Ora-pro-nóbis potencializa teor proteico de insetos
Efeito foi observado em estudo da Unicamp, em larvas de duas espécies de besouro em estágio avançado de desenvolvimento

Uma proteína animal acessível, versátil e sustentável, que pode ser produzida com poucos recursos naturais e financeiros, de forma limpa e ecológica. Com tantos predicados, não surpreende que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) recomende a inclusão de insetos na alimentação humana, seja como medida para ajudar a reduzir a fome global, seja para frear o esgotamento dos recursos naturais do planeta. Porém, para suprir essa demanda, é preciso realizar mais pesquisas e explorar possíveis maneiras de tornar mais nutritivas as espécies comestíveis. Quem faz o alerta é a bióloga Ana Lucia Marigo, que analisou a composição nutricional de duas espécies de insetos em sua pesquisa de doutorado.
Marigo realizou seu trabalho sobre insetos voltados para a alimentação humana e animal na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp, sob a orientação das professoras Juliana Fracarolli, da própria Feagri, e Michelly Soares, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). “O objetivo não foi pensar em algo para substituir as proteínas animais que já cumprem esse papel, e sim avaliar novas alternativas, que possam ser consideradas como mais uma opção alimentar. A proteína de insetos é excelente inclusive para minimizar os impactos climáticos, pois sua produção gera bem menos gases de efeito estufa do que outras opções – e gasta muito menos água”, justifica.
A ideia da pesquisadora foi analisar a composição nutricional de larvas de duas espécies de besouro, denominadas Tenebrio molitor (conhecido popularmente como tenébrio) e Zophobas morio (chamado de tenébrio-gigante), quando alimentadas com a verdura ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata). Bastante consumidos em todo o mundo, no Brasil esses dois insetos podem ser adquiridos por criadores regulamentados. Em pet shops e lojas de artigos para pesca, são vendidos como alimento para animais de estimação e também como isca para pescaria.
A produção e a venda para consumo humano no país ainda não são permitidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Alguns dos locais que têm legislação aprovada para consumo de insetos por humanos são os Estados Unidos, o Quênia, o Canadá, o México, a Austrália, a Coreia do Sul, a Costa Rica, a Tailândia e a China”, cita Marigo. Em diversos países do continente europeu, tais como Portugal, França e Alemanha, farinhas e snacks próprios para alimentação humana, fabricados com proteína de insetos, estão sendo vendidos em supermercados.

Muito antes de seu valor comercial ser descoberto, as larvas da dupla tenébrio e tenébrio-gigante já eram bastante conhecidas no meio agrícola, diz Fracarolli, explicando que os dois insetos são considerados pragas, com apetite especial para grãos e cereais estocados em silos e armazéns. “A pesquisa da Ana traz uma nova visão sobre duas espécies que costumamos encarar como pragas pós-colheita, mostrando que, se devidamente criadas para esta finalidade, as larvas desses insetos também podem servir de alimento para humanos e animais”, ressalta.
Trepadeira nativa das Américas, classificada como planta alimentícia não convencional (Panc) e bastante utilizada para fins medicinais – por ser rica em compostos antioxidantes, vitaminas e fibras –, a ora-pro-nóbis foi incluída no estudo por possuir teor elevado de proteína. Segundo Marigo, popularmente, é conhecida como “carne dos pobres”.
Para examinar a viabilidade do emprego da planta como alimento para insetos, a pesquisadora realizou alguns experimentos preliminares. Neles, trabalhou com larvas de T. molitor em diferentes fases de crescimento, que foram alimentadas exclusivamente com farinha de ora-pro-nóbis (100% de concentração). Ao final, foi observado que 93% das larvas em estágios mais jovens morreram após a ingestão da farinha. As mais velhas, por sua vez, passaram incólumes. Essa descoberta, de acordo com a avaliação de Marigo, sugere o potencial da planta como inseticida natural para aquele grupo.
O foco principal da pesquisa foi investigar se uma dieta rica em ora-pro-nóbis aumentaria a quantidade de proteína presente na constituição das larvas dos insetos, esclarece a professora, explicando que já se sabe que a dieta do indivíduo pode influenciar na sua composição corporal. Para isso, foram conduzidos experimentos com três opções de alimentação diferentes. No primeiro, as larvas de T. molitor e Z. morio foram tratadas com farelo de trigo, apontado pela pesquisadora como a opção mais utilizada para alimentar as espécies. No segundo, os insetos receberam farinha pura de ora-pro-nóbis. No último, foi oferecida uma ração mista, que continha a farinha da planta e o farelo de trigo em doses iguais.
“Uma grande vantagem da ora-pro-nóbis é que o pequeno produtor – ou o produtor familiar – de insetos pode cultivá-la na própria propriedade, o que seria mais difícil no caso do farelo de trigo. Ao complementar a dieta dos insetos com essa planta, a criação torna-se mais sustentável e econômica”, ensina Marigo.
A análise da composição nutricional dos insetos mostrou que a dieta exclusiva com ora-pro-nóbis elevou o teor de proteína bruta em todos os casos testados – entre 7,14% e 14,9%. Contudo, além de ser mortal para as larvas mais novas, houve uma redução no crescimento geral dos insetos, pondera Marigo. Resultados mais satisfatórios foram obtidos com a ingestão da farinha mista, pois, além de apresentarem maior taxa de proteína em sua composição, as duas espécies tiveram um melhor desempenho em crescimento e ganho de peso. “Essa opção demonstrou ser mais sustentável e viável para a produção de proteína de insetos de alta qualidade, sem sacrificar a qualidade do sistema de produção”, conclui a autora da tese.
Matéria: Mariana Garcia | Fotos: Antoninho Perri e Antonio Scarpinetti | Jornal da Unicamp.



