Palacete Luiz de Queiroz: da construção, tombamento à restauração
Imóvel histórico que marcou a modernização de Piracicaba é tema da série Achados do Arquivo; pesquisa reúne atas da Câmara Municipal de Piracicaba, processo de tombamento e estudos acadêmicos
Palacete Luiz de Queiroz guarda capítulos importantes da cidade - Foto: Gustavo Annunciato
A série Achados do Arquivo é movida por um assunto especial, o Palacete Luiz de Queiroz, e traz, a partir da consulta de diversas fontes de informação, o histórico que vai desde a sua construção, o tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) até sua restauração pelos atuais proprietários.
O “Achados” desta semana pode ser traduzido como sinônimo de sorte. Sorte por poder escrever, com base em materiais tão ricos, sobre essa obra arquitetônica que marca Piracicaba. Essa narrativa foi construída a partir da busca nas atas da Câmara Municipal de Piracicaba, do processo digitalizado de tombamento do Palacete, do Almanaque de 1900 de Manuel de Camargo, da dissertação do arquiteto Marcelo Cachioni e de uma entrevista com a professora Marly Therezinha Germano Perecin.
Quando Luiz Vicente de Souza Queiroz, com apenas 24 anos voltou ao Brasil, em 1873, na então cidade da Constituição (hoje Piracicaba), após 16 anos vivendo e estudando na Europa, em 1872, herdou, entre várias coisas de seu pai, Vicente de Souza Queiroz, o Barão de Limeira, a Fazenda Engenho d’Água, que era localizada à margem esquerda do rio Piracicaba. Munido de ideais progressistas, republicanos, liberais e abolicionistas, sempre buscou condições que dignificassem a vida na cidade e de seus cidadãos.
Movido pelo empreendedorismo e evolução, foi naquele mesmo ano de 1873 que ele montou ali, naquela fazenda, uma tecelagem de algodão, cuja denominação era Fábrica de Tecidos Santa Francisca, em homenagem à sua mãe. A inovação se deu a partir do potencial hidráulico do rio, que tinha força suficiente para mover as máquinas da fábrica.
Ainda mais realizador de suas ideias, iniciou também a construção do belíssimo Palacete em estilo neoclássico, que perdurou de 1873 a 1880.
“Entre estes dois últimos, a rua Prudente de Moraes e o rio está situado o palacete conhecido por «do Queiroz» em que ora reside o Dr. Buarque de Macedo. Na nossa opinião, aliás incompetente, é o único prédio em Piracicaba de absoluta correção arquitetônica. A isto adicione-se o belíssimo jardim que o circunda, a posição sublime sobre o salto e o rio, e poderemos quase chamá-lo seio de Abrahão.” (Manuel de Camargo, Almanaque de Piracicaba para 1900, em transcrição livre)
Buarque de Macedo entrará a posteriori na história; continuemos sobre Queiroz e seu palacete neoclássico ao estilo francês. Que Manuel de Camargo, ao chamá-lo de Seio de Abrahão, atribuía àquele lugar como o paraíso, um lugar de paz e descanso para os justos.
HISTÓRIA — Moço solteiro, Luiz de Queiroz precisava se casar, e foi com uma mulher da alta sociedade carioca, Ermelinda Ottoni, que este matrimônio se realizou. Filha do conselheiro e senador do Império, Cristiano Benedito Ottoni, e de Bárbara de Barros Ottoni, estava acostumada, segundo a professora Marly Perecin, a palácios e viagens. Como presente de casamento, Luiz de Queiroz ofereceu-lhe o Seio de Abrahão.
“Aí, o Palacete ainda estava incompleto no casamento e somente em [18]82 é que parece que o casal se instalou, porque em [18]81 ainda faltava mobiliário e uma série de acabamentos. Em 83, 1883, foi feita a grande recepção para a Princesa Isabel, o seu marido Conde d’Eu, e os três filhos herdeiros do trono. E, quando a cidade ficou deslumbrada com a iluminação elétrica, a luz elétrica, não só da casa, como dos arredores, da fábrica e arredores, a cidade inteira desceu para ver a maravilha que Luiz de Queiroz tinha introduzido em Piracicaba. Foi um momento, assim, antes e depois da vida da cidade. É um palacete francês, estava muito em moda, depois foi repetido em São Paulo.”
