O desenvolvimento do traço do Nhô Quim, por Edson Rontani, em três décadas diferentes: 1950, 1960 e 1980
Há várias versões sobre a criação do mascote do XV de Novembro de Piracicaba, o Nhô Quim. A mais consistente e completa é a história contada por Edson Rontani Jr., filho do artista Edson Rontani (1933-1997), no livro “Nhô Quim: a história que eu conheço”, publicado em 2013. Rontani é pai do autor do livro, mas também pai do personagem como o conhecemos hoje.
Edson Rontani, artista gráfico piracicabano, criador do Nhô Quim, em foto da década de 1960.
O próprio Rontani Jr. reconhece que houve outros colaboradores da construção do personagem: Thomas Mazzoni, Nino Borges, Miécio Café, Archimedes Dutra, o fotógrafo Cícero Correa, que se travestia do caipira-símbolo, e até Ângelo Agostini, cartunista ítalo-brasileiro e criador da primeira história em quadrinhos publicada no Brasil, cujo personagem protagonista era justamente o “Nhô Quim”, em 1869. Nenhum deles, no entanto, foi tão determinante quanto Edson Rontani. Ninguém desenhou tanto tempo o mascote. E foi Rontani quem lhe deu o devido “sotaque caipira”.
O Clube “Coronel Barbosa”, situado no mesmo local em que ainda hoje se encontra, na rua São José, parte do conjunto do Teatro São José, tinha ao lado de sua porta de entrada o “Chalet Paulista”, uma loja de materiais esportivos e jogos, frequentada pelos esportistas da cidade. Essa loja era de propriedade de Armintos Raya, da família que também era, e ainda é, proprietária da “Casa Raya”, da qual o “Chalet” era filial. Os esportistas, principalmente ligados ao clube XV de Novembro, frequentavam a loja por ser próxima da sede do XV, nesta época, situada no mesmo quarteirão do “Chalet” e quase em frente ao “Coronel”.
Teatro São José, provavelmente na década de 1930. Autoria da foto desconhecida. Acervo pessoal Edson Rontani Jr.
O ano da nossa história é o de 1948, quando o XV participava da segunda divisão do Campeonato Paulista de Futebol. Pela primeira vez na história do esporte do estado de São Paulo, o time campeão subiria à divisão de elite, o chamado “Acesso” à a sonhada 1.a divisão. O adolescente Rontani, com 15 anos de idade, começou a desenhar um caipira sem nome, com botinas grandes, calça “pula-brejo”, ou seja, expondo as canelas, magro, de chapéu de palha, ora carregando um guarda-chuva, ora um bacamarte, ora uma varinha de pescar. Executados em cartolina ou até em papel de embrulhar pão, alguns deles foram expostos na vitrine do “Chalet Paulista”, um costume na época. Não se expunham pinturas, nem galerias ou centros culturais para esse fim, nestes anos, muitos menos charges ou caricaturas.
Segundo o jornalista Delfim da Rocha Netto, ou simplesmente o “seu” Rocha, em depoimento ao jornal “A Província”, na década de 1980, teria sido sugestão de um funcionário do “Chalet”, de nome Paulo, para Edson Rontani, que fizesse uma charge semanal, comentando os jogos do campeonato, com um caipira simbolizando o time piracicabano. Ora triste, ora alegre, ora bravo, ora safando-se de outros times, todos os desenhos comentando os jogos do campeonato de acesso.
Voltando ao relato de Rontani Jr., Rocha Netto, que era representante regional do jornal “A Gazeta Esportiva”, de São Paulo, pegou emprestado algumas das cartolinas do jovem cartunista e as levou à capital. Apresentou-as ao editor-chefe da “Gazeta”, Thomaz Mazzoni, perguntando-lhe se teria interesse em publicá-las. Mazzoni, apesar de ter elogiado os trabalhos, recusou-os, justificando a negativa pela impossibilidade de reproduzi-los pelo sistema de clicheria (que eu explico aqui, no primeiro artigo desta série). Teria os mostrado, porém, ao ilustrador do jornal, Nino Borges.
O nome do mascote teria sido criado em parceria de Mazzoni e Rocha Netto: o editor perguntou ao piracicabano sobre o tratamento mais comum entre os piracicabanos, e este respondeu que era “sinhô”. Mazzoni pensou alto: “Sinhô Quinzinho”... Depois de um “brainstorm” ou toró de parpites, chegaram ao nome “Nhô Quim”, portanto, uma versão caipira do nome “Senhor Quinze”.
Mazzoni criou também os mascotes de outros clubes, como o Mosqueteiro (Corinthians), o Santo (São Paulo), a Baleia (Santos), o Periquito (Palmeiras), o Moleque Travesso (Juventus), o Bugre (Guarani) e a Macaca (Ponte Preta), entre outros. Antes da criação do Nhô Quim, eles já apareciam na “Gazeta Esportiva”.
Nino Borges foi o primeiro desenhista a publicar uma charge com o mascote na “Gazeta Esportiva”, em 29 de janeiro de 1949. O Nhô Quim era apresentado aos outros times no início do Campeonato Paulista da Primeira Divisão, já que o Alvinegro Caipira tinha ganho o campeonato de acesso de 1948 e ganhara o direito de estar na elite paulista do futebol.
