Parte 2 das "Crônicas de Samuel Coleirinha", o poeta que nunca existiu, mas devia...
...ter pulado carnaval na Ekypelanka, mas cedeu o lugar pra Jussara

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Samuel Coleirinha? Ora, direis, não é nome civil: o registro de batismo da Igreja do Bom Jesus lhe registrou como Samuel da Silva Brás, em seus livros de assento. Mas lhe assentou melhor, em um dia que haveria de ficar na memória, se houvesse ocorrido, o apelido “Coleirinha”, ao proferir célebre palestra.
Conto: discorreu para uma plateia embasbacada e ignorante de poesia (como as que dispomos, desde sempre), sobre Samuel Coleridge, poeta inglês, influência pela qual estava ansiado. Viu uma referência na revista Manchete sobre o fulano, pôs na cabeça que um poeta escrevendo em inglês, conhecido o suficiente para chegar na Caipirolândia, com o mesmo nome que o seu, havia de ser sinal de igual destinação. Mesmo sem saber quem o tal poeta fora, e que destino tivera... Foi ler o que havia na Enciclopédia Barsa, na Biblioteca Municipal, e convidou-se para uma palestra, na Academia Piracicabana de Letras... que seu professor da escola, o conhecido faz-tudo João Chiarini, confirmou com gosto.
Em seu sotaque empolado de caipira parnasiano (muitos há, ainda, muitos há), de “Coleridge” pra “Coleirinha” foi um pulo, um salto enorme para as humanidades citadinas.
Apesar da alcunha que pegou, por se vender de entendido de poesia inglesa, e de tão alto poeta que ninguém ouviu falar por aqui, (a palestra anda perdida nos anais do olvido, em folhas datilografadas com papel carbono, no arquivo morto da prefeitura), Samuel foi confundido, por seu João, com sábio homem de letras, fama da qual tratou logo de largar, mas nunca dela se desprenderia, se vivido tivesse.
Sua compleição, por esta época, era a de um homem de idade indefinida, preconizando os guapos membros das academias, não de letras mas de ginástica (um visionário! um visionário!), pessoas que se situam, fisionomicamente, dos dezassete aos cincoenta anos. Ou seja, ninguém sabia a idade de Samuel Coleirinha; ninguém leu o registro de batismo da igreja Bom Jesus, nunca.
Mencionei, há pouco, o fato dele ser um mito. Ora, se muito, Coleirinha foi um mitocôndria, um verme que granjeava simpatias coletando penas de galinhas para trabalhos de macumba e umbigadas na Paulicéia. Costumava desfilar sua cabeleira branca e seu sorriso, às vezes imerso em tristeza, pelos bares, fechando tantos quantos tivessem um cantinho para encostar seu violão, e, é claro, a pinga, a cerveja ou qualquer líquido que tivesse graduação alcóolica entre 2,5o e 96o.
Credes que mitifico um mundo, mais que uma pessoa. Mas não consegui vós verdes, ali pela Rua do Porto, embicado no Arapuca, bebendo um trago de “groselha” com o Pacheco e os irmãos Dutra? Não o vês sentado em frente à Galeria Colombo, entusiasmado com os quadros do Adamoli, servindo os copos ao Nardin (o Neno ou o Ermelindo, primo mais novo?), ao Cosentino e ao Zé Maria, no Saravá?
Acreditai que Coleirinha, de noite rondando a cidade, a medir a escansão e cortando o metro a canivete, conheceu o Infinito?
Obra
Suas leituras, mais que seus escritos, influenciaram o Cecílio, quando a redação de “O Diário” ia ao Senadinho, depois do fechamento do jornal, caçar um lanche e o tempo perdido. Quem imaginais que contou a piada ao autor do “Arco, Tarco, Verva”? Quem pensais que apresentou Joyce ao Noedy Krahenbül, e depois ao Romuardinho? Quem é que privava com o doutor Losso, comentando os franceses?
Coleirinha, empunhando em riste sua tulipa suada, chope de coleirinha branca, falava de seus projetos, nunca realizados, antes, dantes ou depois.
Contava de sua obra-prima, segundo ele escrita, completa e revisada, que a sorte madrasta ainda não favorecera publicar: a história de um pintor de paisagens, boêmio folclórico dos inícios do século XX, que saudosamente se lembra de amigo seu, já falecido. Este amigo, nascido em mil oitocentos e tanto, se lembrava de um amigo seu, já falecido, que costumava contar da boêmia do século XVIII, às margens do rio Piracicaba. Um território onde os bandeirantes se encontravam para beber o último trago civilizado até o Mato Grosso.
