Aula de otimismo em gotas
Na TV e no celular, nada mudou, a não ser a certeza de que precisa mudar
Uma semana difícil para o eleitor brasileiro. Ele acordou cedo, tomou café e foi ao trabalho. Cansado, de volta, enfrentou o noticiário na TV e constatou que seus possíveis candidatos à presidência estão cada vez mais irreconhecíveis.
Um, fala em taxar os EUA, seguindo a regra da reciprocidade ao tarifaço. O outro fala em beneficiar os pobres com cartão de crédito da Caixa. O eleitor brasileiro não entende nada. Parece que ele está em outro mundo, bem mais difícil de viver.
Começa a desconfiar do seu candidato e diz à moça da pesquisa que bateu em sua porta: “Ainda não tenho candidato. Pensava em votar em um, depois mudei para o outro. Agora, não voto nem em um, nem no outro, muito pelo contrário”.
Confusa, a moça da pesquisa colocou no formulário: “Indeciso”. No fundo, o eleitor brasileiro não estava indeciso. Estava com certeza do que deveria fazer. Seus candidatos é que estavam enlouquecidos, querendo cumprir funções bem distantes de um pensamento sensato.
“Onde já se viu retaliar os EUA? Com que força? Onde já se viu transformar a Caixa em banco de pobre? Vai estatizar? Mas Lula não era o cara da química de Trump? Flávio não era o liberal? E eu que sou o indeciso?”, pensou.
O eleitor brasileiro só não está mais desanimado com a vida porque no final de semana tem Copa do Mundo, com bons jogos, custo baixo e descontração garantida. Isso vai distrair um pouco sua cabeça.
Mas logo, na segunda-feira, tudo volta ao normal e o normal e anormal, porque voltará a ver e ouvir algum candidato fazendo promessas irreais na TV e em seu celular. Nenhum fala em negociar. Nenhum fala em projeto educacional. Nenhuma fala em segurança pública. Nenhum fala em controlar a inflação com cortes de gastos. Nenhum fala o que precisa ser falado.
O salário do eleitor brasileiro não está dando para quase nada, depois que paga as contas. É rezar para ninguém da família ficar doente. É rezar para o cachorro ficar em paz. É rezar para que o carro não quebre. Se alguma coisa acontecer, o cartão de crédito volta ao vermelho e o mês está comprometido.
O eleitor brasileiro pensa novamente: “Até que tenho um bom emprego. Até que tenho um bom salário. Mesmo assim, estou sempre no limite, sem dinheiro sequer para uma escapadinha no final de semana à cidade vizinha, para fazer um turismo regional, como a esposa pede sempre. Não dá. Tenho que me conter”.
Ele se lembra de que tem se contido desde que se casou e lá se vão algumas décadas. Percebe então que passou dos 60 anos e ainda vive uma vida de mer$%#@da.
Em quem ele vai votar? Adianta votar se os candidatos são iguais, cara de um, focinho do outro? Será que haverá um outro nome competitivo? Ele resolve ligar a TV e ver alguma coisa. Nos comentários políticos estão lá os analistas dando a certeza de que não há nada de novo no horizonte.
Desliga a TV e ler um pouco antes de dormir e sonhar com o tempo em que perambulava pela vida sem destino, sem saber o que fazer do amanhã. Agora ele sabe. Vai resistir, porque tem certeza de que merece uma vida melhor!




