Por que então eu não aguento mais a campanha eleitoral deste ano?
Porque não é possível afirmar, nem de longe, que os dois candidatos a presidente da República, Lula e Flávio Bolsonaro, sejam políticos honestos, que tenham a intenção de melhorar a situação do Brasil, que estejam preocupados de verdade com o Brasil.
Não dá para dizer, nem de longe, que um dos candidatos é completamente honesto, e o outro completamente corrupto.
Não dá nem para dizer que um deles é só um pouquinho corrupto, e o outro é bastante mais corrupto. Porque aí seria assumir o cinismo que prospera mais e mais, a céu aberto, “como nunca antes neste país”.
Em um país sério, a simples suspeita de corrupção derruba primeiros-ministros e presidentes. Que dirá, candidatos. Por aqui, deixou de ser praxe. Virou medida excepcional, quando devia ser costume, regra.
Sobre os dois candidatos pesam muitas suspeitas de atos corrompidos, além dos fatos já provados e comprovados. Um foi condenado em processos judiciais, mas teve suas condenações anuladas. O outro teve provas anuladas em uma investigação, e a denúncia acabou rejeitada. Ambos foram beneficiados por decisões do STF. Que agora sabemos, tem “dois lados”, cada um deles comprado por grupo político de sua preferência. Ou pelo que paga mais.
Os dois deviam ter mais vergonha na cara. Pois fugiram da cadeia – um deles, inclusive, tendo amargado um tempo atrás das grades (mesmo que a detenção de Curitiba tenha sido uma “prisão de pelúcia”).
São foragidos da justiça, não a formal, cuja anulação de suas sentenças ou provas os fazem declarar “absolvidos” - embora, tecnicamente, não sejam. Mas são, sim, foragidos da justiça que clama aos céus. Esta levanta os braços e implora para ser cumprida.
Não há como sustentar que um dos dois seja santo e o outro, pecador. Não há como afirmar que um deles é uma vítima, perseguido pela imprensa, pelo judiciário e pelo sistema e o outro, um corrupto incorrigível.
Porque ambos utilizaram-se, e ainda utilizam, das instituições para se safar de punições sobre seus crimes. Que o digam Supremo Tribunal Federal, Procuradoria Geral da União, Ministério Público, Judiciário de várias instâncias, Congresso e o escambau. Sindicatos, OAB, CNBB e outras instituições também entram na conta.
Usando e abusando dessa influência para escapar. Pior, usaram, em várias ocasiões, dessa influência para desviar dinheiro público para si e para seus comparsas. Com emendas Pix, nomeação em cargos de estatais, e o que mais de instrumentos do Estado que estiverem à mão haja – ou seja, todos – para se manterem no poder, corromperem e serem corrompidos.
A falta de vergonha chega ao ponto de um dos candidatos insultar a inteligência do público pedindo a abertura de seus sigilos bancário e telefônico, e a divulgação dos dados obtidos a partir destas fontes. E ainda desafiando o outro a fazer o mesmo. Como se isso fosse prova de idoneidade. Uma postura de “nada a temer”,
Todos sabem (como apontado por este Viletim, na semana que passou) que bandidos não utilizam a própria conta para guardar dinheiro vindo de seus crimes. Usam “laranjas” para tanto.
O pragmatismo da vida cotidiana, que nos obriga a escolher um dos candidatos, sob argumentos como “alguém vai ter de exercer o cargo de presidente mesmo, então vamos escolher o menos pior”, encara cada indivíduo como parte de um gado. Um rebanho de bovinos pachorrentos, que comem seu capim, para engordarem e um dia serem abatidos. Conformados e satisfeitos.
A diferença é que o bovino brasileiro, nesta metáfora, não engorda tanto. Mesmo assim, os governantes o abate para se aproveitar de sua carne. Se morre antes do abate, os políticos, como urubus, ainda se aproveitam da carcaça.
Chegamos ao ponto trágico de cada eleitor brasileiro ser obrigado a escolher o futuro presidente da República entre dois “malvados favoritos”. Que possuem estatura moral equivalente à altura física de um minion. Minto: são ainda mais baixos.
Os minions, pelo menos, são figuras divertidas nos desenhos animados. Gru, o malvado favorito e líder dos minions, no primeiro filme, começa a abandonar sua vida de vilão e, na continuação, passa a perseguir outros vilões.
Não há esperança que nos permita pensar que um dos candidatos deixará sua vida de vilão, como fez Gru, e utilizará seus minions para o bem, tornando-se um herói.
Como cantava a banda Kid Abelha, nos longínquos e ingênuos anos 80:
“Ninguém vai resistir / se eu usar os meus poderes para o mal”.



