Patrimônio artístico e cultural: as Igrejas de Piracicaba (02)
Igreja de São Benedito
Miguelzinho Dutra foi responsável também pela reforma e ampliação da antiga capela de N.S. do Rosário, situada na rua a que deu o nome, que se tornou a igreja de São Benedito, realizada em 1867. Esta igreja, até onde sabemos, é o segundo templo católico construído em Piracicaba, e o mais antigo sobrevivente que ainda guarda grande parte de suas características iniciais.
Provavelmente sua origem deve-se à capela que foi construída no antigo cemitério da Praça Tibiriçá, que possuía uma parte destinada ao enterro de escravizados. (O cemitério localizava-se aproximadamente no local da praça da Escola Estadual “Moraes Barros”). Em 1859, foi cedida metade do cemitério à Irmandade de São Benedito. Um muro, construído pela prefeitura, dividia o cemitério. Existe a notícia que a capela ali existente era dedicada a Nossa Senhora do Rosário, no local da atual igreja de São Benedito. Fato a que se credita o nome da rua que passa à sua frente, a rua do Rosário.
Em 1867, Miguelzinho constrói no lugar da antiga capela uma igreja nova, que é consagrada, agora, a São Benedito, outro santo predileto dos negros. Dutra fez parte da Irmandade, o que o liga aos negros e mulatos, escravizados ou livres, que a formavam. Nestas irmandades, os irmãos se apoiavam mutuamente, tanto nas necessidades mais básicas até no auxílio para custear casamentos e enterros (cerimônias que sempre tiveram alto custo).
Supostamente a igreja teve ajuda financeira do Barão de Resende, fato levantado com conjecturas, não confirmadas por documentos, de alguns historiadores locais. O barão tinha seu solar (casarão) ao lado da igreja, na esquina da atual rua do Rosário com a rua São José (local atualmente de edifício anexo à Câmara dos Vereadores), e é conhecido, assim como sua filha Lydia, em fazer doações para muitas causas e obras de beneficências, especialmente àquelas ligadas à Igreja Católica.
Em 1892, novas reformas são feitas, sendo acrescentada a torre neogótica. De 1910 a 1917, as paredes da igreja, feitas em taipa de pilão, são demolidas e reconstruídas, conservando-se somente a torre. A última reforma é feita com projeto do engenheiro Eduardo Kiehl e a obra é conduzida por sua esposa, da. Eutália Kiehl. O relógio da igreja é o mesmo da antiga Igreja Matriz, a que existia na Praça José Bonifácio antes de ser demolida para a construção da Catedral de Santo Antônio, a partir de 1946.
O templo, como se encontra hoje, possui uma fachada e janelas de inspiração gótica, como era “moda” entre fins do século XIX e começo do XX. Em Piracicaba, lembramos que havia o prédio do colégio Barão do Rio Branco em neogótico (depois alterado) e até hoje, a casa de Prudente de Moraes, atual Museu Histórico e Pedagógico., com janelas ogivais, representando o estilo.

A galé, uma espécie de “hall de entrada”, que classicamente é chamado de átrio ou adro, mas que no caso da galé se projeta para fora do edifício, quase como um “anexo frontal”, é um caso único na arquitetura das igrejas mais antigas da cidade. O que é curioso, pois o tempo apresenta um átrio interno, que é próprio da arquitetura sacra católica, com a curiosidade dos pilares deste recinto serem de madeira, com pintura bastante rústica, simples. O piso ainda é de azulejos hidraulicos, como mostrado na foto.
Temos a informação oral, também não confirmada por documentos, de que a imagem de São Benedito do altar-mór é de procedência portuguesa, e seria do século XIX. As imagens de São Benedito que estão hoje no acervo do Museu Prudente de Moraes podem ter sido veneradas nesta igreja, já que foram doadas à instituição por Arquimedes Dutra, neto de Miguelzinho; mas é possível também que seja somente uma amostra da popularidade do santo.
O altar-mor é uma bela peça de estilo neoclássico, mas com uma curiosa inserção de um florão de estilo barroco, em cima do frontão, bem característico do estilo de Miguelzinho Dutra.
Há outros santos venerados na igreja que são prediletos da comunidade negra católica: a Capela do Santíssimo, em altar lateral, em madeira, de estilo neoclássico, mas novamente, com elementos barrocos, como frontões interrompidos no centro na parte superior, e o nicho com laterais recurvadas, referência tanto a modelos barrocos italianos quanto ao estilo barroco nacional português. O altar apresenta Nossa Senhora do Rosário em destaque, ladeada por Santa Bárbara e São Sebastião.
No acervo da igreja, há uma imagem do Senhor Morto, atribuído a Miguelzinho Dutra, que certamente era utilizado na procissão do Fogaréu, na Sexta-Feira Santa, que era realizada depois das 15h, e que rememorava o sepultamento de Jesus. O costume existiu até a época do Concílio Vaticano II, na década de 1960.
A igreja já serviu, em sua casa paroquial, como residência do sr. bispo e seus auxiliares, na época da construção da Catedral, na década de 1950, assim como foi sé episcopal pelo mesmo motivo.

Intervenções foram feitas recentemente, no século XXI, como a troca do teto de tábuas de madeira, que se encontrava corroído de cupim. Houve a substituição das antigas tábuas por novas, e acrescentadas, em cada canto do teto, uma pintura relativa aos Quatro Evangelistas (o conjunto dos quatro evangelistas, na arte sacra católica, é chamado de Tetramorfo), realizadas pelo artista Eduardo Borges de Araújo.

Havia planos da Diocese, antes da pandemia, em transformar a igreja em Museu Diocesano de Arte Sacra, mas aparentemente mudou-se de ideia. Atualmente, a igreja promove campanha de arrecadação de fundos, feita pela Paróquia da Catedral de Santo Antônio, da qual é integrante, para realizar restauro e reforma, através de leis de incentivo à cultura (Lei Rouanet), que se levados a termo, serão realizados pelo escritório Largo Arquitetura, mesma empresa que realizou o restauro e obras de manutenção da Catedral entre 2019 e 2023. O projeto elaborado, no entanto, prevê uma total descaracterização da igreja, que quer substituir o piso hidraulico por granito, assim como as arcadas de alvenaria por peças de mármore e os altares de madeira por mármore e granito - o que vai totalmente contra o programa iconográfico e arquitetônico original.







