À esquerda, João Chiarini. À esquerda também, José Maria Ferreira.
Não é sobre o conto de James Joyce, este fica para outro dia.
Uma das minhas profissões ocupa-me dos mortos. O historiador convive diariamente com eles. De alguns, torna-se amigo, e um ou outro até se torna íntimo. Com outros, só lhes falamos por senso de dever, por necessidade.
Muitos deles me fascinam. Há duas pessoas, dentre todas, que gostaria de tê-las conhecido pessoalmente, e conversado pelo menos uma vez.
São duas figuras de Piracicaba, minha cidade, cuja história estudo, entre tapas e beijos, desde 1995. Sou o duvidoso especialista em um assunto restrito, pequeno e que pode se esgotar dali a pouquinho. Completando trinta anos nesta lida, ainda não dá sinais disso, graças a Deus, e vou seguindo.
Quanto mais leio os velhos jornais, revistas e documentos, quanto mais mergulho nesse passado que fica menos embaçado (nunca ofuscantemente claro, o passado sempre será um mistério), mais me dá vontade de tomar um café na Livraria Pilão, na década de 1970, e bater um papo sobre arte (piracicabana, óbvio), com o João Chiarini e o Zé Maria Ferreira.
Eu sei, vai rir quem os conheceu pessoalmente, principalmente de Chiarini. Chiarini era folclorista, advogado e autodenominado intelectual; com os que conversei, sobre ele, dizem que era grosseirão. Ele usava muito o termo “caipiracicabano”, criado por Tales Castanho de Andrade, mas ele mesmo teria sido um caipira no sentido mais pejorativo: provinciano, “dono da verdade”, arrogante, militante comunista fichado mas, incoerentemente, puxassaco e secretário por quase trinta anos de Mario Dedini, industrial e milionário, justamente o capitalista que deveria condenar.
Professor de escola pública e de tantas escolas particulares, “metido a intelectual”, mais metido do que intelectual, contava seu conhecimento pelo número de livros que tinha. Metido ou não, correspondia-se com grandes autores e intelectuais de verdade, como Jorge Amado e Mario de Andrade, e toda uma entourage, uma plêiade, uma caterva, de acadêmicos brasileiros e estrangeiros. Esses livros e cartas, além de uma vasta documentação sobre folclore e memória de Piracicaba, hoje estão no Centro Cultural Martha Watts e correm o risco de desaparecer, se der na telha da moribunda Unimep de jogar tudo numa caçamba de lixo ou tudo incinerar, para liberar espaço.
Apaixonadamente contraditório, explosivo, dono de um estilo de escrita caótico, cheio de energia, Chiarini amava Piracicaba. É possível verificar, nos muitíssimos artigos que publicou em todos os jornais da cidade, que essa paixão descia até os mínimos detalhes. A ponto dele saber quem tinha morado em qual casa, em tal rua, e a família que ali morava, com direito a enumeração da árvore genealógica até os tempos do capitão-povoador Antonio Correa Barbosa.
Zé Maria, pelo contrário, tem-se na conta de pessoa muito doce e amável. Tão amável que gostava muito de Chiarini, foi parceiro em vários empreendimentos culturais. Mas diz-se também que era rabugento, raivoso, com desmandos de poderosos e com a indigência do ambiente da cultura local. Tendo passado dois anos no exterior, um ano na Escócia, outro ano na Flórida, dá para entender. Percebe-se, nos textos que deixou, a luta que travou, com os amigos Ermelindo Nardin, Cecílio Elias Netto, Alceu Righetto e outros, contra o grupo político dos artistas acadêmicos, hegemônico na “Noiva da Colina” das décadas de 1970 e 80.
Eu poderia ter conhecido tanto Chiarini quanto Ferreira, quando ainda caminhavam por nossas ruas. Chiarini despediu-se deste vale de lágrimas em 1988; Zé Maria, em 1991. Porém, em 1988, ano em que eu poderia, talvez, acessar aos dois, eu ainda era um adolescente de 14 anos, espinhento, tímido e ignorante. Estava mais preocupado com a minha bicicleta e os meus gibis, do que com a história cultural da cidade.
Riam, portanto: rirei com vocês. Mas saibam. Posso dizer que os conheço, ao menos às suas personas literárias. Sei de um pedaço de suas almas, e muito do amor que tenho por Piracicaba é o amor por uma cidade que não existe mais, e que eles me apresentaram, dois inglórios e irreconhecidos combatentes de um campo de atuação ingrato, que é a cultura. Conheço um pedacinho de suas almas pelos textos que pouquíssima gente, hoje, se lembra ou leu, artigos de jornais e revistas, e até folhas datilografadas, que ainda não foram reunidas em livro*.
Batalhas hoje esquecidas, por edifícios históricos que foram derrubados, pelo direito de artistas exporem suas obras. O esfalfar de Zé Maria em livros antigos e jornais velhos para trazer do esquecimento os escritores, jornalistas e pedagogos do “Bloomsbury Caipira”. Ou o batucar da máquina de escrever de Chiarini a respeito de pintores que só Chiarini se lembrou de registrar.
Espano o pó das prateleiras das pastas de recortes, acesso aos microfilmes de velhos jornais, tomo o maior cuidado com antigas revistas que se esfacelariam em minhas mãos, não fosse o amor que devoto a elas, e ouço o que o João e o Zé Maria têm a me dizer.
Ouço, e tomamos o nosso café.
*A única publicação que localizei com textos de João Chiarini, até o momento, é o livro de poemas “Argamassa”, publicado postumamente em 1993 pela Academia Piracicabana de Letras, que foi fundada por ele.
De autoria de José Maria Ferreira, a Orquestra Sinfônica de Piracicaba reuniu os artigos da série “O Mundo de Fabiano Lozano”, publicados no Jornal de Piracicaba em 1986, em uma brochura, sem indicação de editora, em 2008.




Bacana!!! Adorei!