De autoria de Nino Borges, a primeira charge com o Nhô Quim publicada em um veículo de imprensa, a “Gazeta Esportiva” de São Paulo, em 29/01/1949. O Periquito, mascote do Palmeiras, apresenta o mascote do XV de Piracicaba: “Eh, pessoal, aqui está o Nhô Quim...” (Reprodução - acervo Centro Cultural Martha Watts, Piracicaba)
Mas foi Rontani quem desenhou por mais tempo, a partir de 1952, nos jornais de Piracicaba – “Jornal de Piracicaba” e “O Diário”, e na década de 1990, n”A Tribuna Piracicabana” e no jornal “O Democrata”, até 1996, um ano antes de falecer.
Uma das primeiríssimas publicações do Nhô Quim na imprensa piracicabana, numa coluna de palavras cruzadas, no Jornal de Piracicaba de 03/02/1952.
Conta Rontani Jr. que o pai, antes de começar a desenhar o personagem para a imprensa local, porém, foi a São Paulo conversar com Nino Borges e pedir-lhe autorização para usar o personagem. Nem mesmo Rontani, então com 20 anos de idade, tinha consciência de que fora ele o criador do mascote do XV de Novembro de Piracicaba, mesmo que não tenha sido ele o criador do nome. E que não precisava de autorização alguma para fazer as suas charges.
Um apaixonado pelos gibis, as charges e o Nhô Quim. Rontani sempre desenhou o “Nhô Quim” de graça, nunca recebeu um centavo por suas colaborações nos jornais. Embora Rontani tenha atuado profissionalmente como ilustrador, cartunista, cartazista e até decorador de bailes de carnaval (como iremos falar em um próximo artigo, específico sobre sua carreira artística), desenhava o personagem-símbolo do Alvinegro com prazer, como um hobby, nas horas vagas de seu “trabalho oficial”, como funcionário da Secretaria Estadual de Agricultura.
Também nunca recebeu pela colaboração “Você Sabia”, publicada primeiro no suplemento infantil do jornal “O Diário”, e depois no suplemento concorrente, o “Jornalzinho” do JP. Colaboração muito popular entre as crianças, adolescentes e até adultos, que funcionou, porém, como “vitrine” para trabalhos pagos de caligrafia artística, para diplomas.
Não por isso, mas por dois outros motivos, os originais das primeiras charges de Rontani estreladas pelo Nhô Quim não existem mais: a mentalidade da época – final dos anos 1940, até meados dos anos 1950 -, principalmente da família e professores, católicos, condenavam a leitura de “gibis”, as revistas em quadrinhos, pelas quais Rontani era apaixonado. (Já adulto, se tornaria um dos maiores colecionadores de gibis do Brasil). Seu pai e o irmão mais velho coletavam os desenhos de Edson e os jogavam no lixo. Por isso, não existem mais as cartolinas com os testemunhos das primeiríssimas aparições do Nhô Quim, no “Chalet Paulista”; nenhum desses desenhos foi publicado em jornal ou revista, e não há mesmo uma mísera foto de algum deles.
O outro motivo é que mesmo as charges que foram publicadas em jornais, a partir de 1952, não eram valorizadas como arte, não se considerava importante guardar os desenhos originais. O artista gráfico Érico San Juan, irmão do autor deste artigo, trabalhou no Jornal de Piracicaba no início da década de 1990, e algumas vezes ele coletou do lixo originais de charges do Nhô Quim, que tinham sido enviados para publicação. Depois de serem fotografados para a confecção dos fotolitos, as artes originais eram descartadas. Érico, sem que ninguém visse problema nisto, coletou alguns originais da lata do lixo e os guardou. A maioria destes originais perdeu-se; ao menos temos as imagens publicadas, acessíveis nos arquivos dos jornais, também no livro de Edson Rontani Jr e em suas redes sociais, das quais retirei algumas das imagens publicadas aqui (no final do artigo, listo alguns endereços, pelos quais você pode acessar mais trabalhos do Rontani pai).
Piada sobre o “fascínio” do Nhô Quim quanto à Segunda Divisão do Paulistão, representada por uma mulher bonita, que o paquera. Charge da década de 1950.
Outra curiosidade é que Rontani nunca pisou em um estádio para assistir a um jogo do XV presencialmente, nem no antigo “Roberto Pompeu de Toledo”, apelidado de “Panela de Pressão”, nem no atual “Barão da Serra Negra”. Ele preferia acompanhar os jogos pelas transmissões de rádio; Rontani era tão fã do rádio que chegou a publicar uma revista amadora, um fanzine, a “Revista do Rádio”, com notícias dos bastidores do rádio em Piracicaba, na década de 1960.
Charge de Rontani publicada no início da década de 1990, em “O Diário”, de Piracicaba, colorizada por Edson Rontani Jr.
Em 19 de março de 1953, a “Gazeta Esportiva” acabou por publicar um desenho de Rontani, com grande destaque, com as mascotes dos times de futebol de Piracicaba, incluindo o XV.
