A filosofia da ciência se desenvolve quando ela se desvincula da preocupação imediata de dar resultado prático, visando o desenvolvimento de tecnologias, que é hoje a função da ciência aplicada. Em artigo anterior, já apontei a diferença entre ciência e tecnologia e filosofia da ciência.
O pano de fundo da reflexão científica é filosófico. No entanto, a necessidade do mundo contemporâneo de obter resultados práticos distorce essa filosofia em direção ao campo instrumental.
A avidez da sociedade por explicações científicas que levem à elaboração de equipamentos ou conceitos capazes de dar conta de necessidades do dia a dia acaba por estabelecer uma relação deletéria com a filosofia em seu sentido amplo, que não deve ter esse mesmo objetivo imediato.
A confusão, em certas instituições de pesquisa, acaba se tornando norma a favor da ciência aplicada, e a filosofia é ignorada totalmente. Muitas vezes isso se dá porque a filosofia da ciência não é devidamente compreendida.
Os próprios filósofos se perdem nessa discussão, criando até antagonismos, onde deveria haver um trabalho de ajuda mútua. Porque a filosofia da ciência pode sim contribuir e muito com a reflexão sobre a ciência aplicada. Há, portanto, um campo de tensão entre as partes. Não são poucos os cientistas, inclusive de renome, que tratam a filosofia com desfeita, como se fosse uma perda de tempo, uma divagação sem sentido.
Depois de velho, comecei a ler A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Meu filho, estudante de física na USP, me deu a obra de presente. Achei curiosa a preocupação dele: ter um material científico em mãos “que nos trouxesse a verdade sobre a natureza”.
Desde Pitágoras, ou antes ainda, se tem especulado sobre a natureza, sem se chegar a um denominador comum sobre seu mecanismo. Supomos que a natureza deva corresponder ao que pensamos sobre ela ou como a vemos. No primeiro caso, a gente pensa, delimita a área de atuação a partir do que se pensou e a natureza começa a se iluminar para nós. Se houver alguma aproximação entre o que pensamos e a manifestação da natureza, supomos estar no caminho certo da nossa investigação. A partir daí, chegamos a conceitos sobre o objeto investigado, que acreditamos ser a verdade.
Desde a origem da filosófica ocidental, em seu sentido clássico, grego, há duas formas de pensar: platônica e aristotélica. São linhas consideradas até hoje pelos cientistas de envergadura intelectual, intuitiva e experimental. Porque o primeiro não acredita imediatamente no que se vê. O segundo é mais empírico e gosta de pesquisa em campo. Platão e Aristóteles abriram as portas tanto para a filosofia pura como para a filosofia da ciência (formal).
Fico impressionado quando converso com cientistas que simplesmente desconhecem os dois pensadores e fazem estrago com pensadores contemporâneos por causa dessa falha de formação. Platão olha para a natureza e considera os objetos sensíveis incompreensíveis se não refletirmos primeiro sobre eles. A dialética platônica é esse exercício de colocarmos a razão a serviço do conhecimento para que possamos compreender o que está ao nosso redor.
Aristóteles, que era filho de médico, era um empirista por excelência. Tornou-se o pai do pensamento formal, aquele que vai a campo, seleciona, investiga, classifica e supõe ter compreendido o que analisou. Costumo dizer que ambos se complementam e não se excluem. Inclusive porque o segundo foi aluno do primeiro e propôs uma metafísica diferente, trazendo a forma abstrata de Platão para os objetos investigados.
Gosto de citar Karl Popper nesse contexto, porque ele considera a conhecimento científico uma obra aberta. Para o austríaco, tudo o que sabemos sobre a natureza, independente do caminho que seguimos, deve ser colocado à prova constante. Científico é todo o conhecimento que pode ser superado, a partir de novas bases conceituais. O resto é dogma.
O fato é que a ciência não tem tido a filosofia como suporte. O cientista italiano Carlo Rovelli percebeu isso e começou a estudar com mais profundidade a história da filosofia e refletir sobre ela. Suas teses estão longe de ser consensuais, mas sua atitude é animadora.
Voltando a Darwin, fiz uma pesquisa rápida pelo ChatGPT e fui informado que o pensador da natureza cita mais de 700 vezes que determinadas constatações suas, consideradas científicas, é uma opinião, estilo ‘eu creio que’, ‘eu suponho’, ‘penso que’ e por aí a fora. Com isso ele deixa aberta a possibilidade de estar em um terreno de dúvidas.
Nesse sentido, Karl Popper tem razão. Há muitos vazios no conhecimento científico que precisam ser preenchidos. Muitos dos quais são preenchidos com dogmas científicos, considerados conhecimentos científicos. Volto à vaca fria de que o assunto é vasto e polêmico. No próximo artigo dou mais alguns passos sobre minhas observações e meu entendimento sobre o tema.



