O vírus que a maioria carrega e poucos levam a sério
Ginecologista explica por que vacinação, rastreamento e exame preventivo formam a linha de frente contra uma doença que mata 19 mulheres por dia no Brasil
Ginecologista Milena Goes, da Santa Casa de Piracicaba
“Se tem um câncer que podemos erradicar, é o de colo do útero”, alerta a ginecologista e obstetra da Santa Casa de Piracicaba, Milena Góes. E o alerta da médica não é retórico. Ele se apoia em uma particularidade que distingue o câncer de colo do útero de quase todos os outros: quase 100% dos casos têm causa conhecida, rastreável e prevenível — a infecção persistente pelo Papilomavírus Humano, o HPV.
No Brasil, o câncer de colo do útero é um dos mais incidentes entre mulheres. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, são estimados 7.010 novos casos por ano e cerca de 7.209 mortes anuais pela doença. Somente em 2025, a projeção indica que 19 mulheres morreram diariamente no país em decorrência de um tumor cuja cadeia causal começa, em quase todos os casos, com um vírus para o qual existe vacina disponível no Sistema Único de Saúde.
Pesquisa do Ministério da Saúde revelou que 54,4% das mulheres e 41,6% dos homens que já iniciaram a vida sexual carregam algum dos cerca de 200 tipos conhecidos do vírus. Ao menos 14 desses tipos são classificados como de alto risco para o desenvolvimento de câncer.
A ginecologista afirma que o caráter silencioso da infecção é o principal obstáculo à detecção precoce. “O HPV é silencioso na maioria das vezes. A infecção costuma ser assintomática, e é justamente por isso que o rastreamento regular faz tanta diferença”, explica ao salientar q ue o papanicolau — exame que persiste como instrumento central do rastreamento — permite identificar lesões precursoras antes da progressão para o estágio invasivo. “É a tradução prática de um princípio elementar da medicina preventiva: intervir enquanto a doença ainda pode ser revertida”, salienta.
A vacinação é o centro da estratégia preventiva. A vacina disponível no SUS protege contra os tipos 16 e 18 — os mais associados ao câncer cervical — bem como contra os tipos 6 e 11, responsáveis por 90% dos casos de verrugas genitais. A médica ressalva, porém, que a imunização não dispensa o acompanhamento: “A vacina protege contra os tipos mais agressivos, mas não cobre todos. O Papanicolau continua sendo indispensável. “
O uso de preservativos nas relações sexuais também integra o conjunto de medidas de proteção. Embora o câncer cervical seja o tumor mais frequente entre os associados ao HPV, o vírus pode originar também cânceres vaginais, vulvares, anais e de orofaringe. O SUS oferece tratamento gratuito tanto para o HPV quanto para os cânceres decorrentes da infecção.
“Quando a pessoa entende que o HPV é comum, que pode ser prevenido e que o sistema público oferece vacina, exame e tratamento, ela passa a usar esses recursos. E isso salva vidas”, conclui Milena Góes.
No Dia Mundial de Conscientização do HPV, 4 de março, o recado da ginecologista é preciso: a prevenção já existe, está disponível e é gratuita. O que ainda falta, em muitos casos, é a decisão de usá-la.




