ver nele um ser destruidor. Ou que vê grupos, etnias, ideologias, como facções em luta e grupos de apoio, que transmitem mensagens direcionadas.
Uma arte feia, agressiva, decerto disruptiva, mas que não tem um pingo de compaixão nem olhar para a beleza que não seja funcional, a serviço das ideias próprias do artista, e que ainda grita aos quatro ventos que é a única verdade, “doa a quem doer”.
Esta arte quer machucar e machuca. É desumana, porque despreza a humanidade. Uma arte que não tem coração.
A arquitetura contemporânea em um projeto de apagamento. O Masp é um museu privado, mantido por uma associação de pessoas notáveis na cultura do Brasil. Mas como funcionam as instituições do tipo no país (e várias delas no exterior também, é bom lembrar), a instituição só subsiste pois é mantida com doações de pessoas ricas, e descontos no Imposto de Renda de pessoas físicas e jurídicas amparados por leis como a Rouanet e Proac. Também boa parte da renda vem da bilheteria, das lojas de souvenires, do arrendamento do café-restaurante, da venda de cursos, e das mensalidades / anualidades das várias categorias de sócios do museu.
Mesmo com todas essas fontes de recursos, o museu vinha acumulando todos os anos (até cerca do ano de 2010) um déficit de R$ 1 milhão / ano, quando adquiriu, com dinheiro doado pela Vivo (uma ação para limpar sua má imagem, desde que era Telefônica?) um prédio em plena avenida Paulista, um dos metros quadrados mais caros do Brasil. O prédio mais antigo, projetado por Lina Bo Bardi, já fora construído com doações, com o terreno doado pela prefeitura, lá nos anos 1960. Sua construção teve recursos financeiros, mais uma vez, angariados por campanha feita por Assis Chateubriand, como quando da aquisição de seu acervo, entre a elite não só paulista, mas brasileira.
A expansão do Masp foi feita numa época sem uma figura de peso como Chateaubriand, mas mesmo assim, conseguiu a proeza de receber a doação de um dos edifícios bem na esquina da Paulista com a rua Prof. Otávio Mendes, do ladinho do prédio principal. A “vítima” (e vocês já entenderão porque uso este termo) foi o Edifício Dumont-Adams.
Vejam nesta sequência de fotos o antigo edifício, o esqueleto a que foi reduzido, e a construção que resultou após anos de idas e vindas na construção.
Poderia ser muito pior a vista que teríamos hoje se o projeto original de destruição de um patrimônio histórico tivesse sido efetivado: uma horrorosa torre que parecia mais uma caixa d’água desonjuntada encimaria o antigo prédio. De qualquer forma, o belo edifício de linhas neoclássicas teria sido descaracterizado.
Projetado pelo engenheiro Plínio de Oliveira Adams, no início da década de 1950, o prédio devia seu nome por Plínio ser casado com Adélia Santos-Dumont, irmã do pioneiro da aviação, Alberto Santos-Dumont.
O que me causa espanto é que, embora o Edifício Dumont-Adams não fosse legalmente patrimônio histórico tombado em qualquer nível (municipal, estadual ou federal), de fato o era. Tinha importância como um dos últimos exemplares da arquitetura urbana, representativo dos prédios de apartamentos da metade do século XX, na avenida Paulista. Precisava de um restauro e de uma reforma, para restabelecer seu antigo esplendor; no entanto, o novo projeto simplesmente passou a borracha na memória do antigo Edifício.
Como se ele nunca tivesse existido: não há uma placa, nenhuma menção do que era o local antes do novo anexo. Parece que o Edifício “Pietro Maria Bardi” simplesmente brotou do chão. Eu esperava muito mais de um museu, que pela sua natureza existe para preservar a história, a memória das coisas passadas.
Mas é compreensível se nos dermos conta do Zeitgeist, o tal de “espírito da época” de Hegel. Entendo a nova arquitetura ali demonstrada, que os paulistanos já estão chamando de “CPU de computador” e “caixa preta do Masp”, a partir de dois imperativos projetuais: uma, de eliminar qualquer ornamento por conta de baixar custos; e de seguir uma estética que remetesse (mesmo que remotamente) à arquitetura do prédio consagrado de Lina Bo Bardi.
