Pintura de Pacheco Ferraz, “Salto do rio Piracicaba à noite”, 1974.
O rio Piracicaba é a alma da cidade, como já disse bem o Cecílio Elias Netto e outros personagens. O Salto é o nosso símbolo mais forte.
A “Noiva da Colina”, apelido poético da cidade, foi dado por Brasílio Machado no poema “Piracicaba”, de 1876. O poeta - que era promotor público - parte do salto para falar da Piracicaba em que ele viveu, e da neblina que se juntava no salto de manhã e que era chamado de “véu da noiva”:
Sacode os ombros nus, ó Noiva da Colina,
Que a luz da madrugada encheu o largo céu;
E arranca-te das mãos o manto da neblina,
Que ondula sobre o rio, enorme e solto véu.
Outros símbolos fortes são ligados ao rio de forma umbilical: o peixe, os pescadores, a Rua do Porto, o Engenho Central.
O piracicabano fica feliz quando chove e o rio se enche, “caudaloso se agita”. Fica triste quando está seco, só na pedra, como um cachorro magro mostrando as costelas.
Mas a época da piracema é quando o rio se agita, com vida abundante chegando ao Salto, visível do Mirante mas também da avenida Beira Rio e da ponte Irmãos Rebouças.
A piracema, a subida dos peixes para a nascente, onde vão se reproduzir, é o movimento natural, biológico, que suscita o ajuntamento dos peixes no Salto. Esse fato, que se repete todos os anos, nomeia o rio, o salto e a cidade inteira. A história da cidade construiu-se, simbolicamente, dessa “muntuera” de peixe se ajuntando por aqui.
“Piracicaba”, segundo os estudiosos do tupi-guarani, pode significar não só “lugar onde o peixe para”, (etimologia mais usada hoje, na cidade), mas também “lugar onde o peixe se ajunta”, “lugar onde o peixe chega” ou “lugar onde há muitos peixes”.
“Lugar onde o peixe para” é a imagem mais utilizada depois que o Grupo Andaime de Teatro Unimep montou a peça teatral de mesmo nome, que utilizou muito das nossas tradições populares - histórias, folclore, música, catira e cururu, além das expressões típicas do “dialeto caipiracicabano”. A festa do Divino, o Cururu, as piadas de pescador, a pamonha, a “Nhala Seca” e o “Turco que come crianças”, isso e muito mais, estão no texto, que foi uma criação coletiva dos integrantes do grupo.
A peça está no caldo do “revival piracicabano” da década de 1980, cujo grande responsável foi Cecílio Elias Netto, mais uma vez, com seu jornal “A Província”, que publicou um vasto material sobre as tradições e memórias da cidade. Esse revival teve desdobramentos até a entrada do século XXI, culminando com a publicação do “Memorial de Piracicaba-Almanaque 2000”.
O que quero dizer é que tenho pensado a respeito da paisagem, especialmente a do rio e do salto, que inspirou tantos artistas, da nossa terra e de outras. O quadro de Pacheco Ferraz, no início deste texto, é um dos mais interessantes porque dialoga com uma tradição local de representação do salto e do rio, e consegue ser original, se confrontado com outras obras locais sobre o mesmo tema.
O “clichê”, ou seja, a maneira mais comum de pintar o rio, foi consagrada por Joaquim Dutra. É dele o ponto de vista do salto, com o Mirante do Barão de Resende e o Engenho Central à esquerda e, dependendo do quadro, mostrava a propriedade do Conde do Pinhal do lado direito, ou a Fábrica Boyes, mais tarde, ou como no quadro abaixo, o Palacete Boyes, de Luiz de Queiroz. A avenida Beira Rio - trecho que liga a atual av. Armando Salles de Oliveira à rua do Porto - ainda não existia. Às vezes aparecia a Casa do Povoador.
Joaquim Dutra, “Vista do rio Piracicaba”, 1920. Acervo da Pinacoteca Municipal.
Joaquim também pinta muito a curva do rio, onde está situada a “Rua do Porto” clássica, o bairro de pescadores original. O morro do Castelinho sem ocupação urbana, nem as proximidades. Para nós, uma paisagem irreconhecível, um outro planeta.
Joaquim Dutra. Curva do rio Piracicaba, 1922.
Pacheco elege o rio como assim o elegeu Joaquim Dutra, seus filhos Archimedes e Alípio, e o patriarca Miguelzinho. Mas pinta como nunca visto antes, ao menos em uma obra de arte: pinta o rio visto da então chamada ponte do Mirante (hoje Irmãos Rebouças), e ainda, à noite. Suas manchas, mais sugerindo que mostrando, um salto em rebuliço, certamente na época de cheia, das chuvas da época da piracema. O mirante parece ser o antigo, do Barão de Rezende. Vislumbram-se manchas mais adiante, ao longe, que pela posição, representam o Engenho Central. A avenida Beira Rio, à esquerda, o braço de terra que avança próximo à Casa do Povoador, e mais ao longe, a rua do Porto, com as casinhas dos pescadores, ainda distante dos restaurantes atuais.
A luz não é de alta noite, mas do fim da madrugada, do amanhecer. Seriam alguns momentos antes do horário em que a bruma que se forma sobre o Salto irá se formar, o “véu da noiva”.
Pacheco traz pura poesia em manchas de tinta expressionistas, sombras impressionistas roxas, laranjas, e toda uma atmosfera onde cabe nossa memória, nosso sonho de cidade, nossa infância ou outros momentos da vida.
Tenho uma desconfiança, que não posso comprovar. Mas penso que Antonio Correa Barbosa desobedeceu suas ordens para ficar junto do Salto, porque queria conviver com aquela beleza, como paisagem da janela da sua casa, da sua fábrica de barcos.
Ao fundador da povoação, o capitão-povoador Antonio Correa Barbosa, foi ordenado em 1767 que a estabelecesse às margens da foz do rio Piracicaba com o Tietê. Barbosa desobedeceu à ordem do governador da capitania, D. Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, o “Morgado de Mateus”, e fundou Piracicaba bem próximo do Salto, no local onde hoje está o Engenho Central.
Não há registro cabal, nenhuma declaração explícita, mas cismo com dois motivos da desobediência: a facilidade de captura dos peixes, na época da piracema, junto ao Salto; e porque o Salto era bonito demais para ser deixado de lado.
Dizem os historiadores, como Mário Neme, que já havia pessoas morando junto ao Salto, quando ele chegou aqui, com uma “turma” de pessoas, para fincar bandeira e abrir uma fábrica de barcos monçoneiros, para prover com eles as expedições para o Mato Grosso e o Forte de Iguatemi, no atual território do Paraguai.
Não importa. O fato das pessoas já estarem aqui antes da fundação oficial, coladas à cachoeira que é parte da nossa Alma piracicabana, só mostra que o Sublime atrai. E gosto de pensar que Barbosa - descrito pelo capitão de Itu, Vicente Taques, como “um índio qualquer”, homem prático, caçador e pescador, além de artesão de trabalho de entalhe em madeira, nos seus batelões - foi atraído pelo Sublime, pela Beleza.
Uma das razões para a fundação de Piracicaba junto ao Salto, portanto, pode ter sido estética. E isso, longe de ser fútil, é importante demais para ser descartado. Nossa cidade pode ter começado com um encantamento com sua Beleza Natural, que depois se estendeu à Beleza Artística. Que continuou a ser inspirada pela natural.