Situado entre as atuais ruas Prudente de Moraes, Treze de Maio, Antônio Corrêa Barbosa e a Avenida Beira Rio, possui um extenso parque com inúmeras plantas, muitas delas exóticas, outras trazidas de outros países, e palmeiras imperiais.
O arquiteto Marcelo Cachioni, em sua dissertação de mestrado, traz as seguintes informações sobre o Palacete «do Queiroz».
“Enquanto as casas urbanas continuavam a seguir a tradição construtiva paulista do período colonial, e outras incorporavam elementos que viriam a ser característicos do Ecletismo [...] Luiz de Queiroz construiu a primeira residência representativa da cidade nos moldes do Ecletismo europeu. O projeto do Palacete Luiz de Queiroz, segundo depoimento do historiador Noedi Monteiro, pode ter sido executado pelo engenheiro inglês Arthur Sterry, que foi trazido da Europa para construir a Fábrica de Tecidos de Luiz de Queiroz. [...] A escassez de profissionais arquitetos na região levou o empresário a trazer, em vários casos, arquitetos europeus, para desenvolver seus empreendimentos. Arthur Sterry, engenheiro inglês que foi trazido para construir sua tecelagem, a Santa Francisca, muito provavelmente deve ter sido também encarregado da construção da residência de Luiz de Queiroz, pois as obras ocorreram ao mesmo tempo. Acostumado a morar na Europa, onde as maneiras de morar muito se diferenciavam do tradicional brasileiro, Luiz de Queiroz preferiu morar à francesa.”
O Seio de Abrahão foi a primeira residência do Estado de São Paulo a ter luz elétrica e, em Piracicaba, a primeira a possuir telefone. Aliás, foi mérito de Luiz de Queiroz ter instalado em Piracicaba a luz elétrica. Nas atas da Câmara Municipal ––já da cidade de–– Piracicaba, na sessão de 20 de janeiro de 1890, na sala de sessões do Conselho de Intendência municipal, o expediente daquele dia traz, dentre as muitas matérias:
[...] a proposta do Cidadão Luiz Vicente de Souza Queiroz para contratar com a municipalidade o estabelecimento da iluminação elétrica nesta cidade, sob as condições contidas em uma exposição que oferecemos ou sobre outras que foram acordadas entre as partes.
Naquele dia, a proposta foi encaminhada à Comissão de Obras Públicas; sete dias depois, em uma sessão extraordinária, sob a presidência do Dr. Paulo Pinto de Almeida, a dita comissão emitiu seu parecer:
A Comissão de Obras Públicas, encarregada de estudar as condições em que o cidadão Luiz Vicente de Sousa Queiroz propõe a estabelecer a iluminação elétrica nesta cidade, abstém-se por enquanto de dar parecer sobre os termos da proposta. Atendendo, porém, ao que considera a utilidade para o público a adoção desse melhoramento, entende vantagem, que se chamem os concorrentes á esse serviço (em transcrição livre).
Houve expiração do prazo de concorrência pública, não havendo nenhum concorrente. Assim, a referida Comissão resolveu então estudar a proposta de Queiroz. Para estudar a proposta e as bases do contrato, foram nomeados Dr. Paulo Pinto de Almeida e Paulo de Moraes Barros. O contrato compreendia 48 cláusulas, com duração de 35 anos.
Na ata da sessão ordinária de 9 de junho de 1890, foi lido o projeto do contrato de iluminação elétrica elaborado em 25 de maio, o qual, sem discussão, foi aprovado por unanimidade.
1º O empresário Luiz Vicente de Souza Queiroz contrata com a Intendência Municipal de Piracicaba, pelo prazo de trinta e cinco anos, a iluminação pública e particular desta Cidade, por meio de eletricidade, gozando das vantagens e sujeito às obrigações constantes das cláusulas seguintes.
2º A área da iluminação, tanto pública como particular, compreenderá não só a cidade em todo o seu perímetro atual e de futuro, como também todos os seus subúrbios. [...]
14º O empresário obriga-se a iluminar gratuitamente a Santa Casa de Misericórdia e a fazer uma redução de 20% nos preços de que trata a cláusula décima terceira para a iluminação dos estabelecimentos de instrução pública ou particular e dos institutos de qualquer ordem que forem indicados pela administração municipal.