O resultado não só é um imóvel que, visto da rua, poderia passar despercebido, servindo como sede de banco, repartição pública ou prédio do Metrô (há vários de estilo parecido por toda a cidade de São Paulo); a tela metálica, preta, que recobre todo o edifício, que no projeto original deveria ser adesivada com a marca do patrocinador, dá ao conjunto um aspecto de caixote burocrático, bancário. Como Paulo Freire gostava de enunciar: será que o Masp aderiu à estética da “educação bancária”?
Acrescente-se que esta tela metálica impede a visão dos dois últimos andares, que propõe um mirante, ou seja, que possibilite a visão de São Paulo do alto. Mas, só é possível ter uma visão borrada da paisagem, vista de longe, quando saímos do elevador ou da escada; quando nos aproximamos das grandes janelas, a vista se embaça completamente, pois a tela tampa a visão se estamos perto dela. Material mal-escolhido. Ou então a intenção era justamente causar esse efeito, o que demonstra má-fé para com o público.

Mas também o interior do edifício é tão inóspito quanto o Deserto do Atacama. Nada ali é convidativo; é um ambiente em que você se apressa para sair, para respirar ar verdadeiro, ter contato com árvores e o céu, mesmo em sua versão paulistana, cinzenta. Onde o olhar não irá se deleitar com anda, nem com as obras artísticas horrendas que ali se expõem (com uma ou outra exceção, como por exemplo, quando o Masp abre exposição de artistas impressionistas, cedendo de má-vontade uma concessão ao gosto do público). Saguão, cafeteria, loja, espaços de exposição, tudo o que havia no antigo Dumont-Adams foi destruído para servir o deus da Funcionalidade. Que sempre coloca o projeto acima do ser humano a quem devia servir.
Grande salões da mesma cor-de-burro-quando-foge das paredes frias e brutas das estações de metrô, sem cores a não ser o branco e o marrom cor de cocô do concreto. Uma paródia barata, pela exigência de baixo custo, da arquitetura brutalista.
Entendo também a neutralidade imposta pelo conceito de cubo branco e outras besteiras da moderna mentalidade curatorial. A ausência da decoração daria protagonismo às obras artísticas ali exibidas; como as exposições, porém, seguem uma linha de integrar o ambiente às obras, resulta num todo onde se somam obras feias de mãos dadas com arquitetura feia.
Ainda o prédio de Lina Bo Bardi guarda relação com uma mínima vontade de acolher o visitante, respeitando sua inteligência ao propor uma novidade na época, uma arquitetura com vocabulário diferente das tradicionais, neoclássica ou eclética. Mesmo não gostando do resultado final, dou a minha mão à palmatória ao verificar que Lina incluiu as grandes janelas em volta de seu edifício para que as obras dialogassem com a paisagem do arborizado Parque Trianon e da avenida Nove de Julho, além do vão livre, que preserva a paisagem, inclui um espelho d’água na parte inferior, e ainda usa a cor vermelha, vibrante, nos pilares de sustentação. Todos estes elementos querem dialogar com o visitante, querem proporcionar um espaço de convivência e diálogo com as pessoas e a cidade.
O novo prédio do Masp, não: ele nega a cidade de São Paulo, tanto a do passado, ao realizar o apagamento da memória do Edifício Dumont-Adams, quanto o presente, ao fechar as cortinas metálicas pretas em volta de si, negando qualquer conversa com o visitante ou com as pessoas que convivem com a estranha CPU gigante da Paulista. A renomeação dos dois edifícios também é uma descomunal piada de mau-gosto, psicanálise de boteco, apondo o nome de Lina ao prédio horizontal (suposta característica do feminino) e o de Pietro ao vertical (uma sugestão fálica, suposta característica do masculino).
O projeto de destruição e reforma do novo anexo, entretanto, exemplifica bem demais a mentalidade das atuais diretoria e equipe de curadores do Masp, que se fecham no moralismo politicamente correto de um mundo novo só deles, e não admite diálogos, somente certezas.












