O que acontece entre o primeiro clique no aplicativo de delivery e a chegada da refeição quente à porta de casa? À primeira vista, parece algo óbvio: o usuário escolhe o que quer comer, o restaurante recebe o pedido e inicia o preparo enquanto o aplicativo faz uma estimativa do tempo de entrega segundo a região da cidade. Por trás desse processo aparentemente simples há um complexo ecossistema de assimetria informacional, segregação territorial e precarização do trabalho.
Uma tese desenvolvida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp por Lucas de Moraes Guide, sob orientação de Ricardo Castillo, detalha como a plataforma de delivery iFood interfere em circuitos de consumo na cidade de Campinas ao controlar a participação de restaurantes, consumidores e entregadores por meio de algoritmos que transformam atributos territoriais, como localização, renda e acessibilidade, em critérios de valor. O estudo demonstra que a rentabilidade das conexões do iFood não depende meramente da quantidade de usuários cadastrados, mas sim da eficiência da conexão desses agentes em termos de localização relativa e fluidez espacial, a que o autor da pesquisa chamou de efeito logístico de rede.
“No caso do iFood, os restaurantes pagam uma comissão de 12% a 23% por venda intermediada, além de taxas fixas por pedido e mensalidades pelo uso da plataforma. Os clientes, por sua vez, arcam com a taxa de entrega (geralmente entre R$ 5 e R$ 15 por pedido) e uma taxa de serviço em torno de 1% do valor, além de eventuais cobranças adicionais”, relata Guide em trecho da tese. Após contabilizados os custos, cada pedido gera um ganho efetivo de aproximadamente 3% para a plataforma.

Para ampliar esse faturamento, a plataforma faz macroanálises por inteligência artificial a partir dos dados gerados. O objetivo é descobrir onde esses usuários estão para promover conexões interessantes do ponto de vista financeiro para o iFood. Dessa forma, a plataforma consegue identificar “quais são as áreas mais lucrativas da cidade, quais são os consumidores mais interessantes e quais são os restaurantes com maior poder de produção, para que, por meio de algoritmos, consigam se encontrar”, afirma Guide.
Para explicar essa dinâmica, o pesquisador recorreu à Teoria dos Dois Circuitos da Economia Urbana, desenvolvida pelo geógrafo Milton Santos no final da década de 1970, que explica a dinâmica espacial e econômica das cidades da periferia do sistema capitalista: o circuito superior é dominado por agentes globais que controlam o crédito e moldam a infraestrutura urbana, enquanto o inferior é composto por pequenos comerciantes e autônomos que formam uma rede de sobrevivência local para atender às classes populares. No caso da empresa de delivery pesquisada, Castillo diz ver uma relação típica da urbanização periférica. “É uma relação em que um ganha muito e tem muito poder, enquanto muitos ganham pouco, mas se veem reféns dessa relação”, afirma.
Guide identificou esse efeito logístico de rede nos bairros Cambuí e Parque Oziel, em Campinas. O pesquisador entrevistou entregadores e proprietários de restaurantes dos dois bairros. Também fez simulações como consumidor da plataforma. No Cambuí, bairro central que concentra alta renda, os restaurantes têm visibilidade e estabilidade no aplicativo – é onde esse efeito atinge nível máximo. Já no Parque Oziel, bairro da periferia que concentra baixa renda, os pequenos comércios sofrem com a “invisibilidade temporária”: quando faltam entregadores na cidade ou há saturação da demanda, o algoritmo encurta unilateralmente o raio de atendimento para priorizar as zonas centrais.
Entregadores x plataforma
Não há qualquer tipo de vínculo trabalhista entre entregadores e a plataforma. Não há nenhuma proteção e muito menos autonomia. “Cada entregador é tratado como se fosse uma empresa independente, mas sem autonomia, sem proteção e sem poder de negociação”, afirma Castillo.
Quando há previsão de chuva, a plataforma oferece bônus para os entregadores. Isso garante que eles não vão parar de circular para buscar abrigo, pois é nesse momento em que os pedidos aumentam. “É justamente nesse período quando há maior risco de acidente, porque eles estão tentando ganhar o máximo possível nesse intervalo de uma ou duas horas”, destaca Guide.
O aplicativo identifica os entregadores que andam mais lentamente, que recusam pedidos e que demoram a ligar o aplicativo depois de fazer uma entrega. A tese aponta que há uma espécie de punição ao trabalhador que segue a lei de trânsito como deveria, contradizendo o discurso institucional educativo da empresa. “Mas isso só é possível de ser verificado na fala deles ou em algumas notas que eles escrevem em sites, como o Reclame Aqui, que foi uma das fontes documentais da tese”, explica o pesquisador.

Regulamentação e resistência
Apesar de plataformas como a iFood se apresentarem como empresas de tecnologia, acabam por funcionar como empresas de logística. “Vender-se como plataforma de tecnologia é uma certificação de que você está diante de uma empresa que tem uma capacidade gigantesca de ganhar mercado e dominar territórios”, diz Guide.
Além disso, essas empresas esquivam-se das pesadas regulamentações trabalhistas, fiscais e operacionais que incidem sobre o setor de logística. “Uma empresa de logística tem que conhecer todas as regras sobre horários de embarque e desembarque, mercadorias ou regulação do trânsito”, lembra Castillo. “Há implicações que recaem sobre as empresas de logística que não recaem sobre uma empresa de tecnologia, como a iFood se autodenomina”, complementa. Nesse caso, os entregadores acabam sendo os únicos responsáveis pela logística.
Diante desse cenário de “caixa-preta” algorítmica – tema que o autor também investigou na Universidade de Bolonha, na Itália, em um doutorado sanduíche –, a regulamentação do setor torna-se primordial para a sobrevivência desses trabalhadores, sobre quem recai o verdadeiro custo da conveniência.
Para além da regulação, que depende do Estado, surgem no mesmo território controlado pela plataforma sinais de resistência vindos dos próprios agentes. Os entregadores se organizam em mobilizações por direitos e por transparência sobre a remuneração e a atribuição de corridas. Os restaurantes, por sua vez, reagem reorganizando a logística. Guide aponta que alguns seguem no aplicativo como marketplace, mas retomam a entrega com motoboys próprios. “Assim, o restaurante escapa do algoritmo que define o custo e o raio de atendimento”, finaliza.
Matéria: Eliane Dare | Fotos: Antoninho Perri | Jornal da Unicamp.




