Geroma estava muito brava, porque uma médica tinha sido assassinada na África.
Ela não estava triste. Ela sentia ódio.
Geroma acompanhava o trabalho da dra. Eliana Gonçalves, Médica Sem Fronteiras, há uns dois meses. A doutora era brasileira e trabalhava no Sudão, atendendo refugiados de guerra.
Pois a professora de Português da Geroma, dona Lina, havia pedido um trabalho na classe. Os alunos tinham que escolher um evento de um país distante, para pesquisá-lo via Internet. Ganharia mais pontos quem fizesse uma entrevista com a pessoa responsável.
Geroma tomou coragem e entrou em contato com a médica, que foi atenciosa, respondeu a todas às perguntas. O máximo foi quando ela disse à Geroma, pelo Zoom: “Espero que um dia você venha se juntar a nós, Gerônima. É um trabalho difícil, mas é ótimo deitar a cabeça no travesseiro à noite e ver que o seu trabalho no dia serviu para diminuir um pouco da dor do mundo”.
Então, a dra. Eliana tinha se tornado o seu ídolo, ou melhor, sua “ídola”.
E agora, a dra. Eliana tinha sido assassinada, por causa dos capitalistas nojentos que haviam escravizado o povo africano e o transformado num quintal das indústrias nojentas da Europa e dos Estados Unidos.
Estava tão indignada que mandou uma mensagem para todos os seus amigos do Facebook.
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O Caetano, seu colega de Grêmio Estudantil, tinha emprestado a ela um pen drive com um monte de livros legais em arquivos pdf: a História do Movimento Operário no Brasil, textos do Luís Carlos Prestes, do Paulo Freire, do Leonardo Boff, do Frei Betto, da Judith Butler, e, o mais irado, as obras completas de Karl Marx, em português!
Mas também tinha vários vídeos denunciando a cadeia de produção, a destruição do meio ambiente pelas megacorporações transnacionais, filmes do Michael Moore, vídeos do MST, dos movimentos dos sem-teto, e ainda mais - lá estavam “Ilha das Flores” e “Muito Além do Cidadão Kane”.
Ela viu primeiro vários vídeos, odiando ainda os capitalistas financistas internacionais que haviam matado a dra. Eliana, que só fazia o bem e tinha sido assassinada sem poder revidar. Quando terminou, começou a ler os textos, começou pelo Manifesto Comunista, que ela admirou como uma obra-prima de instigação das massas.
Depois passou para “O Capital”, direto. Ela foi ficando com sono, com sono...
Acordou com um “plim” do WhatsApp, e viu a figura de um velho com cabelos e barbas brancas compridos, vestido de vermelho, com festões brancos ao redor do pescoço, na tela de bate-papo em video. Karl Marx falou:
- Gerônima! Eu te concedo o desejo mais profundo do seu coração. Você terá os poderes de desligar e ligar: quando você conscientizar alguém da injustiça do mundo, um Rolls-Royce vai cair de um barranco! Quando você tirar os excluídos da alienação, um McDonald´s vai explodir! Tudo o que fizer de bom para a causa dos excluídos vai destruir um produto da mais-valia e da exploração burguesa!
“Vai poder usar esses poderes para o bem dos excluídos ou para o bem das classes dominantes. A escolha é sua, mas lembre-se: salvar a Terra dos grilhões da exploração do Homem pelo Homem depende da união dos proletários do mundo todo, mas começa com VOCÊ!”
Karl Marx desligou e entrou um post com gente morta na timeline.
E agora? Era sonho? Era ilusão? Ela não estava chapada, ela não estava bêbada: eram três horas da tarde! Saiu correndo, foi procurar o Caetano.
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- Vamos testar isso.
Os dois começaram a distribuir um folheto sobre a exploração feita pelos burgueses nojentos capitalistas para os operários da metalúrgica na saída do serviço. A cada operário que leu o texto, uma criança se salvou da fome em Capão Redondo, para ficar gorda de tanto comer salgadinho Yokitos.
Geroma ligou o alto-falante da Brasília do avô do Caetano, que começou a recitar um texto do Greenpeace sobre a morte das baleias. Para cada pessoa que ouviu, uma criança salvou-se da guerra dos morros no Rio de Janeiro, e sobreviveu para pular o carnaval na Sapucaí.
- Nós podemos ser mais ousados, Caetano. Nós podemos salvar realmente o mundo!
Quando eles preparavam-se para jogar um coquetel Molotov na retransmissora da Rede Globo na cidade, os discos voadores pousaram, congelaram as ações violentas e iniciaram a era de paz no mundo.
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- Por que eu não consegui? A minha intenção era boa! – perguntou Geroma a KYZ-8052, o extraterrestre encarregado do Birô Regional para Assuntos de Frustrações Humanas.
- Você, mais do que ninguém, sabe que a resposta está dentro de você. Certo? – o ET olhou nos olhos dela, que respondeu, murmurando, inconformada: “sem-noção!”.
O ET deu o sinal para a continuação:
- O próximo!
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Ela ficou pensando, enquanto trincava um doritos nos dentes. O que dera errado? Primeiro a dra. Eliana, depois Karl Marx, e depois os extraterrestres. E havia acabado o benefício que causara à sociedade, cessara a corrente do bem que tinha começado com o Chamado de Marx na tela do Zoom.
Todas as pessoas que salvara da fome, da dor, da morte, tinham sido em número limitado. Não podia mais salvar ninguém, os ETs não permitiam mais que Ações Afirmativas como as que ela e o Caetano promoveram acontecessem na Terra, sob pretexto de não causar a violência entre os seres humanos.
O que ela podia fazer para contornar a ação dos alienígenas? Devia haver um jeito de continuar a salvar as pessoas! Elas continuavam a morrer, por causa das injustiças, da ganância e do lucro desmedido no Nordeste, na América Latina, no Sudão...
Foi um estalo do doritos que a lembrou da dra. Eliana: “Espero que um dia você venha se juntar a nós, Gerônima.”
Medicina! Ela iria prestar medicina!
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Naquela noite, ela sonhou que criava um vírus mortal para exterminar os extraterrestres.



