O mundo que você conhecia acabou
Um mundo onde ser cínico é saudável, mas de uma saúde perturbada
Otimismo x depressão
Se você tem entre 40 e 50 anos de idade, você cresceu e se tornou adulto num mundo diferente do atual. No período entre 1990 e 2001, o clima dominante era de otimismo. Prosperidade econômica de forma geral no mundo civilizado, e no Brasil, o país parecia não só que decolava, mas que voava a jato, turbinado.
Pollyana
Tanto felicidade – que o filósofo Luís Antonio Pondé descreve como se o mundo fosse um imenso shopping, com o multiculturalismo manifestando-se como uma praça de alimentação em que você tinha mais opções de restaurantes com gastronomias étnicas – acabou com o 11 de setembro de 2001. Mesmo que analistas, no momento da Queda das Torres, tenham dito que o mundo que conhecíamos acabava ali, não dava essa sensação um mês, ou um ano, depois. Na frente da TV, vendo ao vivo os aviões baterem em edifícios numa metrópole do país mais desenvolvido do mundo, perdemos qualquer resquício de inocência.
Estética de tempos sombrios
Parece bobo falar disso, mas o conjunto musical Spice Girls, um grupo que traduzia tanto otimismo e alegria quanto os Beatles na década de 1960, anunciaram o seu fim no começo de 2001, Abrindo espaço para uma era sombria onde a extrema falta de sutileza e grosseria absoluta viraram princípios artísticos. Com rappers de cara feia e aparência de bandidos, divas despidas como artistas de prostíbulo, e no Brasil funk e sertanejo sexualizado, dominando a cena. E jogando para escanteio tudo o que fosse alegre como algo “ingênuo”.
Internet, celulares, bitcoins, IA
Vocês podem até não se lembrar, mas houve uma época em que não usávamos celulares para assistir filmes ou acessar a conta bancária, nem apostar em bets. E sim, para fazermos ligações telefônicas. Sem vídeo. Pela internet, comprávamos no máximo um livro ou dois. No computador desktop. Pelo site da Saraiva, e não pela Amazon. Não havia dinheiro digital, nem na forma de bitcoins, nem por Pix. Inteligências Artificiais eram uma promessa distante, coisa de ficção científica.
O mundo despirocado - 1
Na década de 1990, parecia não haver mais guerras, e os governantes não despirocavam como os de hoje. Também não havia tanto terrorismo quanto houve nestes últimos 25 anos. O mundo deu uma cambalhota reversa de ponta-cabeça e virou no Jiraya: Osama bin Laden, Estado Islâmico, Hamas, Hezbollah, Fatah, e as reações norte-americanas: Guerra do Afeganistão (2001), 2.a Guerra do Iraque (2003-2011), Guerra ao Terror. Além da Guerra Civil da Síria, e a Guerra de Gaza, de Israel contra o Hamas (2023).
O mundo despirocado - 2
Vladimir Putin mandou a Rússia invadir países, como a Ucrânia e a Geórgia. Aliança entre Rússia, China e Venezuela. Que transformou-se também numa ditadura sanguinária. A Ucrânia foi forçada a uma guerra que parece não ter mais fim: Putin não esperava que a resistência ucraniana durasse tanto tempo. Do outro lado, Donald Trump dá seus pulos, mas elefantes quando pulam podem derrubar casas. Ou países. Veja-se o recente sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a Guerra contra o Irã, iniciada neste fim de semana (28/02).
O mundo despirocado - 3
A ameaça nuclear está de novo presente, talvez tão presente quanto na Guerra Fria, com a volta de antagonismo entre EUA e Rússia, além da presença da China como potência econômica com potência nuclear. O mundo não ser mais um lugar seguro para viagens de lazer ou não se parecer mais com um shopping são só duas consequências, entre outras, de se viver num século onde é impossivel cantar “Imagine”, de John Lennon, sem parecer tonto.
Juízes brasileiros despirocados
Na década de 1990, juízes não despirocavam da maneira que fez a sra. Cláudia Márcia de Carvalho Soares, juíza do Trabalho aposentada. Que declarou, na última quarta-feira (25/02) em julgamento no STF, que não existem penduricalhos porque “nada está pendurado”, que “o juiz de primeiro grau não tem carro, paga do seu próprio bolso o combustível, o carro financiado, não tem apartamento funcional, não tem plano de saúde, não tem refeitório” e, pasmem, reclamou que não tem dinheiro nem pro café.
STF despirocado -1
O STF também não despirocava. Os ministros da Corte mais alta da nação, atualmente, tem uma folha corrida tão grande de despirocagem que é difícil listar todas em notas curtas como esta. Vale citar a condenação de Alido Francisco Lima, que foi condenado a 14 anos de prisão por ter feito uma live no celular sentado à cadeira do ministro Alexandre de Moraes, nos atos de 8 de janeiro de 2023. Tá certo que para fazer isso ele teve que invadir a sede do STF em Brasília com mais um monte de gente, mas uma punição tão rigorosa parece muito desproporcional à gravidade do ato. Um ato que feriu muito mais a vaidade do sr. Alexandre de Moraes do que a integridade de sua pessoa física. A condenação desproporcional e injusta parece mais um ato de vingança.
STF despirocado - 2
Outra punição que parece desproporcional é a condenação a 17 anos em regime fechado da senhora Maria de Fátima Mendonça Jacinto Souza, que também invadiu o gabinete de Alexandre de Moraes, ameaçou o ministro (mesmo ele não estando presente) e defecou num banheiro do local. Na época, ela tinha 67 anos. Hoje, às portas de completar 70, está trancafiada numa cadeia. Mesmo que ela merecesse alguma punião, não parece nada justo. Parece mais um ato de vingança do ministro do STF.
STF despirocado - 3
Poderíamos falar de outros exemplos relacionados ao 08 de janeiro. Mas vamos falar apenas de mais um, para não mais enfadar, ou enraivecer, os leitores. Naquela época que descrevemos na primeira metade deste artigo, os anos 1990, um ministro do STF não encobria o outro numa investigação realizada no próprio tribunal (investigação que já é irregular, pois devia ser conduzida na primeira instância), como fez Gilmar Mendes, no fim da semana passada, com o colega Dias Toffoli, que as investigações indicam ter vendido favores para o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
STF despirocado - 3
E os “meritríssimos” ministros, como os chamava Stanislaw Ponte Preta, também juntam esforços para “ganhar o jogo” e “limpar o terreno” para blindar Alexandre de Moraes, que teve revelado o escritório da esposa numa ação do STF em que ele próprio era relator. Parece mais um ato de corrupção do STF,
Executivo despirocado
Para falar do Executivo e do Legislativo, teríamos de fazer um artigo exclusivo para cada um. Vamos falar só do mais recente do Executivo: na década de 1990, não havia um político que tivesse a falta de decoro, de decência e de vergonha na cara em aceitar uma homenagem de escola de samba em ano eleitoral. Em desfile na Marquês de Sapucaí, pago com dinheiro público, direcionado especialmente para este fim. Nos distantes anos 90, os políticos não eram santos nem anjos de candura, muito menos exemplos de honestidade, mas a escala da roubalheira era bem menor, e ao menos tinham senso de ridículo suficiente para não jogar na cara dos cidadãos que seus feitos têm mesmo que ser exaltados e elogiados com dinheiro dos nossos impostos.




