*por Augusto Neto
Talvez a obra mais famosa de Almeida Júnior, “Caipira picando fumo”, num estudo de 1893; esta obra específica está na mostra da Pinacoteca de Piracicaba, que abre hoje (27) e segue até 6/12.
A exposição “Caipiras: das tropas à moda de viola”, da Pinacoteca de São Paulo, propõe uma leitura que vai muito além do registro da vida rural paulista. No texto que acompanha a mostra, o curador Yuri Quevedo procura situar as pinturas de Almeida Júnior e de outros artistas no contexto histórico, político e artístico em que foram produzidas. Segundo ele, a representação do caipira fazia parte dos esforços de uma elite cultural paulista para construir uma identidade para o Estado, ao mesmo tempo em que dialogava com as tendências artísticas internacionais do século XIX.
É importante dizer que a leitura que faço aqui parte deliberadamente dos olhos do próprio curador. É a partir do texto de apresentação de Yuri Quevedo e das escolhas que ele fez para a exposição — inclusive a aproximação entre obras brasileiras e europeias — que procuro entender o que a mostra nos propõe e, a partir daí, levantar algumas questões.
É justamente essa proposta que torna a exposição interessante: não apenas olhar para o caipira representado, mas tentar compreender o olhar que o representou.
Almeida Júnior nasceu em Itu, teve sua formação profundamente ligada ao interior paulista e morreu em Piracicaba. É difícil, portanto, enxergá-lo simplesmente como alguém que criou, de fora, uma imagem conveniente do caipira para consumo das elites. Há em suas pinturas uma proximidade com aquele universo que parece ultrapassar a simples construção de um personagem.
Isso fica particularmente evidente em “O Violeiro”. Ali encontramos pessoas pobres, simples e rurais, mas não encontramos pobreza humana. Há música, convivência, sensibilidade e cultura. A viola não aparece apenas como um elemento folclórico: ela expressa uma forma de sociabilidade e uma vida interior.
O caipira de Almeida Júnior pode ser rude, pobre e ligado a um mundo distante da modernidade urbana, mas é apresentado com dignidade.
Mas há, evidentemente, uma idealização.
Os caipiras de Almeida Júnior aparecem frequentemente limpos, compostos, dignos, contidos, capazes de música, convivência e sensibilidade. Isso não significa necessariamente que sejam falsos. O artista pode ter selecionado, entre aquilo que conhecia, os aspectos que admirava.
E aqui talvez esteja uma distinção importante: idealizar não significa necessariamente inventar.
Nós fazemos isso com nossas próprias famílias. Ao lembrar nossos pais e avós, sobretudo depois que se foram, frequentemente selecionamos suas melhores qualidades. Não estamos necessariamente falsificando suas vidas; estamos atribuindo determinado significado àquilo que lembramos.
Talvez Almeida Júnior tenha feito algo semelhante com o mundo caipira que conhecia.
Mas a exposição levanta outra questão, mais incômoda e talvez mais importante: quem aparece nessa representação e quem fica de fora?
O próprio curador chama atenção para a questão racial. Almeida Júnior representou pessoas negras em outras obras, de modo que não se pode dizer que desconhecesse sua presença ou que jamais as tivesse pintado. O problema é outro: nas obras em que o caipira aparece como personagem digno, trabalhador, sensível e culturalmente integrado, os negros praticamente desaparecem.
Isso não permite concluir que o artista tenha deliberadamente decidido excluí-los. Mas é difícil não perguntar até que ponto essa ausência está relacionada aos preconceitos raciais da sociedade em que ele foi formado — conscientes ou incorporados culturalmente, sem que o próprio artista necessariamente os percebesse.
Essa ausência talvez seja uma das questões mais provocadoras que a exposição deixa ao visitante.
Mas há ainda outro aspecto da exposição que considero particularmente revelador.
O curador fez questão de colocar lado a lado obras brasileiras e obras de pintores europeus que também representaram camponeses e trabalhadores de seus próprios países. A comparação visual é deliberada. O visitante é levado a perceber as semelhanças.
E o próprio texto da exposição explica a razão: segundo Quevedo, a elite cultural paulista se articulava aos debates internacionais do século XIX, especialmente às tendências realistas e naturalistas, nas quais trabalhadores do campo e da cidade passaram a ser representados como personagens capazes de expressar a identidade nacional.
Ou seja, o caipira brasileiro aparece dentro de uma questão que também estava sendo discutida na Europa: quem representa o povo? Quem representa a nação?
Isso não significa necessariamente que Almeida Júnior estivesse simplesmente copiando os europeus. Significa que ele representava uma realidade brasileira utilizando uma linguagem artística que fazia parte de um ambiente cultural internacional fortemente marcado pela Europa.
E aqui surge uma questão que ultrapassa a própria pintura.
Talvez tenhamos, desde o período colonial, uma tendência a olhar para a Europa como referência de civilização, cultura, comportamento, elegância e progresso. Basta observar fotografias das cidades brasileiras do início do século XX. Homens de terno e chapéu, mulheres seguindo a moda europeia, cafés, teatros, arquitetura, hábitos sociais.
Não se tratava apenas de roupa.
Havia uma maneira de aprender a olhar para nós mesmos através de referências europeias.
Por isso, talvez seja mais preciso falar não em uma europeização do caipira, mas em uma europeização do olhar sobre o caipira.
O personagem era brasileiro. A terra era brasileira. A história era brasileira. Mas a linguagem artística utilizada para transformá-lo em personagem e, posteriormente, em símbolo, dialogava intensamente com modelos culturais europeus.
E talvez seja justamente isso que a exposição permita perceber.
Temos, de um lado, o caipira que existiu. De outro, o caipira que Almeida Júnior viu e escolheu pintar. Depois, o caipira que a sociedade paulista passou a reconhecer como parte de sua própria memória. E, atravessando tudo isso, um modo de representação que dialogava com aquilo que acontecia simultaneamente na Europa.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante diante de “Caipiras: das tropas à moda de viola” não seja simplesmente se Almeida Júnior idealizou o caipira.
A pergunta é:
O que exatamente ele idealizou?
Inventou virtudes que aquele homem não possuía?
Ou reconheceu, numa população pobre, rude e mestiça, virtudes que realmente estavam ali — e que uma São Paulo posteriormente enriquecida e modernizada passou a enxergar como parte de sua própria origem?
E, sobretudo: com que olhos Almeida Júnior aprendeu a enxergar esse homem que era tão profundamente brasileiro?
Talvez seja aí que a exposição deixe de ser apenas uma exposição sobre o caipira.
E passe a ser também uma exposição sobre a maneira como o Brasil aprendeu — e ainda aprende — a olhar para si mesmo.
*Augusto Neto é advogado, produtor e editor da curadoria diária de notícias do agro Cana Clipping. Também é poeta e compositor. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba - IHGP



