Hoje é Páscoa.
Para os cristãos, Jesus ressuscitou. Isto é chamado de “Páscoa”, do hebraico “passagem”. Implícita está a passagem da morte para a vida.
Católicos, protestantes tradicionais e evangélicos creem nesse acontecimento. Mesmo quem não é cristão acaba submerso num clima meio de luto (pela memória da morte de Jesus, na Sexta-Feira Santa) e de alegria, mesmo separada do motivo religioso.
O clima, por mais que o comércio insista nos ovos de chocolate, é de renascimento, renovação, vida nova. (Para a Lacta, segundo os comerciais abjetos com Ivete Sangalo, Páscoa é quando se abre um chocolate da marca, e pode ser a qualquer momento)
Um recomeço é desejo de muitos, visto que não há pessoa sobre a terra, ao menos os que já contam mais que vinte primaveras, ou invernos, que não tenha trilhado caminhos que levem à sua infelicidade e a dos outros.
Somente depois de recomeçar é que podemos pensar em crescer, elevar-se do chão para alguma altura, almejando paz, carinho e amor dos que o rodeiam, mesmo depois da morte. Ou seja, num legado para filhos e netos, ou quem sabe, até para a humanidade.
Mas ainda não é tempo de Ascensão. Metáforas poderiam voar como drones pelos campos da Ucrânia, ou do Irã, assim como o Nazareno subindo ao céu sobre o Mar da Galileia.
Por enquanto finquemo-nos ao chão, embora sob a perspectiva do Retorno à Vida.
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O clima político em Brasília, dizem, está esquentando. As panelas preparam-se para as eleições.
A expectativa das eleições faz com que o país se assemelhe a uma mistura de frigideira com óleo de fritura estalando e uma panela de pressão prestes a explodir. A promessa é que o material a ser frito ou espalhado não é lá muito cheiroso, nem higiênico.
Se acreditarmos no que a imprensa tem divulgado todos os dias, sobre os casos do Banco Master, desvios do dinheiro dos idosos no INSS, Supremo Tribunal Federal e suas patacoadas, o caldo vai ferver ainda mais e nada escapará da voracidade gastronômico-política das denúncias. Até a Seleção Brasileira não escapa das guerras partidárias, veja-se o que aconteceu na polêmica da camisa oficial: o que era para ser um slogan de motivação para o time - “Vai, Brasa!” - e um vídeo divulgando esses uniformes – em que um canarinho, símbolo tradicional da seleção, vira um corvo ou ave tão sombria quanto -, além de uma figura na parte frontal da camisa – em que a maioria das pessoas enxergou uma figura com chifres - transformou-se em denúncias de satanismo disfarçado, de “venda da alma ao demônio” e até cooptação ao comunismo / petismo, no uso da cor vermelha
Buracos cheios desse material os jornalistas e políticos da oposição cheiram, futucam, escavam. Graças a Deus, digo eu e um tanto de pessoas com algum juízo. Acabam revelando que não são buraquinhos, mas toda uma rede de túneis, que se comunicam com outras redes, certamente contendo tantos outros buracos, situados ainda mais em baixo.
Não podemos dizer que não fomos avisados: reeleger Lula, trazendo de volta o Partido dos Trabalhadores ao poder, bem como seus apaniguados, era, como disse Marx, repetir a História não como tragédia, mas como farsa.
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A pergunta que me faço, neste domingo de Páscoa, é se o Brasil tem condições de ressuscitar.
O Brasil está morto. Isso se considerarmos aquilo que lhe dá vida, as condições para continuar vivendo. Aquilo que o anima – que é a origem da palavra “alma”, “anima”, o princípio que anima um corpo, que lhe dá vida – já foi-se há algum tempo. O seu espírito, o “sopro de vida” - significado da palavra espírito, em seus inícios – perdeu todo o fôlego. Poderia dizer que o país respira por aparelhos, mas acredito que já passamos desse ponto.
Espiritualmente – no sentido exposto acima, e não religioso – o Brasil é menos um moribundo na UTI e muito mais um morto-vivo, um zumbi. Brasileiros, somos mortos que andam, como naquela famosa série de TV.
Pois estado em que se encontra em nosso espírito mistura emoções várias, algumas conflitantes, todas imersas num caldo: confusão, medo do futuro, derrotismo, pessimismo, apelo à realidade cruel e desumana, conformismo, tristeza, raiva. Pessoas que dependem da economia para ganhar seu salário, atuar como MEI ou empresários que não conseguem empreender, fazem desses sentimentos uma sopa ácida onde predomina a depressão e o ódio aos políticos dos partidos inimigos da ideologia em que acreditam.
O crime, o descumprimento à lei, o jeitinho, a polarização política, a corrupção, o oportunismo e privilégios na classe políticae nos ocupantes de cargos mais altos em todos os poderes da República desanimam profundamente qualquer um que precisa trabalhar para o seu sustento, e dos seus.
Chegamos a um ponto em que é difícil acreditar que há um futuro, em que possamos almejar algo melhor para o Brasil, e não só a luta pela sobrevivência, em que não estamos preocupados somente com o básico, em que possamos cumprir nossas potencialidades, eterna e ironicamente proclamadas na frase que dá título a um livro do suiço Stephen Zweig, “O País do Futuro”.
Nem o ouro, metais preciosos, gás e petróleo escondidos sob a terra, nem a exuberância das nossas matas e imensa biodiversidade, nem a suposta perseverança e criatividade dos brasileiros já nos dão esperança.