Quase cinco anos depois, Luiz de Queiroz envia um requerimento à Câmara, solicitando à edilidade que fosse fiadora, junto ao Banco da República do Brasil, de uma quantia de 250:000$000 réis, para investimentos na Empresa Elétrica.
Devido às dificuldades financeiras, sobretudo no que diz respeito ao empreendimento com a Empresa Elétrica, em outubro de 1897, a Fábrica de Tecidos Santa Francisca e o palacete passaram ao poder do Banco da República do Brasil.
[...] o banco alugou ou passou para um sindicato, e um grande empresário do Rio de Janeiro chamado Manuel Buarque Macedo, que também é o criador do Jornal de Piracicaba, comprou a fábrica e o Palacete e veio para Piracicaba, ficou aqui quatro anos com a família. Só que Manuel Buarque de Macedo, quatro anos depois, voltou ao Rio de Janeiro. Ele era um grande empresário, foi fazer e abriu, inclusive, a Avenida Rio Branco. E isto aqui ficou, passou para o sócio dele, Rodolfo Miranda, que era um cafezista milionário do Vale do Paraíba, monarquista, entrou no PRP Paulista como uma ave meio indesejada e ficou. Mas não era um político de frente do PRP, mas aqui para Rodolfo Miranda era uma espécie de casa de campo, onde ele trazia hóspedes ilustres, fotografias e gente muito importante. Era promoção pessoal dele, porque ele morava, na verdade, em São Paulo, durante muitos anos, muitos anos. Até que um dia, isso aqui foi à venda, porque ele voltou para São Paulo, não se interessou mais, ninguém comprava, saiu no jornal americano, saía muito na Europa quando se vendiam coisas importantes.
Rodolfo Miranda, ao comprar a fábrica e o palacete, denominou-os de Fábrica de Tecidos Arethusina e Villa Arethusina, homenageando assim a sua esposa, Dona Arethusina Pompéia de Miranda. Em posse de Miranda, o palacete foi visitado por inúmeras pessoas, de vizinhos ao futuro presidente da República, Washington Luiz. Em março de 1918, passou a posse do Palacete à Companhia Boyes, de propriedade dos irmãos Herbert James Singleton Boyes e Alfred Simeon Boyes que também compraram a Fábrica.
O Sr. Herbert James, casado com dona Elvira Sterry Boyes, filha de Arthur D. Sterry, engenheiro que construiu a fábrica de tecidos quando de propriedade de Luiz de Queiroz, passou a residir no Palacete com seus quatro filhos.
Em meados de 1996, a Universidade de São Paulo (USP) tentou comprar a propriedade em leilão, porém não conseguiu. No processo de tombamento do Codepac, é possível encontrar cópias das comunicações entre os servidores da USP acerca da viabilidade de compra do Palacete pela Universidade.
Em agosto de 1996, Julio Roberto Katinsky, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e membro da Comissão de Patrimônio Cultural da USP, em resposta à coordenadora da mesma Comissão, a Dra. Maria Cecília França Lourenço, emitiu o seguinte parecer:
Concluindo, podemos dizer, sem um estudo documental que necessariamente deverá ser feito em seguida, que o conjunto jardins e residência Luiz de Queiroz são extremamente valiosos do ponto de vista cultural, representando importante testemunho documental de ideias e propostas arquitetônicas e paisagísticas que encontraram abrigo e se desenvolveram no País, de acordo com peculiaridades locais e, se considerarmos a época e o local, o seu testemunho se torna mais significativo. Se a esses valores acrescentarmos aqueles reivindicados como sede de importantes eventos da História do Brasil, nossa apreciação final é de que a Universidade de São Paulo, ao procurar preservar esse bem e sua futura destinação dentro da comunidade Piracicabana, estará prestando um inegável serviço à memória e desenvolvimento da Cultura Brasileira, como aliás é sua obrigação.
Em 1999, a empresa On Time Empreendimentos, de São Paulo, arrematou por R$900 mil o palacete de Luiz de Queiroz. O dono da empresa era o piracicabano Arnold Fioravante. A professora Marly Perecin o conheceu ainda jovem:
[..] um jovem, também romântico e sonhador, pobre, professorzinho formado na escola normal Sud Mennucci, amigo dos meus primos e que olhava por essas grades e dizia: “Ai, é o sonho da minha vida, um dia quero ser dono desse palácio”. O seu Arnold Fioravante, que criou uma rede de escolas, ganhou muito dinheiro e comprou a casa dos sonhos dele.
