O anel de Isabelzinha
Você havia deixado o anel sobre a carteira e, para mim, aquela seria a lembrança perfeita
Isabelzinha, como eu poderia te esquecer? Não é verdade que roubei o seu anel. Meu coração estava abalado e foi apenas um impulso. Eu precisava ter algo concreto para manter o seu nome na minha memória e sabia também que aquela seria a minha última oportunidade, porque você já estava de malas prontas para voltar à sua terra natal, com os familiares. Ouvi você falando isso em segredo para a professora Sílvia.
Você havia deixado o anel sobre a carteira por descuido e, para mim, aquela seria a lembrança perfeita. Não tive, eu juro, a intenção de causar qualquer dano a você. Mas você voltou do recreio abalada, procurando o anel, e a professora ajudava a vasculhar a sala para encontrá-lo. Foi exatamente naquele momento em que eu, sem saber o que fazer, resolvi engolir o brilhante dourado.
Nunca senti algo tão perto do meu coração. Tremia, como eu tremia. Mas ninguém sabia do meu crime, então, passei incólume à investidura. Naquela tarde, precisei de uma longa partida de futebol para esquecer aquela que seria a mulher da minha vida.
O tempo passou, Isabelzinha, e tudo mudou de lá para cá. Cresci como uma vara de bambu. Assim que o padre Henrique falava de mim. Eu achava até que era elogio, porque ele tinha a cara da Nhala Seca e eu o vigiava, porque sabia que ele não era íntegro com Deus.
Já aos 17 anos e fora da nossa escola e das partidas de futebol com os amigos no campinho, resolvi fazer um passeio ao local para ver se lá ainda havia grama, se as traves estavam no lugar, se havia crianças se divertindo com uma bola de couro. Naquele domingo, estava tudo sereno e calmo. Somente o sol, bem lá no alto, reinava absoluto.
O cheiro sim, era bem próximo do que eu imaginava sentir. Fui ao corredor secreto, que era nosso banheiro dos velhos tempos. Percebi que o espaço ainda era usado para o mesmo fim, o que me alegrou. Mas o que me despertou mesmo a atenção foi um pontinho dourado no meio daquela bagunça de odores familiares.
Não sei o porquê você veio à minha memória, 10 anos após. Com muito cuidado, retirei o objeto dourado do esterco e percebi que era o seu anel, Isabelzinha. Ele está aqui comigo agora, pode vir buscar. Mas foi impossível devolvê-lo naquela hora em que meu coração batia em seu nome e na tristeza de saber que você estava partindo para sempre.
Obs: Este texto é apenas uma reescrita de um conto publicado há muito tempo.




