Flávio Bolsanérios enlouqueceu e fugiu do país. Com isso, abriu espaço para uma nova estética de poder no Brasil e para o cinema nacional. Apreciar essas cenas é um exercício dolorido, mas é, no mínimo, um script diferente para a próxima minissérie da Globo. O que era ruim vai ficar pior.
Antes das cenas, apresentemos os personagens. O primeiro e mais importante é o Impostor Machado (Alexander de Marois). Megalomaníaco, quando se casou com Barcelina (Vivione Birci), prometeu a ela o mundo e o fundo (vai ser fogosa assim nos quintos dos infernos!). Por consciência de que o mundo seria um exagero, deu-lhe apenas o fundo (financeiro, claro). Mas sem perder de vista a promessa original.
O terceiro é Luiz Canastro Lontra da Silva, também conhecido como O Pilontra. Seu sonho era ser presidente do Brasil desde criancinha, quando ficou sabendo que sua pobre mãe havia nascido analfabeta. Uma injustiça. E nunca mais se livrou da ambição. Até idealizou um Brasil observando a fossa da sua casa e gritou como um eureka: Boia Brasil!
Em seus sonhos, ele seria a boia de salvação da América Latrina. Não podemos chamá-lo aqui simplesmente de ambicioso, é verdade, mas sim de realista. Porque ele sabia como ninguém como os políticos boiavam no Planalto Central para sobreviver e a merda toda que acontece nos bastidores do poder.
A quarta personagem, e não menos importante, é aquela que adora palavrão e sabe muito bem como conversar com Pilontra, sem precisar tirar a roupa. Só a expressão que ela usou para chamar Nikulis Forreira durante a campanha presidencial, que entra nesse roteiro como mero coadjuvante, já a sintetiza como uma viva força expressiva: “Piá de Bosta”. Chamemo-la de Sedenta, para ficarmos apenas em seu desejo de ter um trono igual ao da Barbie para brincar de rainha.
Cena única
A testosterona estava em alta. A moral estava em baixa. Com cargos e privilégios, não era preciso muito empenho em Brasília para se levar as moças que corriam por fora ao acalanto do cafofo. Caso faltasse moça, era só ligar para o Vorcaro. A vida ia bem, mas a vontade só aumentava. Uns traziam na testa estampada a frase: “Fodão”. Era um desejo Supremo.
Já no Alvorada, Lontra trouxe da cadeia uma moça muito cordada e acordada que cuidava de tudo e não deixava faltar nada. O ideal era apenas o começo de uma emoção celestial, acompanhada de perto pelo Aerolula. O plano era simples e a obviedade também. “Isso tem que ser perpétuo, e olha que não nasci para ser rei. Mas está me nascendo algo na barriga”, enfatizou Pilontra, com a concordância imediata do Impostor.
A mesma emoção valia tanto para o careca como para o duende. Um batia a pistola na mesa. O outro batia a mesa na pistola. A lei da gravidade não existia para ambos. Pelo bem desse roteiro, eles nem sabiam o que era gravidade, porque, se a situação se agravasse mesmo, o careca prenderia Flávio Bolsanérios e tudo se resolveria em um passe de mágica. A vítima seria aquela a causar mais comoção social e facilitasse o despiste do golpe.
A compra do silêncio para o Congresso em peso era terceirizada diante de tanta estalactite. Vorcaro sabia o trabalho que era pegar dinheiro dos velhinhos do INSS e entregar aos montes aos velhacos de Brasília. Mas não se cansava. Achava que aquilo tudo ia acabar mesmo em Macallan, o uísque mais caro do mundo, e em surubas nas ilhas inglesas para todos que considerassem a cena normal. Seria o paraíso na Terra. Era o mundo e o fundo de Impostor Machado.
Mas há sempre uma jornalista na história, a estraga-prazeres, e o roteiro foi flagrado no exato momento em que Impostor Machado e o Pilontra se reuniam para selar um pacto a favor do deus ex machina, vulgo gozo absoluto, promovido por Vorcaro. Barcelina e Sedenta sequer haviam se recomposto da cama quando houve o flagra.
Na manchete de jornal do dia seguinte, estava lá: “Macallan sela pacto de dois tarados pelo controle do país”. O furo foi dado em primeira mão e, a partir de então, Flávio Bolsanérios tornou-se o maior inimigo do governo, porque foi ele quem resolveu beber mais Macallan com Vorcaro do que Machado e o Pilontra juntos. Uma traição. Tanto é que Vorcaro foi preso imediatamente, no momento em que ligava para Trumb. E o Laranjão americano resolveu invadir o Irã só para mostrar quem é mais louco nessa história. “A loucura é um prato frio que se come com barata!”, pensou Laranjão diante do espelho. Bolsanérios, esperto como um preboste do próprio pai, fugiu assim que ficou sabendo que ele também entraria em cana.
Pilontra, em seu quarto mandato, já com saudade dos Bolsanérios, canta em sua solidão ao lado da Sedenta e ao telefone com o Impostor Machado: “Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim!”. O Macallan está aberto sobre a mesa e a câmera vai se fechando em seu rótulo.