Arnold Fioravante foi, além de empresário, professor, advogado e político. Foi deputado federal constituinte entre 1987 e 1991, propondo diversos projetos de lei com foco principalmente na área da educação. Seu mandato foi fundamental para a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, na qual contribuiu também para a municipalização do Ensino, para a criação de Conselhos Municipais de Educação e sobre o piso salarial dos professores da pré-escola ao ensino superior. Faleceu em 22 de agosto de 2024.
CONSTRUÇÃO — No processo de tombamento pelo Codepac, é possível encontrar detalhes sobre a construção do Palacete Luiz de Queiroz. Mais especificamente, nas folhas 23 e 24 do processo, onde está o Inventário de Patrimônio Cultural, que foi elaborado pelo arquiteto Marcelo Cachioni, em 11 de julho de 2003. Nele são encontradas informações sobre o endereço, localização cadastral, região, os totais de área de terreno e de construção, a data de construção, o estilo, os dados tipológicos, estado de conservação, a forma de uso, sistema construtivo e materiais, entre outras informações.
Com relação ao estilo, a classificação do palacete se dá pelo Neoclássico, que nada mais é que um estilo que traz como resgate as características estéticas e a proporcionalidade da Antiguidade greco-romana, buscando a ordem, proporção e sobriedade dos espaços, valorizando assim a simplicidade geométrica, o uso de colunas e frontões (fachadas).
No que diz respeito à área total do terreno, essa é de 11.885,11 metros quadrados, com um total de 1.052,58 metros quadrados de área construída. No campo de dados tipológicos, são encontradas informações tais como: sobrado isolado, cujo tipo de cobertura são telhas francesas e beiral decorado; quanto às envasaduras, há dados de vergas retas e em arco abatido. Traz ainda informações sobre as esquadrias, que são de madeira, com folhas de abrir envidraçadas.
Quanto ao “mérito” da obra, as observações de Cachioni são: “Edifício de notável mérito arquitetônico e valor histórico” e complementa no campo outros: “Pórtico avarandado. Destaque para as ornamentações em madeira e estuque”.
Edifício do tipo palacete, com características neoclassicistas, marcado por um corpo central avarandado, composto com colunas dóricas e balaustrada. A cobertura apresenta beiral com modilhões. Possui 41 janelas retas ou em arco pleno (retas em cima, arcadas em baixo), sendo 13 na frente, 12 nos fundos e 8 de cada lado, porões habitáveis e um edifício separado para instalação sanitária. Planta paladiana.
Além destas informações do inventário, constam também cópias do registro de matrícula do imóvel, onde é possível encontrar outras informações sobre a construção, tais como a quantidade de dormitórios no andar superior, sendo um total de oito, bem como um banheiro. Já no andar térreo, o Seio de Abrahão contém quatro salas, além de um porão, onde são abrigados uma cozinha, copa, adega e outras dependências. Neste sentido, Cachioni explica em sua dissertação de mestrado que:
Um dispositivo com roldanas levava as bandejas e guarnições ao térreo, para a sala de jantar. Originalmente, suas paredes externas eram pintadas com motivos de “tijolinhos à vista”, em nuances de cor, como painéis. Talvez tenha sido um toque inglês de Arthur Sterry na execução da obra [...].
Há também uma “morada” para o jardineiro. O espaço é todo arborizado, formando-se ali um parque, provido de água para irrigação, contando também com um largo artístico formado pelo braço do rio Piracicaba que provém da fábrica e se estende ao Palacete. Outras informações encontradas no processo do Codepac, registradas por meio de fotografias, são a existência de uma estufa para orquídeas e um cemitério para cães.
TOMBAMENTO — Em 23 de maio de 1982, é aberto pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) o processo n.º 02/1982, de tombamento do Palacete Luiz de Queiroz e área envoltória, sob o registro de tombo n.º 11.
Entretanto, houve manifestações anteriores pelo Poder Legislativo no sentido de preservação e de algum uso pelo poder público do referido bem e seus arredores. Em 23 de novembro de 1964, o então vereador Rubens Leite do Canto Braga protocola o Projeto de lei nº 156/1964, que “Declara de utilidade pública o quarteirão onde se encontra o palacete “Boyes””.
