Núcleo de Segurança Farmacêutica da Unicamp analisa fraudes em alimentos e eficácia de remédios
Projeto oferece suporte técnico para segurança alimentar e farmacêutica
O Núcleo de Segurança Farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp reúne três laboratórios de alta complexidade em áreas distintas – análise de alimentos, genética e toxicologia – para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios.
O projeto começou a tomar forma em 2019, quando os professores da FCF Rodrigo Catharino, Patricia Moriel e José Luiz da Costa participaram de um edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

“Ficamos sabendo do edital a duas horas do prazo de encerramento, foi uma correria”, lembra Moriel. “Foi sem pretensão. A gente achou que não ia dar certo, mas era uma grande oportunidade que juntava várias linhas diferentes, e decidimos tentar”.
“Foi o nosso compromisso com o projeto aprovado: gerar um novo senso de estabilidade e segurança. Não é apenas fazer análises pontuais, mas criar um conceito que ajude as pessoas a se sentirem realmente seguras em relação aos produtos farmacêuticos que utilizam no dia a dia”, afirma Costa, que também coordena o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), localizado no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. “O Núcleo, portanto, funciona como um ‘fiel da balança’, garantindo suporte técnico.”
Moriel, por sua vez, destaca que nem todos os pacientes respondem da mesma forma a um medicamento e que reações adversas ou falta de eficácia podem estar relacionadas a fatores genéticos. “O trabalho do laboratório consiste em analisar genes ligados ao metabolismo de fármacos”, explica.
Já no laboratório coordenado por Catharino destacam-se equipamentos de alta resolução, que permitem identificar, em poucos minutos, a composição química de amostras extremamente complexas. “Esse tipo de análise nos permite identificar adulterações, fraudes e também valorizar produtos de pequenos produtores, ganhando impacto social e comprovando a qualidade e a autenticidade do que a agricultura social e ecológica hoje produz”, afirma. “Em muitos casos, trata-se de situações em que há suspeita de fraude ou adulteração, mas não existe outro laboratório público acessível para esse tipo de avaliação.”
Análise farmacogênica
No Laboratório de Farmácia Clínica, Moriel explica que o objetivo é entender a razão de algumas pessoas responderem a certos medicamentos e outras não. “Buscamos respostas, e é aí que entra a genética”, diz. “Mas é claro que a genética não vai responder a tudo, porque quando uma pessoa tem uma reação adversa ou há inefetividade, são muitos fatores que estão ali embutidos, como interação medicamentosa, uma questão ambiental ou até mesmo estar tomando o remédio de maneira errada.”
“No laboratório, fazemos a análise farmacogenômica, que é estudar os genes que estão relacionados com as enzimas e os transportadores que metabolizam os fármacos. Com o projeto, ampliamos nossa capacidade de execução de testes com dois equipamentos, um PCR de tempo real e um sequenciador genético”, completa.
A partir de parcerias com o Hospital de Clínicas e outros hospitais públicos brasileiros, o projeto tem ampliado sua atuação. “Hoje, um dos nossos maiores problemas é que a farmacogenética conhecida vem da Europa e dos Estados Unidos. Mas nós somos muito diferentes geneticamente, somos uma população totalmente miscigenada. Nosso estudo ganha mais importância porque a gente está analisando usuários do SUS [Sistema Único de Saúde]”, completa. “Os dados gerados refletem a realidade da população brasileira, o que contribui para o avanço da chamada medicina personalizada no contexto nacional.”
Moriel cita ainda a implementação de testes farmacogenéticos no HC para pacientes em tratamento oncológico com medicamentos de alto risco. “Esses testes, hoje realizados de forma rotineira, ajudam a prevenir reações adversas graves e já beneficiaram centenas de pacientes, além de embasar teses de doutorado e outras pesquisas acadêmicas. Desde a implantação do laboratório, tivemos cinco teses de doutorado defendidas que usaram nossos equipamentos para pesquisas com pacientes. Então, se cada tese analisou de 100 a 150 pacientes, podemos calcular uma média de 800 pacientes já beneficiados”.

