Homens e mulheres reagem da mesma forma à baixa oxigenação durante modalidade de exercício
Em uma simulação de altitude, o rendimento, e a fadiga caem igualmente, independentemente do sexo, demonstrou estudo com ciclistas

A fadiga durante exercícios físicos é um dos principais fatores que limitam o desempenho esportivo, principalmente em ambientes com menor oferta de oxigênio. Isso pode ser especialmente importante em certas modalidades esportivas, como as provas longas de ciclismo do Tour de France, em que os atletas competem até 2.400 m acima do nível do mar.
Durante essas situações, o corpo precisa se adaptar para continuar produzindo energia, o que pode afetar de forma diferente homens e mulheres — ou pelo menos é o que se acreditava até agora. As pesquisas, até então, apontavam que diferenças na composição muscular, maior densidade capilar e melhor resposta vasodilatadora em pessoas do sexo feminino poderiam influenciar essa resposta. Os resultados de um novo estudo porém, desafiam esta ideia.
Pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, em colaboração com a University of British Columbia e universidades brasileiras, investigaram se existem possíveis diferenças entre os sexos na forma como o corpo reage à hipóxia (baixa concentração de oxigênio) em uma prova de resistência. A análise mostrou que pessoas do sexo masculino e feminino apresentaram desempenho, fadiga neuromuscular e percepção de esforço muito semelhantes ao realizar um teste de ciclismo de 4 km sob hipóxia moderada.
Ambos os grupos tiveram quedas de rendimento parecidas e sentiram níveis semelhantes de cansaço, indicando que o sexo biológico não influencia significativamente a resposta do corpo à falta de oxigênio nesse tipo de exercício.
A motivação para a pesquisa veio de estudos anteriores com exercícios de pequenos grupos musculares, como o adutor do polegar, que indicavam menor fatigabilidade em mulheres, além de evidências semelhantes em exercícios de corpo inteiro em condições normais — mas ainda sem dados claros para o ciclismo sob hipóxia moderada.
Protocolo para avaliar desempenho e fadiga
A pesquisa foi conduzida com 17 ciclistas amadores, nove homens e oito mulheres, todos com níveis de treinamento semelhantes. Cada participante passou por quatro sessões em laboratório, incluindo testes de esforço e duas provas de 4 km de ciclismo: uma em ambiente com ar normal (normóxico) e outra em hipóxia moderada, simulando uma altitude de 2.700 metros.
Além do tempo de prova, os pesquisadores avaliaram diversos indicadores antes e depois do exercício, como força muscular, atividade elétrica dos músculos e a sensação de esforço percebido. A ideia era entender não apenas o desempenho, mas também o quanto os participantes sentiam e sofriam com a fadiga, tanto fisicamente quanto subjetivamente.
Todos os testes foram padronizados e realizados em condições controladas. A exposição à hipóxia foi feita por meio de uma máscara ligada a um gerador de ar com menos oxigênio, garantindo que todos estivessem sob as mesmas condições durante o exercício.
Impacto da hipóxia no rendimento de homens e mulheres
A análise da potência de pedalada mostrou que a redução de intensidade na hipóxia ocorreu principalmente entre 0,4 e 1,2 km de prova, seguida de manutenção até o final. Ainda assim, mesmo com essa queda inicial de ritmo, a sensação de esforço aumentou progressivamente durante toda a prova em hipóxia. Essa elevação de esforço percebido pode estar ligada ao aumento da ventilação pulmonar como mecanismo compensatório, e não apenas ao esforço muscular.
Embora os homens tenham completado o trajeto em menos tempo absoluto, o impacto da hipóxia foi proporcional em ambos os grupos: uma queda de aproximadamente 10% a 12% no desempenho. Mais importante ainda, os níveis de fadiga muscular e percepção de esforço também foram semelhantes

O resultado surpreende, considerando que mulheres tendem a apresentar maior proporção e área de fibras musculares tipo I, mais resistentes à fadiga, além de maior densidade capilar e resposta vasodilatadora, características que poderiam teoricamente atenuar o impacto da baixa oxigenação.
Para os autores, os dados indicam que, pelo menos nesse tipo de exercício, nesse nível de hipóxia e com ciclistas recreacionais, o sexo biológico não interfere de forma relevante na regulação da fadiga
Isso pode ter implicações importantes no planejamento de treinos e competições em altitude, onde é comum separar estratégias por sexo. Eles destacam, porém, que novos estudos são necessários com atletas de elite e em diferentes modalidades para confirmar se essa resposta é consistente em outros contextos.
O artigo intitulado No sex differences in performance and perceived fatigability during a self-paced endurance exercise performed under moderate hypoxia, com autoria de Julio S. Hasegawa, André C. Silveira, Rafael A. Azevedo, Julio Cezar Schamne, Maria Urbana Pinto Brandão Rondon, Marcelo Papoti, Adriano Eduardo Lima-Silva, Michael S. Koehle, e Rômulo Bertuzzi foi publicado na revista American Journal of Physiology e pode ser acessado na íntegra clicando aqui.
Matéria: Guilherme Ike | Jornal da USP.


