Projeto propõe pedagogia inovadora no ensino de lutas e artes marciais para crianças
Conduzido pela Faculdade de Educação Física da Unicamp, programa tem auxílio da Fapesp e duração de três anos

O tatame como espaço de acolhimento a partir de uma pedagogia para o ensino de lutas mais inovadora, inclusiva e baseada no respeito mútuo. Este é o foco do projeto “(Re)pensando os caminhos entre universidade e comunidade no campo das Lutas, Artes Marciais e Esportes de Combate: proposta de inovação no ensino de crianças baseada no Tactical Games Approach”, da Faculdade de Educação Física (FEF), aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) dentro do programa “Primeiros Projetos”.
Com duração de três anos, o projeto de extensão terá concessão de bolsas para um pesquisador de pós-doutorado, dois mestrandos e dois bolsistas de iniciação científica. A maior parte dos recursos, de pouco mais de R$ 600 mil, será destinada à formação desses pesquisadores, explica o professor da FEF e coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino, que é faixa-preta de jiu-jitsu.
Uma das ações centrais será o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças, independentemente da modalidade ou da formação em Educação Física. “Após essa formação inicial, os pesquisadores acompanharão esses profissionais em seus próprios contextos de atuação, como academias, clubes e projetos sociais, fortalecendo a relação entre universidade e comunidade”, destaca Rufino.
“O objetivo não é a Universidade dizer o que deve ser feito, mas construir junto”, completa o professor, que ressalta que o projeto prevê “escuta ativa dos treinadores, valorizando seus saberes e experiências”. A proposta é reunir representantes de modalidades — como judô, jiu-jitsu, karatê, boxe e esgrima, entre outras — para fomentar a troca de experiências.
Também integrante do projeto, a professora de educação física adaptada Mariana Simões Pimentel Gomes, igualmente faixa-preta de jiu-jitsu, enfatiza que o objetivo é construir alternativas pedagógicas que ampliem o acesso, valorizem a diversidade corporal e promovam experiências mais significativas para as crianças. “A ideia partiu da constatação de que o ensino tradicional das modalidades de luta ainda é marcado por modelos conservadores, hierarquizados e pouco inclusivos, voltados majoritariamente a um perfil específico de praticante”, explica.
A professora destaca que sua trajetória pessoal influenciou diretamente essa abordagem. Filha de um faixa-preta de jiu-jitsu e irmã de uma pessoa com deficiência, ela relata que desde cedo percebeu como o ensino das lutas era direcionado apenas a determinados corpos. “Eu queria ensinar de outra forma, romper com a ideia de que a luta é só para um tipo de pessoa”, afirma. Essa inquietação levou à criação, ainda na graduação, da escolinha de lutas da FEF, um projeto de extensão voltado a crianças da comunidade.
Rufino ressalta que sua experiência pessoal com o jiu-jitsu também foi determinante para sua trajetória acadêmica. Ele conta que iniciou a prática ainda criança, após enfrentar dificuldades de comportamento na escola, e que a modalidade teve impacto direto em sua formação pessoal e profissional. “As lutas me levaram à Educação Física e à universidade”, relata.
Jogos e táticas
Entre os principais eixos do projeto está a busca por ressignificar o ensino baseado apenas na repetição técnica de golpes por abordagens que valorizem jogos, situações-problema e princípios táticos comuns às diferentes lutas. “A ideia é que crianças compreendam, desde cedo, aspectos como movimentação, percepção do outro e tomada de decisão”, continua Rufino.
“Geralmente, a criança aprende um movimento e o repete muitas vezes. Depois, na hora da luta, não sabe quando realizar, como se movimentar ou como reagir ao oponente”, ressalta. “A alternativa apresentada é começar pela lógica da luta: entender que o alvo é móvel e que, ao mesmo tempo em que se ataca, também se é alvo.”

Ao transpor princípios estruturais das lutas para jogos e situações pedagógicas, o projeto busca tornar o aprendizado mais significativo. A ideia é ensinar desde o início conexões e compreensões que, tradicionalmente, só seriam adquiridas muitos anos depois — muitas vezes, apenas na faixa-preta. “Queremos formar praticantes mais conscientes, mais completos e mais autônomos sobre o que estão fazendo”, afirma.
Os docentes também chamam atenção para o alto índice de evasão nas modalidades de luta. Embora muitas pessoas iniciem a prática, poucas permanecem até níveis mais avançados. Para eles, isso está diretamente relacionado a modelos pedagógicos excludentes. “A história que se conta é a de quem chegou à faixa-preta, mas pouco se fala de quem ficou pelo caminho”, observa o professor.
Mais do que desempenho competitivo, o foco está na formação humana. O trabalho enfatiza consciência corporal, autoestima e inclusão. “Todo corpo é potente — seja gordo, magro, alto, baixo, feminino ou masculino. O tatame pode ser um espaço de descoberta e transformação”, destaca Gomes.
A professora enfatiza ainda a necessidade de combater práticas de intimidação, assédio e exclusão, especialmente em relação a mulheres, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. “Ainda engatinhamos em muitas questões, especialmente de gênero e diversidade. Se você for a uma academia hoje, verá poucas mulheres proporcionalmente. E pessoas LGBTQIA+ muitas vezes não se sentem acolhidas. A luta precisa ser para todos — mas isso exige um olhar atento, não pode ser só discurso”, destaca.
“O tatame precisa ser um espaço de acolhimento, não de temor, assédio ou silenciamento. É possível aprender respeito sem medo. Nem todo mundo vai gostar de lutar, e está tudo bem. Mas todos devem ter o direito de experimentar e se sentir acolhidos”, completa.
Além da produção de artigos científicos, o projeto prevê a elaboração de um material didático voltado ao campo profissional. A expectativa é que esse material contribua para a continuidade das reflexões e das transformações propostas, mesmo após o término da pesquisa. “Publicamos muitos artigos, mas eles nem sempre chegam ao campo profissional. Por isso, o curso vai gerar um material didático em linguagem acessível, que permita interação com os profissionais. Queremos construir relações de diferentes formas e documentar isso para que outras pessoas possam continuar”, destaca a professora.
Matéria: Daniela Prandi | Jornal da Unicamp.



