Na manhã de ontem (28), li com admiração o artigo de Fernando Reinach, publicado pelo Estadão. Para quem não o conhece, é biólogo, PhD em Biologia Celular e Molecular pela Cornell University, autor de vários livros, dentre os quais: “A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil”; “Folha de Lótus, Escorregador de Mosquito”; e “A Longa Marcha dos Grilos Canibais”.
Dá para perceber que o seu humor tem tudo a ver com o humor do site Viletim. Mas não é esta a questão. No artigo, ele trata dos períodos da história de sua vida em que os fatalistas traziam sempre notícias do fim do mundo: holocausto nuclear, explosão demográfica, fome por falta de alimento para todos e, atualmente, as mudanças climáticas.
Considerando que nenhuma previsão anterior se confirmou, ou seja, não houve guerra nuclear, não houve explosão demográfica, não houve falta de alimento e tudo indica, o mundo não vai sucumbir às mudanças climáticas, o artigo encerra assim: “Mas como diz a frase atribuída a Niels Bohr, a Yogi Berra ou mesmo a Mark Twain: ‘Previsões são sempre difíceis, principalmente se forem sobre o futuro’”. Eureka!
Meu relato sobre algo parecido passa pelo Fantástico. Sim, o programa de domingo da Globo. Eu era adolescente e já começava a chorar só de ouvir a musiquinha que dava vazão às novas de Cid Moreira ou Sérgio Chapelin. Recordo-me do ovo que entupia as veias do coração.
Aquilo me afetava diretamente porque minha família era bem simples e comíamos muito ovo frito, omelete, ovo mexido com farinha, folha de abóbora frita mergulhada no ovo, enfim. Minha mãe era muito criativa. Mas, devido à notícia, eu via minha família desaparecendo, um a um, vitimada pelo colesterol. Era infarto que não acabava mais.
Logo depois, ficamos sabendo que o ovo era muito bom, devido às suas propriedades, riquíssimas em vitaminas, cálcio e proteína. Ufa, a família toda foi salva e não morreria mais do coração. Menos mal. No entanto, esta contradição me despertou, pois serviu como um alerta para eu ficar esperto com a ciência, como tenho escrito.
O que mais me afetou mesmo foi o fim do Regime Militar, entrando para a democracia, com Sarney. Olha que sina. Período de muitas dificuldades. Minha família juntava dinheiro para comprar saco de arroz e de feijão de 60 quilos. Ter estoque de alimento era a salvação, até que a crise passasse. Fazíamos pão caseiro, enfrentávamos fila para compra óleo. Eu nem precisa mais espera o Fantástico para que meus olhos já se enchessem de lágrimas. Era o fim do mundo.
Mas tudo é passado e o humor se tornou o melhor remédio para mim. Dou gargalhadas até da minha desgraça. E vou vivendo. Mas por que tudo isso? Para mostrar como as pessoas estão presas por informações suspeitas. Elas não questionam nada. Principalmente quando a notícia é fatalista, é preciso ter cuidado. Menos, Batista.
Quando o extremo bate à porta, observe que há sempre algum sectário junto querendo te vender a bíblia do caos, mesclada com ideologias diversas. Não tenha medo, não precisa chorar esperando pelo pior. Só pergunte quanto a pessoa está ganhando com isso e verá que tem muita gente mercadejando seus sentimentos ou comendo ovo estragado. São profecias imbecis, que movimentam o mundo das ideias erradas.