Arte de Rontani, publicada na “Gazeta Esportiva” em 19/03/1953, com as mascotes dos times amadores de Piracicaba, e o único profissional, o XV de Novembro. (Reprodução).
Outras encarnações do Nhô Quim. Outros cartunistas da imprensa paulistana, como Miécio Caffé, Messias Mello, Almir Bortolassi e Manolo também deram vida ao Nhô Quim.
O Nhô Quim “causando” na charge de Nino Borges, em 1952, na “Gazeta Esportiva”. (Reprodução - Acervo do Centro Cultural Martha Watts, Piracicaba).
O cartunista Manolo, no jornal semanal “O Governador”, de São Paulo, à esquerda, em charge do dia 17/07/1950, na qual o Nhô Quim é flechado pelo Bugre (mascote do Guarani, de Campinas), em partida que terminou empatada em 2x2, à direita, no mesmo jornal, depois de partida em que o Alvinegro Caipira levou uma surra de 6x0 do Palmeiras, data da publicação não localizada.(Reprodução)
Messias de Mello representa o XV de Piracicaba como um fazendeiro, na charge da década de 1960, da “Gazeta Esportiva”, em que a Ponte Preta é representada como uma mulher, e não a Macaca, mascote tradicional do time campineiro (Reprodução).
À esquerda, Dálcio Machado, cartunista de Campinas, fez sua versão do Nhô Quim, a convite da comissão organizadora do Salão Universitário de Humor da Unimep, em 2002. Ao lado, o piracicabano Lucas Leibohlz, em moderníssima versão de arte digital, da década de 2020.
Archimedes Dutra, conhecido pintor acadêmico, fundador do Salão de Belas-Artes de Piracicaba em 1953, publica este desenho, com o Nhô Quim fumando um charutão escrito “Gualicho” (cavalo de corridas do Rio Grande do Sul, que na época estava ganhando todos as corridas do Jóquei no Rio de Janeiro). Procedência desconhecida, reproduzido da capa de fascículo do Memorial de Piracicaba, 2002-2003, de Cecílio Elias Netto.
O autor deste artigo, que trabalhou como cartunista e ilustrador entre as décadas de 1990 e 2010, também tem suas versões do mascote do XV, como mostrado abaixo.
O Nhô Quim por Fábio San Juan, na revista Viletim de agosto de 2001, como “o Pensador”, de Rodin, no Salto do rio Piracicaba.
Charge de Fábio San Juan em “XV em Revista”, de 2009.
O mascote aparece ao lado do Saponga, atualmente o torcedor-símbolo do Quinzão, no “Jornal do XV”, de 2008, charge de Fábio San Juan.
Atualmente, o Nhô Quim tem o piracicabano Luís H. Marangoni, cartunista oficial contratado pelo clube, que desenha o mascote desde 2013 em material oficial reproduzido em itens como canecas, flâmulas e outras aplicações, e em publicações internas do XV de Novembro. Também já publicou charges com o personagem no jornal “A Tribuna Piracicabana” na década de 2010.
Esta charge de Marangoni, publicada em 2015, no perfil oficial do XV no Facebook, antes de um jogo do time contra o Palmeiras, no estádio do dono da casa, em São Paulo, causou polêmica entre os torcedores palmeirenses. Eles ficaram ofendidos com a referência ao apelido pejorativo dos palmeirenses, que é “Porco”; tradicionalmente, o mascote que representa o time é o Periquito e não o Porco. O caso foi parar até na imprensa paulistana, com muito bom-humor.
Nhô Quim “de férias”, em período de intervalo entre campeonatos, no desenho publicado em "O Diário” de 08 de abril de 1984 (reprodução).
Fontes da pesquisa:
RONTANI Jr., Edson. Nhô Quim: a história que eu conheço. Rio das Pedras/SP: Gráfica Riopedrense, 2013. Livro editado com apoio do 40.o Salão Internacional de Humor de Piracicaba.
SAN JUAN, Érico. “A cidade onde o peixe ri: um esboço da história do humor gráfico em Piracicaba”. In: VÁRIOS AUTORES. Os Quinze de Piracicaba. São Paulo/SP: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil, 2003.
Blog sobre Edson Rontani, criado por seu filho, em homenagem ao artista plástico, caricaturista, chargista, ilustrador, colecionador de revistas de histórias em quadrinhos,criador do Nhô Quim e também do primeiro fanzine brasileiro, o “Ficção”.
“Piracicaba - A Foto e a História”, blog criado a partir da coluna "A Foto e a História" publicada no jornal "A Tribuna Piracicabana", recuperando a memória visual e histórica de Piracicaba/SP.
Publicações nos jornais “Gazeta Esportiva” e “O Governador”, da cidade de São Paulo, “Jornal de Piracicaba”, “O Diário” e “A Tribuna Piracicabana”, citados no artigo.
No próximo artigo de “Pequena História do Desenho de Humor de Piracicaba”: Os cartuns de Renato Wagner e Derli Barroso na revista Mirante (1957-1961).




















Parabéns!!!!