Parte 1 das "Crônicas de Samuel Coleirinha", o poeta que não existiu, mas devia...
…muito na banca do jogo do bicho. Na pauta, um despautério em praça pública

Do alto deste vigésimo primeiro século, quarenta esquemas de pirâmide, correntes de energia quântica e bets nacionais vos contemplam. Nesta era de acesso universal à bobagem democrática, trago-vos boas novas do passado que não vos interessam. Em meio à selva de senhas e inteligências artificiais, temperadas com a boa e velha burrice natural, coloco uma questão, mais velha que andar de quatro, menos saborosa, é verdade, que comer a grama do vizinho, que sempre é mais verde, mas que é fugidia como ela, quando muda de cor e o jumento morre de fome.
Constato, com nenhum espanto ou surpresa, já que ninguém perguntou, haver coisas que não se explicam. Como explicar, por exemplo, o brotar para o esquecimento de tantas personalidades afeitas às belas letras, belas artes e belas músicas, na Cidade Eterna Noiva da Colina Calçada de Salto Alto, sim, Noiva eterna, a ponto de não encontrar Noivo que se lhe equipare até hoje?
Como explicar o despontar para o olvido, longe do ouvido do público, de tantos artistas: músicos fora do tom, pintores borra-telas, escultores de alma empedrada, dançarinas tropeçantes? E especialmente, menestreis sem lua, ou ainda luas sem menestreis, poetas de umbigo grande e métrica mesquinha, e ainda, escritores de romances sem amor nenhum, especialmente o próprio, sem pudor nem bom senso, que nos empurram coletâneas de concursos goela e bolso abaixo, achando que o nosso bolso de contribuinte é penico?
Ponto de partida, ou: dando linha à pipa
Foi lembrando do passado distante, mas perto do coraçãozinho (de frango), que lembro de um grupinho de personalidades boêmias (atenção: aceitavam-se também skois, brahmas e caracus), que descobriram a literatura como assunto de conversa, sentados às mesas dobráveis do Bar do Sérgio, ou no Restaurante Roda-Viva, vulgo Bar do Nerso, de pacueras aceboladas, fiados inolvidáveis e tipos inesquecíveis como Cinco-Tiro e Ivanilde, caixas de cerveja enchidas com garrafas vazias na calçada, seguidas de ressacas monumentais da República da Armando Salles: mais republicano, só se o Prudente de Moraes aparecesse pra tomar umas.
De exercícios dadaístas de sorteio de palavras, de motes e quadrinhas questionáveis, de escrita automática e poesia instântanea. Vistos de fora, seriam (e eram) chamados de “papos-cabeça”, mas em nada parecidos com papo GNT ou podcasts. Mais pretensiosos, acirrados e causadores de brigas, resolvidas no dia seguinte com mais um engradado de Antarcticas. Discussões que resolveram a vida cultural da cidade e do mundo, entrando pela política que hoje, renderiam somente um bate-boca tedioso no Facebook. Mas hora e vez em que se fizeram profecias, como o voo delirante que vislumbrou a Tubaína Pet, revelação tão sem pé nem cabeça, que entrou na conta do surrealismo das previsões para 1996. Com o torresmão de metro da dona Joana, a porção de pacuera com cebola, regados a muita cevada liquefeita. Tudo registrado em jornal... (ó vós que não sabeis o que seja, o Google é serventia da casa).
Uma equipe? Um grupo? Um punhado de gente que fazia ler. A desculpa para ler era a cerveja, ou era o etílico a razão das leituras? (Não irei cometer a imagem do embriagar-se de livros; pronto, ai de mim!, já foi). Que leu John Updike, E.L. Doctorow, F.Scott Fitzgerald, e (dizem), dois da turma leram o Ulisses de James Joyce. Deste caboclo irlandês, o Retrato do Artista Quando Jovem e Dublinenses, eram mato naquela floresta. Liam o Estadão e a Folha com atenção, e revistas como República. Mario Prata e seu playboy James Lins, Pepe Escobar, (Loyola Brandão nunca entrou no radar) mais tantos outros cronistas, nem preciso dizer que ficaram órfãos do Paulo Francis, e depois, do Daniel Piza. Manhattan Connection, para eles, já era diluição, homeopatia para quem Rivotril era balinha. Concordaram com Francis que Caio Blinder era um meninão, leitor de resenhas do NYT, papagaio de pirata. Só restava mesmo ao Francis cantar marchinhas.
Pretensão? Vocês não fazem ideia.
Quem eram? Seus tonto... Quem sabe sabe, pra quem não sabe, desdigo. Esses de quem contei, no restaurante do Nerso, ainda andam por aí, distribuindo patadas, serviços e cartõezinhos de visitas (em plena era do Zap Zap). Um ou dois deles, no fundo do poço da internet, olham as sombras que passam lá em cima, no sol brabo, pontificando sobre as miragens da semana, registrando a insanidade moderna para leitores ideais do porvir, um futuro que não sei se haverá.
Eis que surge
É concebível, para a vossa vã filosofia, que assiste fantasmas todo dia em vossas telas, que haja efeito sem causa, que haja empréstimo sem caução, que haja causa sem razão? Ora, se hoje, a pujante urbe interiorana, capital da Caipirolândia, contou com grupos como o que sobre o qual, acima contei, e hoje, anda com intelectos tão numerosos que se contam nos dedos da mão esquerda do Lula, há de ter havido precursores... há de ter havido!
Ao menos um, unzinho só, um precursor direto, um grande antecessor, um ancestral de espírito à altura de tão altas luzes, que de tão altas não se enxergam.
Não serão quem pensais, fantasmas que ainda perambulam pelo Sesc, ruínas da Unimep, ou Teatro Municipal (o da avenida Independência). Estes que vêm às suas memórias são figuras, figuraças, mas não quem engendro, cá comigo em minhas penas.
Lembrando-me do passado, mas de um pretérito mais-que-perfeito, percebi, por mim mesmo, que nunca existiu um tal luminar. Mas, para frasear Voltaire e o Mário Prata, como ele não existiu, foi preciso inventá-lo. Ei-lo nas pseudo-memórias da Atenas Paulista, uma antena coletiva da raça, uma testemunha ocular, auditiva e gustativa da sabedoria nascida no peixe frito do Dezoito, inspirado pelo salto e o verdadeiro Véu da Noiva, na pinga boa vendida fiado nas vendas do Picadão do Mato Grosso, na Gengibirra do Orlando e na cerveja do Chicken-in: Samuel Coleirinha, o “Rouxinol Brincante do Coronel Barbosa”.
Este Coleirinha seria um poeta sem láureas mas com Lauras, Odetes e Normas, que o acompanhavam em seu flanar vinicolizado; inspirado pela espuma do Salto e o chopp do Jardim da Cerveja; um parceiro de luar com violão e um abismo de rosas, de Cobrinha, Celestino e Coimbra; brincando com Nhô Serra e Parafuso em cururus manquitolas, embora não mais caipiracicabano que o Maneco Mandi, nem um cobra do improviso; um mito que atravessaria gerações e ruas sem olhar de onde vinha o bonde, nem corceis, opalas e belinas; um eterno apaixonado, muito e mais e tanto pelas mulheres que lhe deitavam na cama e lhe destruíam a fama, tanto quanto por outra musa que lhe consumia a vista e lhe atordoava a pista: a literatura.
Esta foi a parte 1 de uma história contando a vida de um poeta que teria marcado gerações de artistas e “fazedores de cultura” da Noiva da Colina, se tivesse existido. Vocês mal podem esperar (talvez não esperem mesmo) pela parte 2, amanhã. Até mais ver!


