
Para quem não sabe, sou “um cabra” estudado. Tão estudado que perdi muito tempo com bobagens na academia e não consegui aprender coisas que hoje acho importantes para a minha vida profissional. Por isso estou sempre “em busca do tempo perdido” (meu jeito proustiano de ser – kkk) e tentando enchê-lo com algum conhecimento relevante.
Quando estudei na Unimep, perdi muito tempo com boçalidades. Especialmente quando me propus a fazer o mestrado. Pois é, resolvi encarar uma pós, como se dizia, fortemente influenciado por um dos melhores artistas contemporâneos de Piracicaba, Ermelindo Nardin. Além de referência, ele se tornou grande amigo, daqueles de tomar cerveja junto e rir da vida. Saudades.
Ele leu um livreto que escrevi para a então secretária de Cultura de Piracicaba, Rosângela Camolese. O texto carecia de revisões mil, mas a pressa o levou para o prelo antes. Não é uma desculpa pelo que saiu, mas poderia ter saído bem melhor.
No livreto, tentei fazer uma sequência histórica de fatos que levaram à criação da Pinacoteca Municipal, cujo prédio ia ser reinaugurado após alguns remendos para tentar conter a infiltração, que vinha prejudicando há muito tempo seu riquíssimo acervo.
“Por que você não escreve este mesmo conteúdo seguindo uma estrutura acadêmica, com notas de rodapé e tudo o mais? Ficaria um trabalho importantíssimo para pesquisadores”, disse-me Ermelindo. “Aqui tem calor, tem caldo”, enfatizou com o livreto em mãos
Esta foi a sugestão de Ermelindo, que me levou à mesa do professor Bruno Pucci, que me convenceu a ingressar no curso de Filosofia da Educação. Mas, para me enquadrar aos critérios acadêmicos, foi uma grande discussão, porque a sonhada história da Pinacoteca acabou se resumindo à análise de apenas uma obra do mais importante pintor de Piracicaba, nascido em Itu (não há erro aqui), Almeida Júnior.
Se não tinha solução, solucionado estava. Escolhi a primeira obra do artista, “O Derrubador Brasileiro”, como se vê na imagem. Uma obra pintada na Europa, em seus tempos de estudo, baseada apenas na memória. Mas que traz muitas informações relevantes sobre o caipira. Se eu deixasse para o encaminhamento do meu professor, sairia mais uma peça de ficção sociológica, de fundo marxista, do que uma análise do que se via no quadro.
Para cancelar Almeida Júnior, não faltam esforços, como o do curador Yuri Quevedo, da exposição que está sendo aberta na Pinacoteca de Piracicaba. Trata-se de uma pessoa com baixíssimo entendimento do assunto, e que vê Almeida Júnior apenas pela ótica das suas limitações teóricas.
Pelo meu entender, voltando ao Derrubador, estava ali um caipira assustado, desses que possivelmente fugia de alguma encrenca em que se meteu na cidade e, para não tomar alguns safanões e até morrer, resolveu ser ligeiro, o que era muito comum naquela época do século XIX. O que estava em questão na economia do país era conseguir espaço para a lavoura canavieira. Seu trabalho, provavelmente, era derrubar árvores para o plantio de cana-de-açúcar. Por isso a importância do machado, que poderia estar servindo de apoio para o seu cansaço.
Aí começam a entrar as teorias que dariam suporte à análise. Preferi Kant a Marx, porque meu viés era moral e não revolucionarismo bobo. Não encontrei muito espaço para os imperativos categóricos, mas consegui, no meu entender, mostrar que aquele personagem não era mais o homem do meio, aquele caipira que ainda não se adaptou à cidade, mas que também não vivia mais em uma aldeia. Era um caipira citadino.
O caipira do meio, retrato por António Cândido, em “Parceiros do Rio Bonito”, está melhor representado, suponho, na obra “Caipiras Negaceando”, em que os caçadores parecem mais do mato do que o Derrubador.
A volta à academia me proporcionou um período de grande aprendizado filosófico para escapar dos enquadramentos ideológicos que rolavam em sala de aula. Muitas figuras de linguagem foram elaboradas e lapidadas para explicar aquela pedra (trono), seu olhar enviesado, os pés descalços, uma canseira de quem fugiu da festa etc. Não me recordo de tudo o que escrevi. Procurei, sim, colocar um pouco de mim em um trabalho tão controlado por olhares estranhos.
Não agradei meu professor com o resultado final, claro, muito menos meu amigo Ermelindo Nardin, que me cobrou a grande obra e lhe entreguei um amontoado de percepções sobre um quadro que poderia ser muito bem sintetizado como uma peça rara de Almeida Júnior. Por que eu digo rara?
Digo rara porque é o primeiro sinal de que o pintor mergulharia em um estudo sociológico do caipira do interior de São Paulo, onde esteve sua infância e sua própria experiência de vida. Um caipira que não é apenas Derrubador, que não é apenas Negaceador, não é apenas um rejeitado qualquer. Mas sim, pode ser um sedutor bem ritmado (Violeiro), uma mulher triste e apaixonada (Saudade), um grande empresário com sua família, mulheres nuas em estúdios.
Ele despe o caipira, universaliza o caipira e amplia saborosamente o significado da palavra caipira, em que todos nós, caipiras, nos vemos envolvidos e integrados. Ele revela um universo, um jeito de ser, muitas vezes arisco e enigmático, como o Derrubador Brasileiro, como nós mesmos.
Quem for à exposição na Pinacoteca de Piracicaba poderá perceber isso. Porém, de uma forma muito melhor elaborada, este entendimento está na riquíssima produção da historiadora Marly Therezinha Germano Perecin. É a mulher que mais entende de cultura caipira que eu conheço. Não vamos cancelar o cancelador, mas que ele precisa estudar um pouco mais antes de fazer o que se propõe, disso não tenho a menor dúvida.



