O papo hoje na academia foi diferente. Entre um peso e outro, eu acompanhava a conversa de um grupo que discutia sobre a falsificação de ovos pelos chineses.
“Nunca imaginei isso na minha vida. Eles injetam algo em uma casca artificial, que se torna a clara, e uma gelatina, que vira gema. Quando é colocado na frigideira, o produto fica exatamente igual a um ovo frito. A gente não percebe a diferença”, disse um deles.
Até que a conversa evoluiu para a carne. E foi apresentada a tese de que uma empresa famosa, que embala carnes, injeta soro nos alimentos para ficarem mais pesados e oitocentos gramas de contrafilé, por exemplo, se tornam um quilo, só com o líquido. “Estamos consumindo 20% de água e pagando por carne”, disse o mesmo que comentou sobre os ovos.
Achei que devia entrar na conversa e contei uma história de quando éramos crianças na Vila Independência. Havia o seu João, que comprava ferro-velho, vidro, jornais e papelão. “Fazíamos fardos de papelão que coletávamos pelas ruas do bairro. No meio, colocávamos papelão úmido para ficar mais pesado e ganhar mais dinheiro para comprar doces da Martini.”
Num primeiro momento, minha fala surpreendeu. Até que um outro disse que colocava areia no meio do papelão. As falcatruas dos chineses quase se tornavam apenas uma atitude natural, uma malandragem de criança, uma vez que o engodo parecia fazer parte da natureza humana.
Mas não é bem assim. Sabíamos que estávamos fazendo uma coisa errada. Até que pesou na nossa consciência e deixamos de repetir a bobagem. Foi apenas uma experiência para medir o peso do ato para cada um e funcionou. Os fardos de papelão voltaram a ficar secos e leves.
Mas os chineses exportam borracha em vez de ovo para o mundo e acabam prejudicando a saúde de muita gente?, me questionei depois. Supus até que a história contada fosse mentira, por haver em cada país um ministério e agências responsáveis por fiscalizar importações e identificar produtos adulterados a tempo de impedir seu consumo.
Teve um outro da roda que disse haver um esquema na China para adulterar até alface. Sim, os chineses, segundo ele, fazem alface artificial. Achei a informação espetacular e comecei a desconfiar da inteligência dos chineses, uma vez que me parecia muito mais prático e barato plantar alface do que construir uma indústria de alface. Mas vai saber, né?
Chegando em casa, chequei no ChatGPT as informações da galera da academia sobre ovos e alface. Obtive a resposta de que elas não têm consistência alguma, ou melhor, comprovação alguma, mas circulam com força nas redes sociais.
Mesmo assim, eu sei que não existe produto mais caro do que o chinês. Esta é uma tese que tenho desenvolvido há muito tempo. Compre um guarda-chuva chinês e veja quanto tempo ele dura. Compre uma calça no mercado chinês e veja quanto tempo ela dura. Pegue o valor pago por cada produto e faça a divisão pelo seu tempo de duração e terá a resposta exata. Comparativamente, um produto mais caro e de qualidade torna-se muito mais barato depois desse cálculo.
Tenho a impressão de que os produtos chineses que chegam a Piracicaba são verdadeiros lixos e quebram do dia para a noite, salvo raras exceções. Disseram-me que a China produz produtos muito melhores para vender à Europa e aos EUA. Só sei que, quando passo em uma loja chinesa, na Rua Governador, fico triste e lembro de trabalho escravo, corrupção, desrespeito humano, enfim. A invasão chinesa só aumenta no Brasil. Nossas universidades públicas estão sendo tomadas por projetos em parceria com a China.
Mas tudo se tornou natural, como se nada de grave estivesse acontecendo no país asiático. Até a ditadura chinesa não existe mais para muitos catedráticos da USP e da Unicamp.
Para minha segurança, no almoço vou comer alface plantada pelo seu Lauro, que cultiva folhagens em uma horta em frente à minha casa. Ele é a certeza de que o mundo ainda é habitável e de que a alface que chega à nossa mesa tem uma procedência honesta. A alface do seu Lauro nasce na terra e não em indústrias. Mas os carros elétricos já dominam as ruas do bairro, e a BYD chinesa ri silenciosamente na minha cara e na cara do seu Lauro.