Na justificativa, Rubens Braga declara o seguinte:
O antigo e magnífico “Palacete Miranda”, também conhecido por “Palacete Boyes”, ricamente plantado de árvores centenárias e às margens do Rio Piracicaba é, indiscutivelmente, um patrimônio histórico de nossa cidade. Ao tomarmos conhecimento de que existe uma empresa interessada na compra do referido imóvel, para fins de loteamento, achamos ser um dever inadiável de todos os nobres representantes do povo piracicabano a aprovação da presente propositura, evitando a consumação de um ato que viria se constituir numa perda irreparável para o nosso município. Trata-se de local maravilhoso onde poderá ser construído o Aquário, o Orquidário, o Zoológico ou outro qualquer empreendimento de grande atração turística pa[ra] Piracicaba (em transcrição livre).
O projeto seguiu em tramitação na Casa, onde foram exarados pareceres das Comissões de Comércio, Indústria e Obras Públicas e de Justiça e Redação. Na primeira comissão, foi solicitado ao vereador que enviasse à dita comissão provas de sua afirmação sobre a venda do imóvel para fins de loteamento, já que, supostamente, nada estava oficializado. Rubens Braga então justifica sua afirmação, alegando que se baseou “em publicação lida em um de nossos matutinos naquela ocasião”. Entretanto, o vereador afirmou ainda: “julgamos ser de menor importância tal fato em relação ao maravilhoso histórico que o local representa e que é, para nós piracicabanos, um dever preservá-lo”.
Já o parecer da Comissão de Justiça e Redação, fundado na legalidade do projeto, emite o seguinte:
A declaração de utilidade pública impõe umas tantas e certas condições, cuja inobservância poderá tornar nulas quaisquer providências futuras. Dessa forma, julgamos que este projeto deveria, preliminarmente, ser transformado em Indicação, a fim de que iniciativa de tal importância parta do Poder Executivo, que é o que julgamos competente para tanto. A indicação criará um ambiente na opinião pública que virá assim amadurecer em favor do projeto que, uma vez estudado e elaborado, vem preencher, sem maiores dificuldades, a alta finalidade; caso contrário, como acima dissemos, poderia tornar-se inexequível.
Atendendo ao pedido da Comissão, em março de 1966, Rubens Braga protocolou a indicação nº 8/1966. No ano seguinte, o vereador Romeu Pinassi protocolou a indicação nº 260/1967, em que “sugere a desapropriação de terreno onde se localiza o conhecido “Palacete Boyes”.
[...] indico ao sr. Chefe do Executivo para que envie a esta Casa projeto de lei desapropriando o terreno pertencente à Indústria Boyes [...] denominado Palacete do Boyes, para que nele seja construído um museu histórico que servirá como um dos atrativos turísticos de nossa cidade.
Após essas indicações, não há registros no acervo da Casa dispondo sobre quaisquer assuntos envolvendo o Palacete Luiz de Queiroz.
Em 6 de abril de 1982, o então presidente do Codepac, Antonio Henrique Carvalho Cocenza, encaminha o ofício nº 10/1982, à Cia. Industrial e Agrícola Boyes, notificando a empresa de que estava aberto o processo de tombamento do Palacete, cientificando-os ainda de que os bens envolvendo o processo não poderiam ser destruídos, demolidos, mutilados ou alterados em qualquer hipótese, muito menos serem reparados em parte ou no todo, sem a prévia autorização do Conselho. Tal processo é comunicado ainda ao então prefeito Adilson Benedito Maluf e ao delegado de polícia Dr. José Antonio Gomes Coelho.
Após quinze anos, em 7 de abril de 1997, o presidente do Codepac, Eugênio Nardin, encaminha ao prefeito Humberto de Campos o ofício de nº 13/1997, solicitando que, por deliberação unânime dos membros do Conselho presentes na reunião ordinária em 19 de março, o Tombamento Oficial do Palacete, justificando o sentido histórico, cultural, o valor afetivo e arquitetônico do mesmo.
