O governo de Fernando Collor de Mello foi paranoico. Ele é o desdobramento do governo de José Sarney, vice de Tancredo Neves, que fechou o Regime Militar. O mineiro foi eleito de forma indireta, por um colégio eleitoral, mas morreu na sequência e Sarney, seu vice, assumiu em seu lugar.
Meados dos anos 1980 foram politicamente fortes, com a Campanha pelas Diretas Já, pedindo o fim do Regime Militar, comandado por João Figueiredo, um homem que dizia gostar mais do cheiro de cavalo ao do povo. Em Piracicaba, parecia que a revolução socialista estava chegando na esquina. Bobagem estudantil.
Collor apareceu como um nome forte, alternativo a nomes muito mais valiosos no tabuleiro político nacional, como Ulisses Guimarães (senhor Travessia) e Mário Covas, homens justos e competentes, mas ruins de voto. O ‘Caçador de Marajás’ era um marqueteiro exímio e o eleitor queria novidade. O Brasil votou errado, logo de cara, com o retorno à democracia.
Primeiro, Collor nomeou uma retardada para ser ministra da Fazenda, chamada Zélia Cardoso de Mello, que implantou um tal Plano Collor. Deixou todo brasileiro com apenas R$ 50 na conta para tentar conter a hiperinflação. Ferrou com o país inteiro em uma só tacada. Impressionante. Claro que seu plano deu errado.
O mais louco no governo Collor foi seu irmão Pedro. Eles tinham uma relação de Abel e Caim. Em 1992, o marido de Thereza Collor, uma mulher bonita e vistosa (mas este é apenas um detalhe), resolveu denunciar o presidente da República alegando que havia um esquema de corrupção envolvendo o governo do seu irmão, comandado por um tal PC Farias. Ele era o pivô de uma organização criminosa que distribuía grana a políticos em troca de favores, que também beneficiava Collor de Mello.
A denúncia resultou na abertura de uma CPI e no início da campanha ‘caras-pintadas’. Mas o que pegou Fernando Collor mesmo foi um simples Fiat Elba, comprado com a grana do esquema para fazer as graças de Rosane Collor, a esposa do infeliz presidente, que dançou feio e foi deposto.
E quem assumiu em seu lugar? O mineirinho Itamar Franco. Outro homem com história pessoal cheia de casos engraçados. Mas ele teve a felicidade de nomear Fernando Henrique Cardoso (FHC) para o ministério da Fazenda e pode ficar na história com uma imagem não tão bronca assim.
Conto essas passagens para dar uma dimensão da encrenca que é este país e de que a democracia não conseguiu ainda se consolidar com a eleição de um presidente capaz de exercer o papel de estadista, sem se preocupar com o próprio umbigo. Como escrevi em outra matéria desta revista, o próprio HFC, que tem grandes méritos por tirar o país da inflação galopante, com o Plano Real, foi arrastado pela vaidade e se envolveu em esquemas nada republicanos para se eleger.
Tenho um amigo que pede sempre encarecidamente para que não criminalizemos a política. Concordo com ele. Aqui, criminalizo certos políticos. Mas, infelizmente, são aqueles que estão no topo do sistema. A conclusão óbvia desta leitura, com cenas repetitivas no quesito corrupção, que se arrastam até aos dias atuais, é de que o Brasil, politicamente falando, é um esquema.




