“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”
— Graciliano Ramos
Quero discordar do mestre: palavras são ouro falso. Embora Nietzsche dissesse que sempre há um desprezo no ato de falar. A palavra já nasce morta.
Mas também disse Caio Tito, quase dois mil anos antes de Michel Temer: verba volant, scripta manent. “As palavras faladas voam, as escritas permanecem”.
Quero acreditar que a palavra é ouro. Ouro falso ou verdadeiro, não importa, me iludo com o seu brilho, quero me iludir, preciso me iludir.
Na verdade, Graciliano não sabe para que as palavras foram feitas. Não é desdouro ao mestre de Vidas Secas, é que ninguém sabe mesmo para que, exatamente, foram feitas. Somente Um sabia o que dizia quando suas palavras, as primeiras proferidas oralmente, foram registradas em texto escrito: “Faça-se a Luz”.
É próprio do escritor, quanto maior seja, pensar saber. Minto e aumento um ponto: acredita piamente, de verdade verdeira, que sabe bem o que diz. No interior do seu coração, no mundo dourado de seu próprio entendimento, ele está correto, corretíssimo.
Repito, não quero acreditar no mestre, nem em Nietzsche. Embora reconheça que há uma esperança embutida no autor alagoano, pois nos diz que há mentira e verdade, beleza falsa na enganação das bijuterias e uma verdade na beleza no que é dito, se deseja espelhar, mostrar ou significar a Verdade.
Mas “exuberância é beleza”, segundo William Blake, e se a Beleza é uma face da Verdade, então não podemos desprezar o brilho da exuberância, mesmo sendo a beleza do ouro falso.
Tenho, mesmo, verdadeiro desprezo é pela frase do alemão. Mas a verdade não depende da minha vontade. Reconheço que a verdade pode estar na boca das crianças, de velhos ranzinzas e até numa embalagem de comida congelada descartada no lixo. Pode haver o brilho de ouro em qualquer lugar, mas não tenho competência para saber se ele é falso ou não.
Pois me forço a reconhecer o esplendor de um reluzir dourado na frase nietzscheniana. Ainda que seja um brilho embaçado de ouro de tolo.
Apesar das ponderações de Nietzsche e Graciliano, tenho esperança na palavra, mesmo que morta em minha mente, mas presente no coração, apesar de tudo correr contra ela: a vida, os homens, o mundo, e até os sábios nos livros.



