Filmes brasileiros buscam uma identidade nacional também na linguagem, afirma pesquisadora
Tese do Instituto de Artes da Unicamp mostra como os roteiros revelam aspectos próprios do cinema brasileiro

Durante muito tempo, um senso comum atravessou conversas de críticos e cineastas no Brasil: a crença de que o cinema nacional teria um problema crônico com roteiros. A tese de doutorado defendida por Natasha Romanzoti Graziano no Instituto de Artes (IA) da Unicamp desmonta essa ideia com um conjunto de documentos, entrevistas, análises detalhadas e um cuidado historiográfico que ainda era necessário à pesquisa brasileira. “Faltava um material que tratasse o roteiro com a mesma seriedade teórica e histórica dedicada à direção e à montagem. Não havia um panorama que organizasse essas práticas”, afirma.
Em vez de abarcar toda a história do cinema, a pesquisadora fez um recorte preciso: analisou cinco roteiros brasileiros de longa-metragens de ficção de décadas diferentes, cada um representativo de um modo de produção e de um momento estético. São eles: O Caçador de Diamantes (1934), O Homem do Sputnik (1959), O Bandido da Luz Vermelha (1968), Central do Brasil (1998) e No Coração do Mundo (2019). A autora explica que a seleção do conjunto não teve a intenção retratar todo o cinema nacional, mas permite enxergar mudanças profundas na cultura dessa escrita ao longo do tempo. “Esses filmes formam uma espécie de linha do tempo possível. Cada um abre uma janela para o que estava acontecendo com a roteirização naquele período.”
Para isso, Romanzoti parte da ideia de que o roteiro deve ser entendido em três dimensões: como formato textual, como prática de escrita dentro de uma cadeia de produção e como discurso sobre o próprio cinema. Essa abordagem, que dialoga com autores como Steven Maras, ajuda a compreender a complexidade do que se pode chamar de “roteiro” no Brasil. “Quando falamos em roteiro, precisamos perguntar: de qual estamos falando? Do documento? Do enredo? Da prática? Do que vai para o set? O termo abriga tudo isso”, afirma. A tese, segundo a pesquisadora, observa o roteiro enquanto documento, analisando o seu formato.

Um dos achados mais fortes da pesquisa é a constatação de que o improviso, muitas vezes interpretado como ausência de planejamento, na verdade é uma característica estrutural do roteiro brasileiro. “Não é improviso no sentido de descuido. É uma abertura prevista, que permite incorporar a realidade da locação, o ritmo daquele espaço, as possibilidades concretas de filmagem”, diz a autora. Essa flexibilidade aparece tanto em filmes de baixo orçamento quanto em obras marcadas por ambições estéticas documentais. Segundo ela, isso pode ter motivações diversas: “Às vezes, é uma escolha artística; às vezes, é uma questão orçamentária. Mas está no papel; está previsto.”
Os roteiros analisados ajudam a desmontar a crença de que obras importantes do cinema nacional teriam sido criadas de forma espontânea. Ainda que alguns diretores tenham defendido o gesto intuitivo como ideal estético, os documentos estudados mostram que, mesmo nesses casos, há estrutura, sequência, indicações de ambiente e intenções formais claras. “O mito do cinema brasileiro sem roteiro não se sustenta. Ele é fruto de declarações públicas, de percepções sobre o processo e de idealizações sobre o que seria criatividade. Mas, empiricamente, eles existem e são sólidos”, diz Alfredo Suppia, professor do IA e orientador da tese.
Outra característica identificada é o que Romanzoti chama de “retórica brasileira” — uma atmosfera que permeia esses textos e busca ancorar a narrativa na experiência nacional. “Há um desejo muito forte de fazer filmes brasileiros, no sentido de incorporar espaços, personagens e conflitos que só fazem sentido aqui. É uma intenção que aparece escrita nos roteiros, muitas vezes desde a primeira linha”, explica. Essa marca, que pode ser lida como um esforço de construção de uma identidade cultural cinematográfica própria, de representação de especificidades brasileiras, atravessa os cinco filmes analisados, ainda que de maneiras muito diferentes.

A tese também revela um dado estrutural importante: o Brasil praticamente não teve, ao longo do século 20, roteiristas dedicados exclusivamente ao cinema. “É muito comum que o roteirista seja também diretor, jornalista, dramaturgo, escritor, montador, roteirista de TV. A cultura de produção sempre foi muito híbrida”, conta Romanzoti. Esse trânsito entre diferentes linguagens marca profundamente a escrita cinematográfica no país. Suppia complementa: “Não tivemos um sistema de estúdios com equipes estáveis de roteiristas como nos Estados Unidos. Aqui, a escrita veio o tempo todo contaminada, no melhor sentido, por outras práticas artísticas e industriais”.
Entre as hipóteses levantadas está a de que a força da televisão brasileira, especialmente das telenovelas, pode ter influenciado modos de estruturar personagens, conflitos e cenas no cinema. “Faz sentido pensar em um diálogo com outros meios, como rádio e TV, e com outros produtos audiovisuais, em especial a telenovela, na criação e formatação das narrativas, como algo que deixe vestígios na escrita cinematográfica”, afirma a pesquisadora, ressaltando que essa ainda é uma hipótese inicial que merece investigação futura.
Romanzoti ressalta que compreender os roteiros não significa apenas comentar um documento técnico, e sim acessar a intenção estética do filme desde antes de a câmera ser ligada. “No roteiro vemos o país que será filmado, e também o país que se deseja filmar. Ele é um protagonista silencioso em todas as etapas da produção audiovisual, da pré-filmagem à montagem”, diz. Para o orientador, estudar esses textos é abrir uma porta para entender o cinema brasileiro por dentro, por suas engrenagens. “O roteiro revela o pensamento do filme. Documenta escolhas, conflitos, limites, ambições. É uma fonte histórica de primeira ordem.”
A tese também aponta que a própria academia ainda carece de material organizado sobre o roteiro em contextos de produção especificamente brasileiros. “Faltavam compilações históricas e discussões teóricas aplicadas ao caso brasileiro. Muitos dos textos disponíveis eram fragmentados, limitados a décadas ou a autores específicos”, explica Romanzoti. Ainda assim, os pesquisadores concordam que a pesquisa não busca fechar um panorama definitivo, mas abrir um campo de estudo e oferecer um mapa inicial para quem quiser seguir investigando. “O roteiro é um olhar para dentro. Estudar esse olhar é entender melhor aquilo que vemos na tela e também aquilo que não vemos”, reflete a autora.
Matéria: Marina Gama | Jornal da Unicamp.