Em 28 de junho, o mesmo presidente encaminha ofício a Antônio Guedin, da Cia. Industrial e Agrícola Boyes, ao prefeito Humberto de Campos, a Aparecida Gregolin Abe, então Secretária da Ação Cultural, ao secretário de Obras, Manolo Barrionuevo, a Rolnei Antonio Rodrigues, delegado seccional de Polícia, e ao então diretor da Esalq-USP, Evaristo Marzabal Neves, informando que, por meio do Decreto Municipal nº 7.591, de 28 de maio de 1997:
Fica tombado, como Patrimônio Histórico-Cultural de Piracicaba, o Palacete “Luiz Vicente de Souza Queiroz”, sito à Rua Prudente de Moraes, nº 21, bem como toda sua área envoltória, delimitada pelas ruas Prudente de Moraes (frente), Treze de Maio (fundos), Antonio Corrêa Barbosa (direita) e Avenida Beira Rio (esquerda).
RESTAURAÇÃO — Logo após a compra do Palacete Luiz de Queiroz, a empresa de Arnold Fioravante, por meio de seu procurador Alberto Prospero, dá início ao processo de restauração do Palacete. Em 20 de outubro de 1999, é encaminhado ao prefeito Humberto de Campos um pedido para que, devido ao tombamento, os proprietários do imóvel ficassem isentos do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), tomando como base o parágrafo único, do art. 11, da Lei municipal nº 4.276/1997:
O bem tombado poderá ter isenção de até 100% (cem por cento) dos tributos municipais, desde que requerido pelo interessado, definido o índice pelo CODEPAC, haja manifestação da Secretaria Municipal de Finanças e seja homologado pelo Chefe do Poder Executivo.
O prefeito Humberto de Campos, em atendimento à lei, preliminarmente, encaminhou o pedido ao Codepac, que, inicialmente, deliberou por solicitar toda a documentação gráfica e memoriais descritivos para avaliação prévia da restauração do Palacete.
No processo de tombamento, logo após o primeiro pedido de isenção do IPTU, é encontrado um documento datado de 24 de janeiro de 2000, cujos autores são o Prof. Dr. Tasso Leo Krugner, do Departamento de Entomologia, Fitopatologia e Zoologia Agrícola e o Prof. Dr. Ricardo Ribeiro Rodrigues, do Departamento de Ciências Biológicas, ambos da Esalq-USP, encaminhou ao então presidente do Codepac, Eugênio Nardin, um relatório de Avaliação Fitossanitária da área externa ao Palacete, “onde consta que 44 indivíduos arbóreos deverão ser podados e 56 indivíduos arbóreos deverão ser eliminados” e “ainda foram marcados com plaquetas de alumínio numeradas, 54 indivíduos arbóreos de 49 espécies vegetais para seu reconhecimento botânico, que poderão ser usados em atividade de educação ambiental [...]”. Sobre a eliminação dos chamados “indivíduos arbóreos”, os professores relataram que:
1- Árvores mortas em pé ou severamente afetadas por doença, cujo tratamento é inviável ou não compensatório, por se tratar de espécies sem destaque botânico. Total de indivíduos arbóreos marcados nessa categoria: 42.
2- Espécies comuns, geralmente exóticas, com desenvolvimento ruim e situadas em locais inadequados. Total de indivíduos arbóreos marcados nessa categoria: 14.
Acompanhava ainda o referido relatório, uma lista dos indivíduos arbóreos identificados na área externa, totalizando 55 tipos, dentre eles: Peroba-rosa, Jequitibá-vermelho, Cedro-rosa, Cabreúva, Cambuci, Alecrim-de-Campinas e Jequitibá-branco, sendo que essas últimas três, são consideradas espécies nativas raras ou até mesmo incomuns nas cidades. O referido relatório foi encaminhado à então Secretaria Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Sedema), que se manifestou acerca do assunto.
[...] informamos que, por se tratar de área particular, a municipalidade não poderá interferir nos trabalhos. Nosso parecer é de que as árvores sejam retiradas com critério e substituídas por novas mudas no local indicado pela Sedema, se Vossa Senhoria assim o desejar.