Papel estratégico
No Laboratório de Toxicologia Analítica, Costa ressalta o papel estratégico do trabalho de análise. “Quando há um crime, a polícia faz a análise. Mas, quando existe apenas uma suspeita, uma dúvida ou uma necessidade do governo, muitas vezes não há um laboratório disponível para esse tipo de teste. Surgimos como esse espaço de referência, capaz de atender órgãos públicos, empresas e a sociedade civil”, explica o professor, que leciona as disciplinas de Toxicologia e Análises Toxicológicas na FCF.
Entre os trabalhos realizados recentemente, destacam-se as análises de metanol relacionadas aos casos de contaminação em bebidas alcoólicas registrados no ano passado. Esses exames foram feitos no próprio laboratório, utilizando equipamentos específicos de alta complexidade. “Os casos diminuíram após a retirada dos estoques contaminados, mas ainda existe preocupação com novos surtos, especialmente em períodos como o Carnaval, quando há maior consumo de bebidas alcoólicas. Situações semelhantes já ocorreram no Natal, como o surto registrado na Bahia”, lembra. O laboratório recebe amostras regularmente da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, que envia materiais para análise de metanol duas vezes por semana.
O laboratório conta com um equipamento de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), muito usado no controle de qualidade farmacêutico. “As amostras, como comprimidos, são diluídas e inseridas em frascos específicos antes de serem injetadas no equipamento para análise. Esse tipo de sistema é semelhante ao utilizado na indústria farmacêutica, mas em menor escala”, explica.

Relevância na saúde pública
No Laboratório Innovare de Biomarcadores, Catharino destaca que as tecnologias são capazes de separar e caracterizar substâncias em níveis de precisão raramente disponíveis fora de grandes centros de pesquisa. As aplicações e análises realizadas são diversas e incluem itens como café, maionese, cogumelos, carne, óleos, metanol em bebidas, suplementos alimentares e outros produtos, totalizando mais de 23.000 análises em 50 projetos diferentes em poucos anos.
“Em um país com histórico recente de problemas envolvendo bebidas contaminadas com metanol, suplementos adulterados e alimentos fraudados, o trabalho do Núcleo ganha relevância não apenas para a saúde pública, mas também para a economia. Quando uma commodity como o café é adulterada e vendida a preços muito baixos, isso impacta diretamente a imagem e a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional”, afirma.
Muitas análises são motivadas por questões que emergem no debate social ou ganham destaque na imprensa. “Casos de suplementos que não contêm o que prometem no rótulo, medicamentos vendidos como naturais, mas que escondem fármacos sintéticos em sua composição, e alimentos adulterados fazem parte das investigações e, em alguns casos, os resultados servem de subsídio para alertas às autoridades e órgãos de fiscalização”, afirma.
“Apoiados pelo conceito de segurança, conseguimos obter informações importantes de cosméticos, bebidas e vírus, por exemplo, dispondo da inteligência artificial em nossos desenvolvimentos e culminando na criação de sensores à base de grafeno em parcerias. Assim se desenvolve o núcleo de segurança, com um olhar que se baseia nas tecnologias analíticas de ponta, para o desenvolvimento e criação de novos conceitos e produtos que geram segurança social no futuro”, completa.

Ampliação do acesso
Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida. Algumas avaliações são rápidas, enquanto outras exigem mais tempo, preparo e alto custo tecnológico. Ainda assim, a proposta é ampliar o acesso e tornar o Núcleo mais conhecido pela comunidade.
Além da consolidação institucional, entre os próximos passos do Núcleo estão a criação de um site e a ampliação das parcerias com outros setores da Unicamp, da indústria e do poder público. Uma segunda fase do projeto está prevista até o fim de 2026, com a ampliação das atividades e do alcance das ações.