Não há dúvida de que materialmente estamos melhores do que há 30 e poucos anos, quando o milagre do Plano Real aconteceu. A estabilidade conquistada, porém, foi arrebanhada pela corrupção, revelada por desvios bilionários, “como nunca antes nesse país” aconteceram antes, em esquemas como Petrolão, Mensalão e outros malfeitos.
Embora eu saiba que a vida não se resuma à política nem à economia, são os governantes os líderes mais visíveis e que dão o tom do desenvolvimento social, econômico, político, e até cultural, de uma nação. É o estatismo de nossa época, que se reflete espiritualmente nos cidadãos de um país,
Eu, pessolmente, não gostaria que fosse assim, mas nos dias que correm funciona desse jeito. No Brasil, infelizmente, tem sido amplamente demonstrado: nos anos de desenvolvimento econômico como a década de 1950 e início dos 1960, floresceram a Bossa Nova, a Tropicália, a Jovem Guarda e o Cinema Novo.
E basta olhar para a literatura, as artes, a música de hoje, e perceber a diferença.
As artes são um espelho da sociedade. Se hoje predominam o feio, o sujo, o malvado, o sexualmente pervertido, todos travestidos de rebeldes, de contestadores, de revolucionários, somente demonstram o quanto estamos tão quebrados no espírito, anestesiados por tantos horrores e cansados de tanto lutar, que recorremos a qualquer droga para nos entorpecer.
E são os líderes, não só políticos, mas empresários, intelectuais, professores, religiosos, cientistas, artistas e outros mais, que devem dar o exemplo e motivar as pessoas sob sua liderança, para que haja retomada da vida, com esperança. Mas para isso é preciso que inspirem confiança, e este é produto em falta no mercado nacional.
Acaba que voltamos à frase registrada por Euclides da Cunha, em “Os Sertões”: “Em tempo de murici, cada um cuide de si”.
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Essa “cola” social é a mais importante: a confiança. Sem ela, patrões não confiam em funcionários, funcionários não confiam em patrões, alunos e professores fingem que estão em aula, que ensinam ou aprendem, filósofos fingem pensar questões importantes mas só enrolam, policiais não protegem ninguém, quem vende rouba no peso, quem planta enfia joio no meio do trigo, queima-se o churrasco e os sacerdotes fingem acreditar em Deus, quando só creem mesmo no dinheiro das coletas.
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De que forma, ó meu Deus, iremos renascer como nação? Como voltarmos ao mundo dos vivos, ou seja, ao mundo dos que crescem e se desenvolvem? Onde não se vive somente para trabalhar pelo pão de cada dia, e sim, para criar, correr, voar, saltar, e viver com alegria?
Pois a tão decantada alegria do brasileiro, hoje, é forçada. Como se demonstrar alegria fosse obrigação, especialmente no carnaval. O “momento de sonho”, da música cantada por João Gilberto:
A gente trabalha, o ano inteiro
por um momento de sonho
pra fazer a fantasia,
de rei, de pirata ou jardineira
pra tudo se acabar na quarta-feira
é acompanhada, na mesma canção, pelo refrão “Tristeza não tem fim / Felicidade, sim”. Não se enganem, sempre houve essa função social no carnaval, a de esconder para debaixo do tapete a vida penosa de milhões de pessoas pobres, que se entregam à bebida, ao sexo desregrado e à dança, para entorpecerem seus espíritos, tendo um alívio momentâneo de suas tristezas.
De que maneira, ó Deus embuçado nos céus, pode-se ter esperança, além de adotar o lema pessoal, no máximo familiar, de “salve-se quem puder”? Como confiar no próximo, se “para tudo tem um jeitinho, cerrrrto?” Como confiar em si mesmo e que “você merece ser feliz”, se a faculdade, o mestrado, o doutorado, o curso de aperfeiçoamento que se faz não valem nada num mercado em que se prioriza pagar o menor salário a quem aceitá-lo? Se o esforço que se faz em um emprego não é recompensado, desmentindo a tal da “meritocracia”? Se a guerra eleva os preços e nos sujeita a escassez? Se as economias de uma vida inteira são assaltadas se investidas num banco que, de uma hora para outra, abre falência por conta da corrupção de seu proprietário? Se o governo rouba o dinheiro dos impostos que se pena para pagar anualmente e também em cada bala, pão ou saco de arroz que se compra?
Como se diz, a situação está tão feia que qualquer esperança, se for mesmo possível que venha, terá de vir ou do céu ou do lugar do corpo onde não se vê a luz, que não vou nomear aqui porque tem criança na sala.
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Encerrando o desabafo, que já está longo e chato: hoje é Páscoa. Tempo de renascer, reviver, resetar a CPU da vida. Se a maré vai virar para o lado da bem-aventurança, se teremos ajuda do céu ou de seres humanos, se seremos motivados pela razão, pela emoção, pela sabedoria do passado ou pela necessidade urgente, não há como saber. Não consigo enxergar nenhum sinal de fumaça no horizonte, que me permita ter esperança para o Brasil. E não me digam que o candidato à presidência “x”, “y” ou “z” traz, enfim, a salvação da lavoura: dos que estão se apresentando, nenhum é um real voluntário da pátria. Só vejo oportunistas que pensam primeiro em si mesmos, e depois, nas suas próprias quadrilhas.
Termino como comecei, com a metáfora religiosa: só acreditarei se, como Tomé, colocar o dedo nas feridas abertas do Cristo ressuscitado. Mas a imagem é falha: neste momento, não existe alguém que seja confiável, pois para ressuscitar o Brasil, seria necessário primeiro oferecer-se em sacrifício, como fez Jesus. Neste exato momento, não há quem esteja disposto, nem tenha competência, para chegar a tanto.