Em 14 de fevereiro daquele ano, Alberto Prospero encaminhou pedido de autorização ao Codepac para que pudessem alterar o muro que circunda o Palacete. Dentre as alterações, estavam inclusas a substituição da grade de madeira por de ferro do mesmo estilo, com a ressalva de que iria se manter a visão do imóvel, bem como a alteração dos muros que estavam situados especificamente às ruas 13 de maio e Antonio Correa Barbosa, onde seriam substituídas também as grades de madeira estragadas, aumentando a altura para cerca de 3 metros, porém mantendo-se ali o muro e suas características. O procurador dos proprietários ainda faz a seguinte ressalva:
Cabe ressaltar que o muro atual devido à sua baixa altura, está facilitando a entrada de crianças e pessoas indesejáveis dentro do imóvel, inclusive correndo risco de se machucarem e serem atacadas por cachorro que vive no local. [...] Aproveitamos para explicar que o projeto final de arquitetura e recuperação do imóvel, assim como projetos hidráulicos e elétricos, serão apresentados para apreciação dos senhores conselheiros logo após serem entregues pelo arquiteto responsável.
Em resposta, o Codepac inicialmente nega o pedido de alteração das grades, determinando assim que fossem substituídas por grades também de madeira. No que dispunha aos muros, o Conselho nada tinha a opor.
Passados oito meses, novo pedido de aprovação das grades é encaminhado ao Conselho; tal pedido é acompanhado de uma justificativa mais robusta, trazendo informações sobre a construção do ferro que seria utilizado, que, no caso em tela, seria do tipo temperado.
Argumenta ainda o fato de serem mais seguras, alegando também estarem deterioradas e que sua recolocação desmerecia a maravilhosa arquitetura do imóvel, “motivo pelo qual as grades de ferro utilizadas nos palacetes franceses estão sendo cogitadas”.
Neste sentido, Alberto Prospero coloca como anexo os estudos do arquiteto Juarez Borges, responsável pelo projeto de restauração, sobre as grades de ferro.
Levamos ao conhecimento de V.Sas. que o projeto da grade proposta para o palacete Luiz de Queiroz, na fachada da rua Prudente de Moraes, foi desenvolvido baseado nos desenhos contidos no livro: Traité Pratique de Serrurerie — Constructions en Fer — Serrurerie D’Art, editado em Paris, em 1908, de autoria do arquiteto francês E. Barberot, editora Librairie Polytechnique Ch. Béranger.
Na reunião do dia 17 de outubro de 2000, o Codepac analisou e aprovou a solicitação de substituição das grades de madeira por grades de ferro.
Nesse meio tempo, mais especificamente em 17 de abril de 2000, o arquiteto Juarez Borges solicitou ao Conselho a autorização para iniciar as obras de restauração, relacionando os itens que seriam executados no Palacete. Iniciou o documento escrevendo sobre os telhados: “Substituição das telhas tipo Francesa por novas similares”. Em seguida, traz as fachadas, ou seja, seriam reconstituídas as paredes externas, suas molduras e enfeites, embutimento de tubulações e o resgate da cor original do Palacete.
Sobre a área interna, os pisos hidráulicos e de madeira seriam recuperados, bem como todas as portas e janelas, como também suas respectivas ferragens, que seriam restauradas por meio do processo de remoção das tintas e aplicação de tratamento anticupim para, a posteriori, serem pintadas. Já com relação ao forro, ele seria mantido, restaurando-se apenas as áreas atingidas por cupim. A rede hidráulica de ferro seria substituída pela de cobre e o esgoto, pela tubulação de PVC. Com relação à rede elétrica, Juarez propôs a alteração seguindo o projeto padrão, mas as fiações, que outrora eram revestidas de algodão, seriam trocadas por fios antichamas, acrescentando-se novos pontos de tomadas e iluminação, principalmente na cozinha, isso “de acordo com a distribuição dos equipamentos”.
O espaço físico da cozinha continuará com suas dimensões originais, entretanto com um novo layout de distribuição dos equipamentos básicos (geladeira, freezer, fogão, bancadas com armários embutidos, máquina de lavar louças), utilizando-se de um design atual dos móveis em questão;
Este cômodo é dividido em dois ambientes, cozinha e copa, na parte da cozinha, o piso atual não existe mais, portanto será substituído por um novo material [...]. Na área da copa, o piso original continua intacto, ocorrendo somente a manutenção deste;[...]