Perceberam? Meia Noite em Paris com trinta anos de antecedência, numa época que Woody (não do filme dos brinquedos, mas o da chave Allen), era apenas um noivo neurótico às voltas com uma noiva nervosa.
Um homem à frente de seu tempo: ele sempre adiantava o relógio para não chegar atrasado. Samuca leu Fome, de Knut Hansum, antes do Xykinhu, e disso se gabava às menininhas, que, impressionadas, caiam enredadas como lambaris na época da piracema. Algum ilustre ignorado soltou no bar do DCE da Unimep que Coleirinha juntara o Fome à vontade de comer.
Que posso mais dizer-vos? Eu? Que não vivi nenhuma época antes de eu mesmo nascer, e que Samuel Coleirinha melhor narraria, se nascido fosse? Tendo vivido os tempos dourados do Bar Ventania e arrotando vanguarda antes do pastel do Mercadão, no Luz e Mistério; sarabandeando pelo Mascote e Bar do Sérgio, que esteve outro dia mesmo no Bar do João, que andou tanto pelo Dog and Trumpet quanto pelo Nerso, nas serestas e bocce do Quatizinho? Que escreveu letras para o terceiro disco do Marinho Castellar? Que trabalhou, sem ganhar nada, com estrelas do rádio como José ABC, Lyson Gaster (???) e Serginho Oba Oba? Que fez papel de árvore numa peça da professora Jaçanã Guerrini? Que declamou versos alheios em uma esquete teatral do Carlos ABC?
Suas leituras eram revolucionárias, mais do que o recheio do que vinha entre as capas, era a lembrança do que tinha comido. Por exemplo, leu e apreciou o Caminho de Swann, de Proust, tornando-se seu livro preferido, pela sugestão culinária:
“O caminho do suã de porco é a panela com arroz, o suã comprado no Açougue da Lua, de preferência temperado com um puta monte de cheiro verde. Pimenta cumari por cima vai bem, farofa com ovo e beico. Pra acompanhá, caipirinha”.
Para melhor dar-vos a dimensão poética de um poeta irrealizado, entrego-vos um poema inédito de Samuel - como são, aliás, todos os seus poemas. Seria uma obra extraordinariamente original para a época em que foi feita, a década de 1970, não fosse uma tentativa mal-sucedida em simular uma composição poética de um autor que não existe.
Todos os êmulos de Vinícius são melhores que Samuel Coleirinha; mas, como ele próprio diria, toda poesia, boa ou ruim, é um ultraje a rigor (frase aliás, que inspirou um conjunto musical, de estilo nada afeito às predileções de Coleirinha). Se considerardes a peça abaixo um ultraje à má literatura, cuja missão é sê-lo, e se chegardes à conclusão que é, em verdade, um despautério à inteligência e à boa educação, considero-me travestido de êxito, e pleno de satisfação por saber que Coleirinha não viveu em vão.
Despencando da ladeira
por Samuel Coleirinha
Lá vem o Brasil, descendo a ladeira
Moraes Moreira
Eu nasci na favela
Eu sou feliz
Eu dormi nos olhos dela
Quis porque quis
Comprei um charuto
Mas não mastiguei
direito o último disco
do Caetano Veloso
Será que ele é,
Será que ele é,
bicha ou solitária?
Não sei não, mas o Caetano
Tem que tomar alcool
mas metanol
até fazer bico
no cularinho do chopp
Despencando da ladeira
Eu vi o mundo rolando
Lá de cima da favela
Um barraco de madeira
Vi do morro despencando
Cheio de febre amarela
Lá de cima da favela
Cara cheia de ramela
Eu vi o mundo boiando
Numa porção de pacuera
Lá de cima da favela
Eu vi a pátria amada
Despencando da ladeira
Acendi tudo que é vela
Rezei pra salvar a pele
E guardar a vida dela
Rezei um rosário reles
E um terço matusquela
Eu gosto mas quem não gosta
Eu vou mas quem não vai
Eu caio mas quem não cai
Eu voo e eles têm três carros
Cai cai balão que eu não te levantar
Eles são famosos, eu sou Napoleão
Eufemismo
é chamar bicha egoísta
De pós-feminista


