Esta também é uma das minhas crônicas do passado. Imaginei um peixe que vendia minhocas na Rua do Porto. Antes dessa fase, porém, ele era um militante aquático, que costumava alertar os cardumes sobre os perigos dos pescadores. Por isso, era muito querido.
O peixe militante chegava, inclusive, a afastar seus amigos das iscas que os enfeitiçavam. “Nãaaaaooo”. Já era tarde. Mais um havia caído, ou melhor, subido pendurado no anzol traiçoeiro.
Ele fazia discursos, movimentando o fundo do rio com ideias libertárias. “Vocês, meus irmãos, não podem se deixar levar pelo homem, que só pensa em ter um bom peixe na frigideira para alimentar suas ambições de poder”.
Assim, ele viveu livre e cheio de esperanças de estar sendo útil aos seus iguais. Até que o tal peixe desapareceu. Foi quando eu, andando pela Rua do Porto e conhecedor das suas histórias, fiquei sabendo que agora ele fazia dinheiro com a venda de minhocas.
Mesmo se contradizendo, ele voltou a ser o palanqueiro das águas, como se pudesse levar uma vida dupla, de algoz e protetor, ao mesmo tempo. “Cuidados, meu povo. O mundo está cada vez mais perigoso!”, costumava dizer.
Até que um dia, enquanto ele discursava, uma grande sombra se projetou sobre o cardume que o ouvia. Ao perceber a rede e suas imensas chumbadas, ele se esquivou para trás da pedra e viu a imensidão de peixes sendo arrastada para cima. Até que um deles gritou, ciente de que não teria mais força para escapar da armadilha:
“Por que você nunca nos falou sobre o perigo das redes?”.
Tenso com a situação, o peixe que vendia minhocas percebeu que o pescador era o seu Manoel, um velho peixe que o ensinou a vender minhocas. Então, ele respondeu o que lhe veio pela cachola, para não denunciar seu professor. “Não se desesperem. Seu Manoel é criador de peixes ornamentais”.
Moral da história: Sempre desconfie de um peixe que vive às custas do que prega!