Nas paredes serão colocados novos azulejos até a altura de 1,60m, utilizando-se de uma composição harmônica deste novo elemento a ser inserido, com os azulejos assentados na diagonal [...] e terminando com uma faixa composta (Friso Smalti 2x20 Branco, Conjunto Diagonal Branco e Almendra 11x11 da Antigua, Moldura Smalti 5x20 Branca);
Colocação de rodapé em todo perímetro linear (Festone Flórida White);
No ano seguinte, em 10 de março de 2001, Alberto Prospero encaminhou um relatório descritivo das obras ao Codepac, tendo como intuito esclarecer o andamento das obras, além de demonstrar em palavras, o relatório continha fotografias que o embasaram. Em síntese, o documento explica que, na parte externa, estavam sendo trocados os reboques que estavam soltando. Já atrás do Palacete, as janelas de ferro colocadas nas “paredes dos banheiros foram substituídas por janelas de madeira exatamente iguais às originais”. Os forros atacados por cupins haviam sido refeitos por madeira jatobá, mantendo-se o desenho “do século passado”. Portas e janelas foram descupinizadas, lixadas, restauradas e pintadas. Assim como as maçanetas, dobradiças e cremonas, que, em pleno funcionamento, foram recuperadas em seu tom original. Os pisos em madeira foram todos aproveitados, com exceção de duas salas, pois estavam completamente tomadas por cupins.
Em 26 de março de 2002, os conselheiros do Codepac, Dulce Inês Instran, Guimarães de Oliveira, Heitor Gaudenci Junior, Luiz Egídio Simoni, Marcelo Cachioni e Maria da Gloria Silveira Mello, visitaram o Palacete para avaliar as obras do restauro, tanto as finalizadas, como também as que estavam, ainda naquele momento, sendo executadas.
Dividido em quatro tópicos: área interna, área externa, entorno e conclusão, o relatório escrito pelos conselheiros elogia a restauração do Palacete. Quanto à área interna, “foram efetuadas de forma primorosa, com critério e dentro das expectativas” do Conselho. Lamentaram, porém, que alguns detalhes, tais como a pintura original, não puderam ser recuperados.
Citaram também o fato de que, como o imóvel já havia passado por outras reformas internas pelos proprietários anteriores, mesmo assim o projeto de restauro foi adequado ao conjunto. Na área externa, as fachadas preservaram as características originais; já com relação à pintura, citam que a original se perdeu, “mas é possível, no anexo à casa, manter detalhes da mesma como referência”.
À época, as obras do entorno estavam em fase final de execução, como era o caso da fonte em frente à casa, que estava praticamente refeita. Por fim, os conselheiros encerraram o relatório com a seguinte conclusão:
Acreditamos que o imóvel, agora recuperado, possa representar para cidade a referência que faltava no encaminhamento de outros imóveis a passarem pelo mesmo processo de restauração, assim como para este Conselho na intermediação com os proprietários destes imóveis, e ainda na aplicabilidade do Decreto nº 7.703 de 18/09/97 no que tange à estímulos à preservação.
O palacete permanece ainda sob posse da família Fioravante. De junho a agosto de 2026, o Palacete será aberto à população piracicabana para visitação, por meio do Village Arte Decor, uma mostra de arquitetura, decoração e paisagismo idealizada pelo publicitário Bruno Chamochumbi, que, em relato oral à autora deste texto, afirmou: “era o sonho de Arnold que o palacete fosse aberto à população de Piracicaba”.
Por ocasião da abertura do palacete ao público, o Departamento de Comunicação Social da Câmara está produzindo um documentário sobre a sua história. O material será incluído na grade de programação da TV Câmara, tendo como entrevistados, além de Chamochumbi, a historiadora Marly Therezinha Germano Perecin, o arquiteto Marcelo Cachioni e a chefe do Setor de Documentação e Arquivo, Dayane Soldan.
Graças a Queiroz, hoje Piracicaba pode vislumbrar essa obra arquitetônica do século 19. Ainda graças a ele, a cidade teve energia elétrica. Ele, que era um grande ativista pelo meio ambiente, chegou a plantar incontáveis espécies de plantas nas áreas públicas da cidade e, como progressista, também chegou a construir uma vila de casas para os operários de sua fábrica Santa Francisca, onde hoje é a rua Luiz de Queiroz. Como uma dádiva a Piracicaba, ele doou sua Fazenda São João da Montanha para a construção da futura Escola Agrícola, hoje, a renomada Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq-USP).
Graças a ele, que, ainda bem, era um espírito à frente de seu tempo.
Achados do Arquivo — A série “Achados do Arquivo” é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo.
Texto: Dayane Cristina Soldan
Câmara Municipal de Piracicaba




